RU(G)AS DE COIMBRA por Ricardo Jerónimo

Era aqui a primeira casa onde vivi e onde me lembro de mim. Mesmo em frente estava o Centro Comercial Mayflower, um conjunto de lojas nos pisos inferiores de 4 grandes prédios brancos. Era Mayflower que chamávamos a tudo aquilo, mas, na verdade, cada um dos intervalos entre os prédios correspondia a nomes diferentes (Primavera e Tropical).

Às vezes a minha mãe ia lá ao cabeleiro, à parte semi-subterrânea que só dava para as traseiras, e eu tinha autorização para ficar por ali a vaguear nos corredores, onde me entretinha a subir àqueles bonecos de pôr moedas, ou então a ir para a porta da Fuga, obviamente sem coragem para entrar, mas fascinado com as capas dos discos por trás do vidro. Outros dois pontos de enorme interesse da avenida ficavam no extremo oposto, mas só os comecei a frequentar na adolescência, quando já nem ali vivia. Um era a Vénus, onde ia em busca das mini-pizzas, às quais, até aos dias de hoje, não consigo resistir. O outro era o States, onde aprendi a gostar de concertos e música bem alta, coisas nas quais também me viciei.

Mas, voltando ao meu prédio, este tinha 7 andares, era revestido a tijoleira e ficava mesmo no arranque da avenida, vindo do lado do hospital. Estava encostado a um conjunto de edifícios que se estendiam por toda a avenida, todos eles com o rés-do-chão recuado, o que criava um longo passeio coberto contínuo, no qual se intercalavam entradas, montras e portões de garagem.

Mesmo por baixo do meu prédio havia 3 lojas. A primeira era uma oficina de automóveis, coisa que nunca me atraiu muito. Mesmo ao lado, a Celtécnica, uma loja de electrodomésticos que tinha na montra 5 ou 6 televisões a emitir em simultâneo. Recordo-me de ficar muitas vezes meio hipnotizado a olhar para aquele caleidoscópio de ecrãs mas, curiosamente, a única coisa concreta que me lembro de lá ter visto foi, em contínuos replays, o calcanhar do Madjer, em 1987. Foi esse instante que me ficou na memória mas, na verdade, a minha paixão naquela altura já era o Chalana (bem que tentei tornar-me canhoto, com uma pequena bola no corredor de casa), mas a ele só me lembro de o ver na TV da sala, a fazer aquelas arrancadas em França e no México. Logo depois destas lojas, havia uma terceira que tinha a particularidade de estar junto a um canto, com uma boa parte da parede lisa, o que lhe dava enorme potencial para ser uma baliza.

Nessa altura pouco mais me interessava do que um sítio que pudesse servir de baliza e onde, com mais um amigo, pudéssemos jogar aos chutos. O problema é que essa loja vendia candeeiros, porcelanas e cristais... E, com a porta aberta, o risco era enorme, claro. Por isso, só podíamos jogar lá enquanto a dona da loja não nos expulsava. Felizmente essa era a baliza secundária. Aquela que nos dava liberdade total ficava na esquina do prédio seguinte. Além de segura, tinha uma característica curiosa: numa campanha presidencial, toda a parede tinha sido forrada com cartazes de dois candidatos. E, por isso, mais ou menos entre 1986 e 1990, marcar ali um golo era o equivalente a mandar uma forte bolada à cara do Mário Soares ou do Freitas do Amaral.

Texto: Ricardo Jerónimo
Fotos: Coolectiva

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