COM PAPAS NA LÍNGUA | Condeixa-a-Nova

Atravessamos o pitoresco centro da vila de Condeixa-a-Nova, de ruelas estreitas e estrada de pedra ao estilo romano, e encontramos lugar perto do restaurante Vida e Luz, a casa de Almerinda Quintas que nos recebe com pompa, circunstância e muita tradição. É lá que conversamos com Nuno Moita da Costa, Presidente da Câmara de Condeixa-a-Nova, e o amigo Albano Leandro, engenheiro eletrotécnico.

Nuno Moita da Costa é natural da Arrifana, em Condeixa-a-Nova, mas nos anos 80 mudou-se para a sede do concelho. Licenciou-se em Economia, é professor, foi auditor interno nas Estradas de Portugal S.A. e administrador do Instituto de Gestão Financeira e Infraestruturas da Justiça. É coautor de várias obras sobre Gestão, Contabilidade e Finanças Públicas e preside o município desde 2013.

ENTRADAS

Nozes, Mel, Queijo do Rabaçal, Papas Laberças, Punhetas de Bacalhau, Sardinhas em Vinha d’Alhos

Somos recebidos com uma mesa farta no restaurante Vida e Luz.

Nuno Moita da Costa É verdade. Temos aqui Queijo fresco do Rabaçal, que é um queijo excecional e uma das referências da região, já Eça de Queirós referenciava muito. É uma das coisas de que gosto muito. Podemos juntar um bocadinho de mel.

É tudo tradicional e caseiro, mas o que é que nesta mesa é mais típico de Condeixa-a-Nova?

NMC São as Papas Laberças. Na Arrifana, a minha avó, quando a sopa ficava passada de um dia para o outro, fazia este prato. As últimas vezes que comi Papas em casa foram as dela.

Albano Leandro Sim, mistura-se a farinha, para dar consistência. Acompanha bem a sardinha, por exemplo.

Costumam comer estes pratos tradicionais ou é só em ocasiões especiais?

NMC As Papas não mas, por exemplo, o Cabrito Assado no Forno, sim. É feito com o animal que pasta nas Serras de Sicó e come daquela Erva Santa Maria, que lhe dá um sabor diferente à carne.

AL Tradicionalmente, o pessoal da serra trazia os cabritos para vender em Condeixa na Páscoa, daí o termos também. Vinham no seu burrito, passavam à porta das nossas avós e vendiam. Ou ofereciam, se tivessem algum tipo de dívida.

Ainda se lembra de ver isso?

AL Sim, disso ainda me lembro.

NMC Nós temos produtores de cabrito na serra, na nossa freguesia do Furadouro, particularmente no Zambujal, onde também se faz o Queijo do Rabaçal. São aldeias vizinhas. O cabrito tem de ser pequenino e é assado no forno. Também comíamos nas Festas do Senhor dos Passos e de Santo Agostinho, nosso padroeiro.

Também têm festas como os Sabores de Condeixa – Semana do Cabrito, promovido pela Câmara Municipal, em parceria com a restauração local.

NMC Sim, são na mesma altura, lá para maio/junho. Desde 2013, que a Câmara Municipal de Condeixa-a-Nova patrocina com doze cabritos cada restaurante aderente da iniciativa e durante nove dias, eles servem-nos em almoços e jantares num menu que custa 13€, que inclui vinho Terras de Sicó e Escarpiada, que é o nosso doce típico. Começámos com dez e já vamos em dezoito restaurantes aderentes.

Participa muita gente?

AL Sim, é difícil marcar mesa nessa altura.

Os locais também participam, então?

AL Aproveitamos para convidar amigos para vir cá nessa altura.

NMC Tem sido um sucesso! A primeira edição fizemo-la na mesma altura da Feira do Queijo do Rabaçal, que é feita pelas Terras de Sicó - uma associação de desenvolvimento que envolve seis municípios, que além de Condeixa são Alvaiazere, Ansião, Penela, Pombal e Soure. A conjugação dos dois momentos fez disparar a procura do queijo.

Costumam vir ao Vida e Luz?

NMC Sim, é a segunda vez esta semana. Também é um dos seis restaurantes aderentes ao Programa Seleção Gastronomia e Vinhos, da AHRESP, e é um dos sítios mais tradicionais para comer cabrito aqui em Condeixa.

