A incrível geografia do cinema em Coimbra

Num verão dos anos sessenta em Coimbra, um cinema improvisado na avenida Fernão Magalhães, nº 179, exibiu Os Inadaptados (John Huston, 1961). A sala funcionava no quartel dos Bombeiros Voluntários e, naquele dia, o projecionista errou a ordem das bobines e exibiu o meio do filme no início, o fim no meio, terminando a sessão com as primeiras cenas do drama estrelado por Clark Gable, Marilyn Monroe e Montgomery Clift. Abílio Hernandez estava na plateia e nunca mais esqueceu a confusão das bobines trocadas no cinema dos Bombeiros.

Para os cinéfilos conimbricenses, aquela sala de cinema era um dos melhores programas para os dias de calor, mas Coimbra contava ainda com o Sousa Bastos, o Tivoli e o Cine-Teatro Avenida – consideradas casas da sétima arte na cidade dos estudantes.

Eu só tive o privilégio de conhecer estes lugares todos porque sou velho! Comecei a frequentá-los muito pequenino, ainda sem saber o que eram aquelas coisas que me apareciam à frente no ecrã, imagens que me faziam levantar na cadeira e avisar ao cowboy que estava um homem atrás dele com uma pistola na mão… As minhas memórias mais antigas são no Tivoli, no primeiro Tivoli. Coimbra teve a sorte de ter tido ao longo do século XX muitas salas de cinema, algumas foram construídas como tal e as outras que se foram improvisando, como a dos Bombeiros, o Centro Norton de Matos, na ACIC - Associação Comercial e Industrial de Coimbra, Cine-Estúdio Girassolum. Mas, ao mesmo tempo, a cidade foi madrasta e deixou que desaparecessem, por responsabilidade do município. Por incúria da cidade, lugares como o Sousa Bastos caíram em ruína absoluta, morreram por falta de apoio, conta Abílio Hernandez, professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC).

Cinema Tivoli 

Na Avenida Emídio Navarro, 16, ficava o Cinema Tivoli, uma sala de dimensões médias e de interiores bem decorados. Durante várias décadas foi a principal sala da cidade e sobreviveu até aos anos 90. No antigo cartaz do filme Alarme na Cidade dos Rapazes (Men of Boys Town, Norman Taurog, 1941) Spencer Tracy e Mickey Rooney são as estrelas do maior acontecimento cinematográfico de todos os tempos.

Embora vindo da área da Filologia Germânica, Hernandez tem um amplo trabalho de investigação na dimensão do Cinema e da cinefilia. Foi o criador das disciplinas de Cinema oferecidas à Academia conimbricense: ‘Caminhos do Cinema Português’ e ‘História e Estética do Cinema’, pioneiras no país.

O amor pela sétima arte é tal, que o professor nos surpreende mostrando a sua deliciosa e inseparável caderneta, onde aponta os filmes (quase todos) que foi ver ao cinema durante a adolescência. Começou quando tinha 12 anos. 

Esperança

No fim do filme Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore, 1988), a morte de uma sala é mostrada como um momento devastador. Nas entranhas arruinadas do Paradiso, Totó observa os bancos amontoados e a tela destruída, logo a seguir o prédio é demolido para dar lugar a um estacionamento. Essa quase total erradicação das salas de projeção do cenário urbano, altera toda a estrutura do locus onde a experiência cinema é projetada, uma história que já soma 126 anos - se considerarmos que o cinema começou em 1895.

O lugar onde o cinema é exibido influencia, reflete, acrescenta e modifica a experiência cinematográfica, o modo como apreciamos um espetáculo audiovisual. Nesse enquadramento, surgiu este ano em Coimbra um novo lugar para o exercício da arte das imagens em movimento. 

Um novo antigo, um antigo renovado: a Casa do Cinema de Coimbra - de que já falámos aqui - é fruto da iniciativa de três associações do setor, que juntaram-se para reativar a desusada sala das Galerias Avenida. O projeto foi garantido numa co-produção entre o festival Caminhos do Cinema Português, juntamente com o Centro de Estudos Cinematográficos da Associação Académica de Coimbra e o Fila K Cineclube.

 

Aquilo que agora temos para fazer é dar a ver aquilo que não nos inunda como uma linguagem padronizada. Aquilo que se procura aqui fazer é sobretudo dar a ver uma cinematografia diferente, uma programação articulada para formar uma comunidade que viva o cinema e que pelo menos se interesse em torno dos temas, e que os vá conhecendo, porque se não houver aqui comunidades que criem hábitos de usufruto cultural e tudo isso, este projeto da Casa do Cinema torna-se por si efémero tal como qualquer outro, explica Tiago Santos.

Um dos idealizadores do projeto, Tiago é colaborador nos Caminhos do Cinema Português desde 2007 e no Centro de Estudos Cinematográficos desde 2009. Ajudou a criar o projeto pedagógico Cinemalogia da ideia ao filme e é, atualmente, Doutorando do Programa de Materialidades da Literatura na Universidade de Coimbra.

