COIMBRA NO MUNDO | Londres, Inglaterra

Vivo em Londres. Na verdade, é a segunda vez que vivo aqui embora a primeira tenha sido apenas uns meses, há muito tempo e enquanto estudante. Fora o Reino Unido, já morei na Austrália, Brasil e França, com passagens de poucos meses por outros cantos.

O que me levou a fazer as malas pela primeira vez aos 21 anos foi uma enorme vontade de explorar a terra da felicidade, o lugar de onde vinha a música que ouvia, as novelas que via e muita gente de quem gostava, sempre com um espirito leve. Fascinavam-me as possibilidades e não saí desiludida. O Brasil mudou-me para sempre. A mim, à minha forma de ver a vida, ao que tenho para dar e à maneira como me relaciono.

 Depois disto, é como dizem: só custa começar. Para mim, a ideia de pôr a vida numa mochila, entrar num avião e partir à aventura, começar do zero, é viciante. Há algo de assustador, de muita adrenalina e magia na ausência de uma zona de conforto, no desconhecido. Não sou muito de montanhas-russas, não consigo conceber a ideia de bungee jumping ou skydiving. Acho que mudar acaba por ser o meu desporto radical.

 A minha história acho que acaba por ser essa, a mudança. De país, de carreira, de estilo de vida. Advocacia, hotelaria, vendas, tecnologia, sustentabilidade, o meu próprio projeto em que ajudo as pessoas com as suas carreiras, start-ups, ONG, PME, empresas com 360 mil pessoas a nível global, trabalho presencial, trabalho remoto a partir de outro continente, já fiz tanta coisa, já mudei tantas vezes. Só não mudo de amigos, esforço-me para fazer pontes imaginárias na geografia e nos fusos horários. Faço novos, mas agarro-me aos velhos e bons como se a minha estabilidade dependesse deles, porque depende. Não poder estar com as pessoas durante a pandemia desestabilizou-me e amedrontou-me mais do qualquer mudança que fiz até hoje.

Quando em 2019 decidimos que tínhamos de regressar à Europa, pensámos qualquer lado menos o Reino Unido. O universo deu uma gargalhada e abriu-nos umas quantas portas por aqui. E a verdade é que não podia estar mais feliz com isso. Adoro a mistura londrina, adoro a liberdade. Cada um é como é, veste-se como lhe apraz, reza a quem quer e no fim do dia sentam-se todos no mesmo café. É algo único, que nunca vi em mais lugar nenhum. Londres é grande o suficiente para ter de tudo e pequeno o suficiente para que o tudo esteja sempre misturado. Fora isso, mudar é sempre um caos burocrático a todos os níveis. Mudar para aqui já com o Brexit decidido também prometia muita diversão ao nível do papel. Mas a verdade é que nisso ninguém bate o Reino Unido e a Austrália: a vida é online. A informação está toda online, super bem organizada, e tudo se resolve com alguma paciência, mas sem filas, sem perdas de tempo, sem infernos de marcações. 

A única coisa de que não gosto mesmo nada por aqui é o uso absurdo do plástico. Nos supermercados comuns, até as bananas vêm embrulhadas em plástico. Estavam à espera que falasse do frio? Nunca pensei, mas aprendi a lidar com ele e agora até gosto dele às vezes. A roupa térmica é uma paixão recente. E os dias cinzentos são bem menos do que esperava!

Saudades de Coimbra? Da família, claro. E do facto de tudo ser tão próximo — faz com que se consiga fazer mais coisas, mais diversificadas, em menos tempo. É fácil encontrar toda a gente no café do costume. E cada vez gosto mais de passear na alta, na baixa e à beira-rio.

Este ano foi absurdo, nos últimos 12 meses passei 6 meses em Portugal (em vários lugares) em teletrabalho. 2 deles presa, quando fecharam o espaço aéreo. Foi ótimo. Fuji ao pior inverno de Londres e a um dos verões com menos sol dos últimos 100 anos. Quando vou, a prioridade é ver as pessoas. Gosto de ir a casa da minha avó e estar lá um bom tempo, em Vila Nova do Ceira, perto de Góis, onde passei grande parte das férias desde miúda. Por Coimbra, gosto das coisas de sempre. Passar no Galerias, na Vénus, no Tropical, sentar-me no baloiço do Seminário e passar a ponte pedonal do Parque Verde.

Na cidade e no país, acho que precisamos de melhorar com urgência os nossos serviços e informação online, a burocracia. A falta de informação sobre direitos, serviços, possibilidades leva a situações precárias que não se justificam num país que tem tanta coisa a seu favor. Informação e a possibilidade de agir sobre ela. Em 2021 vivemos num mundo online. Como é que se justifica que tantos serviços peçam reuniões para obter informação, entregar documentos, levantar pedidos — não admira que não tenham vagas. 

Fora isso, falo com muitas pessoas que tentaram voltar para Portugal, chegaram a trabalhar no país e voltaram a sair, desiludidas com as hierarquias rígidas e o autoritarismo dentro das empresas, à moda antiga, em que não se pode questionar, em que sair a horas é tirar a tarde, sem flexibilidade, sem autonomia, sem modernização. Confia-se pouco, dos dois lados. Neste aspeto acho que as coisas estão a mudar depressa, até porque graças ao trabalho remoto as empresas em Portugal começam a perder profissionais que passam a trabalhar remotamente para outros países. 

A burocracia e a cultura de trabalho são dois fatores muito importantes para mim, claro. Imagino que sejam para todos. Mas se/quando regressar, será pela família, pelos amigos, pelo sol, pelo mar, pelo calor presente em tudo em Portugal. Há coisas que valem só por si, e que não compensam tudo (principalmente a nível da cultura empresarial, onde passamos tanto tempo da nossa vida), mas compensam por tanto. A pessoa passa 6 horas de uma vida na fila da loja do cidadão, mas, entretanto, faz dois amigos, e depois senta-se à beira-rio ou à beira-mar, com 17 graus e sol em Dezembro, com um petisco, um fino, uns amigos e a família, faz apostas sobre quanto tempo demorará aquele amigo que chega sempre atrasado, e vai dando umas gargalhadas enquanto ouve histórias sobre o fim de semana anterior. Os maiores prazeres da vida são tão simples, não são?

Mariana Garcia Delgado

* A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico.

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