Dentro da preservação do tradicional, também há espaço para a inovação em Condeixa, transformaram recentemente uma antiga escola primária feminina numa incubadora de empresas ligadas ao sector do turismo e gastronomia, a Escola de Condeixa Foodlab, no âmbito do projeto Tourism Creative Factory.

NMC É uma parceria entre a câmara, o Turismo de Portugal e a Comunidade Intermunicipal (CIM) da Região de Coimbra. O Turismo, como sabe, é proprietário das escolas de hotelaria, e os alunos que saem e queiram desenvolver ideias próprias podem fazê-lo nesta espécie de incubadora para a gastronomia. Além das ações de formação, tem programação contínua, com workshops e aberta ao público. Também aqui os restaurantes estão a aderir, até porque as formações interessam-lhes. Este mês temos formações de saladas frescas, queijo da região, espumante da região... O projeto não é só de Condeixa, também está ligado à Região Europeia da Gastronomia 2021/22. Nós distinguimo-nos pelo património romano, como Conímbriga, mas a gastronomia é praticamente comum a toda a região, salvo algumas exceções. As Escarpiadas só se encontram aqui em Condeixa, por exemplo. O projeto chama-se Tourism Creative Factory, é o primeiro mas vai haver mais.

O que acha da distinção, da Região de Coimbra como Região Europeia da Gastronomia?

NMC Tivemos azar, porque por causa da pandemia. Não potenciou. Mas traz conhecimento e relevância à região, promoção. É fator essencial de distinção.

Falando em distinção, a de Condeixa é a herança romana.

NMC Sim, é o que nos distingue dos outros concelhos todos. Conímbriga, como sabe, é a Direção Geral do Património Cultural que toma conta daquilo. Temos ali 100 mil visitantes por ano. Pegámos nessa herança e fizemos um museu novo, que é o museu PO.RO.S. - Museu Portugal Romano em Sicó. A ideia é captar os turistas que vêm a Conímbriga, não agenciados, por isso fomos a vários eventos e feiras de turismo. Nos primeiros anos de funcionamento, teve cerca de 40 mil visitantes, o que é muito bom para um museu municipal.

O museu, que é altamente interativo, complementa o complexo arqueológico.

NMC Trabalhamos em parceria. Também vamos assinar um protocolo com a Universidade de Coimbra, no âmbito da Cultura e do Turismo. Vouchers com descontos, à semelhança do que já temos com o Portugal dos Pequenitos e o Exploratório. É um processo que já lançámos para Conímbriga também. Já fizemos o levantamento do património material, imaterial e paisagístico de Condeixa, que é uma coisa excecional. Ao longo destes sete anos, esse trabalho está feito e temos o dossiê entregue.

BEBIDA

Encosta da Criveira, Tinto

Temos aqui um vinho da região.

NMC Este vinho teve uma evolução imensa nos últimos dez anos. Envolve muito trabalho da Associação de Desenvolvimento Terras de Sicó e de muitos produtores e associações. Já fazem vinhos tintos com qualidade e brancos então, com excelente qualidade. Está sempre a melhorar. O trabalho dos enólogos Gonçalo Moura da Costa e Alexandre Carril junto aos nossos agricultores foi muito importante, a formação notou-se mesmo na qualidade do vinho, eu costumo visitar as adegas e posso garantir.

Também não se pode esquecer o trabalho da Fundação ADFP de Miranda do Corvo, que é bastante meritório.

AL O território sempre teve mais bons vinhos brancos do que tintos.

NMC Há boas castas, é mais fácil fazer um bom vinho branco do que um tinto.

Tinham um projeto de transformar a antiga fábrica Cerâmica de Conímbriga, num espaço dedicado à promoção de indústrias criativa. Sempre vai para a frente?