 

Ontem

A conversa entre Abílio e Tiago, feita num dos primeiros lugares do país a receber o cinema, transita naturalmente entre o passado e futuro da cinematografia e da cinefilia da cidade e mergulha na história do cineclubismo nacional. Também explica o nascimento da forte formação teórica, consolidada e pioneira que procura hoje construir as bases estruturantes de uma escola de formação prática de cinema, onde seria essencial dominar a linguagem cinematográfica para poder quebrar as regras dessa própria linguagem.

Uma atividade importante das salas de cinema em Coimbra, era o relacionamento solidário com as associações que promoviam a cultura cinematográfica, como o Clube de Cinema de Coimbra: O único cineclube do país, que não se chamava cineclube de qualquer coisa e que foi fundado nos anos 40; nos 50 e 60, viveu a sua época de ouro, à tarde ocupava uma sessão aqui no Avenida e à noite no Sousa Bastos - veja que importância. Nessa altura o CCC tinha uns mil sócios e, portanto, dava para fazer estas duas sessões com uma programação bastante cuidada. Uma sessão em especial ficou na minha memória: foi quando exibimos pela milésima vez "Casablanca" no Sousa Bastos, e na cena em que o público de um bar levanta e canta La Marseillaise, cantamos juntos, com as mesmas lágrimas da amante rejeitada de Rick Blaine (Humphrey Bogart), Yvonne (Madeleine LeBeau), recorda Abílio Hernandez.

Teatro Sousa Bastos

Situado na Alta histórica de Coimbra, encalacrado entre as ruas estreitas que nos levam até à Universidade, mais precisamente no número 26 da Rua Joaquim António de Aguiar, o edifício foi construído onde em tempos havia um templo – Igreja de S. Cristóvão, do século XII. O Teatro Sousa Bastos constitui a primeira casa de espetáculos edificada na primeira década do século XX. Em 1914, com a aquisição de um animatógrafo, o Sousa Bastos publicita na imprensa os “sacrifícios da empresa, que não olha a despesas para oferecer boa música e magníficas fitas”.

Nesta época, a política e o cinema caminhavam de mãos dadas. As atividades culturais e os movimentos de resistência eram praticamente uma coisa só e, a partir do 25 de abril, quando a atividade política passa a ser legal, a maior parte das pessoas que estava ligada ao cineclubismo em Coimbra se ocupou de outras atividades e o CCC começou a ser abandonado pelas direções e pelos sócios. É curioso que a Revolução dos Cravos matou o Clube de Cinema de Coimbra, mas o cadáver desta associação foi semente para o estudo de filmes na Universidade.

Não houve uma morte, mas um adormecimento e um renascimento, como explica Abílio: Como cineclube tínhamos duas pequeninas divisões na Ferreira Borges e pagávamos uma renda barata, até que, em meados dos anos 80, o Clube de Cinema de Coimbra recebeu ordem de despejo. Nessa altura eu já estava assistente na FLUC e alguém me perguntou se a Faculdade não poderia fazer alguma coisa e fazer alguma coisa era ficar com todo o espólio do clube e comprometer-se a registar e catalogar todo esse material e depois encontrar um espaço na Faculdade para disponibilizar a quem quisesse investigar cinema. Consegui. Fomos então para uma pequena sala no segundo piso e em 1985 eu criei a cadeira que tinha um nome que hoje é muito conhecido ‘Caminhos do Cinema Português’ (sim… o festival é uma homenagem). Em 1986 criei a cadeira ‘História e Estética do Cinema’ que foi a primeira cadeira de cinema dada numa universidade portuguesa.

 

Hoje

As conversas são como as cerejas e foi bastante difícil gravar a cena final. Tiago arrematou o roteiro da entrevista com os números recentes do investimento público para a sétima arte: O orçamento municipal de apoio à atividade cinematográfica passou de oito mil e quinhentos euros para 15 mil, portanto, trabalhamos com migalhas na arte que é a mais cara de todas. Só temos apoio para ficar nesta sala até 2023 depois, não sei. Estamos aqui a recuperar o novo cinema e a exibir obras tardias, para que as pessoas possam ler a evolução dos cineastas portugueses e perceber o que é que aquele novo cinema veio romper efetivamente, mostrar o que era Portugal: nem tudo era um conto de fadas, um "Pátio das Cantigas", éramos mais “Verdes Anos” de Paulo Rocha. Nosso cinema é fundamental para entender o Portugal de ontem e o de hoje.

O festival Caminhos do Cinema Português está a decorrer em Coimbra, com dezenas de filmes para ver, até ao dia 20 de Novembro. O programa está aqui

Texto: Vilma Reis, com a colaboração de Mariana Costa na transcrição e pesquisa
Fotos: Filipa Queiroz, Vilma Reis, Livraria Miguel de Carvalho

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Maria
13.11.2021

Li com grande gosto, a história do Cinema em Coimbra! Um agrado, o trabalho que vejo desenvolvido.
Obrigada!