NMC Sim, estamos à espera para começar a obra, será para manter a tradição da pintura à mão, em parceria com o IPN - Instituto Pedro Nunes. O que eu queria ali era algo semelhante ao que já vi em Itália, um espaço onde artistas podem criar, vender, trabalhar com acesso a tecnologia e, ao mesmo tempo, ser um espaço de lazer. Como é grande, é possível fazer muita coisa. A tradição da pintura à mão está a perder-se e, além disso, é uma forma de captar turismo ligado à cultura. O nosso objetivo sempre foi a captação de investimento para Condeixa. Estamos bem localizados, por isso há uma vantagem competitiva e temos de puxar por ela. Já temos atraído empresas, como a Cannexpor, que vai dar emprego a muita gente, mas o nosso potencial cultural é enorme. Ninguém tem, exceto Coimbra, um sítio com 100 mil visitantes por ano. Conímbriga já foi o espaço mais visitado do país, agora é o sexto, mas juntamente com a Biblioteca Joanina de Coimbra é dos mais visitados fora de Lisboa. Também houve aposta em obras e renovação do Museu Monográfico, em que a câmara serviu como agente para captar investimento de fundos comunitários, juntamente com a CIM. E não podemos esquecer que está só um sexto descoberto, portanto, todo o trabalho que agora já começámos a fazer também, com a Faculdade de Arqueologia, tem a ver com esse processo do alargar do complexo arqueológico e que, para mim, é a coisa mais importante deste reforço financeiro.

Albano, que é que acha disto tudo, deste desenvolvimento de Condeixa que tem testemunhado?

AL Em termos de turismo, e hoje vemos que é um aspeto bastante diferenciador a nível nacional, os municípios apostam bastante. Tem sido feito bastante trabalho. Além da aposta de Conímbriga, que é o grande ponto de atração, também as dinâmicas das festas e as recriações históricas. Mas, como percebemos neste último ano, não pode ser só o turismo. Penso que ainda há um trabalho que pode ser feito, e creio que está a ser pensado pela câmara, que é o facto de termos visitantes que nem sempre vêm ao centro de Condeixa. Que interajam com a vila, com o comércio, com a restauração. Temos um conjunto de palácios bem recuperados e iniciativas ao nível da fixação da indústria. Além de ser um dos poucos municípios da região onde a população tem crescido.

NMC É verdade. Temos escolas, temos qualidade de vida e a proximidade de Coimbra ajuda. Nós já precisamos de outro pavilhão desportivo, temos tudo ocupado a 100%. Uma forma de fixar a população é dar acesso a bons serviços desse tipo, nas áreas da Educação, do Desporto e da Cultura. Esse é um problema que temos de arranjar maneira de resolver, mesmo que seja através de parcerias com privados. Temos terreno, só nos falta orçamento.

PRATO PRINCIPAL

Morcela de Condeixa, Cabrito Assado no Forno com Batata Assada, Arroz de Miúdos e Grelos, Chanfana

Falou das recriações, a iniciativa «O Vislumbre de Um Império», promovida pela Câmara Municipal, que faz parte de uma estratégia de promoção e valorização das Ruínas de Conímbriga, uma das maiores povoações romanas de que há vestígios em Portugal. É um grande sucesso, não é?

NMC Fizemos a primeira apresentação em 2014. Contratámos uma empresa e fizemos a recriação, mas a ideia sempre foi abrir à população e associações. No segundo ano, já foram dois dias. No terceiro ano, já tinha uma praça de alimentação fora da parte arqueológica, tudo à época, mesmo a comida e a bebida. Somos muito rigorosos nesse aspeto, não há café nem copos de plástico, e passámos de uma centena de figurantes a setecentos. Cresceu muito. Com milhares de espetadores!

AL Também tinha workshops e demonstrações, eu participei como figurante.

NMC E eu também andei vestido de imperador! Começou por ser uma empresa e agora mais de metade dos atores e figurantes são de Condeixa.

AL Também há espetáculos de música lírica nas ruínas, que são fantásticos.

NMC Depois temos muita coisa das programações Cultura em Rede, Marcos Históricos – Romanização, Cultura na Sua Rua, Sítios Mágicos. Estamos cheios de eventos. Ainda o Musas – Festival das Artes de Conímbriga, que é muito engraçado, além do Festival de Teatro Deniz - Jacinto, que está sempre esgotado.

Os festivais também são um estímulo para a restauração?

NMC Sim e nós fizemos um trabalho de preparação com os restaurantes. O saber falar inglês, servir à mesa, fizemos um manual de boas práticas e demos uma ajuda na remodelação dos restaurantes.

Vocês fazem quilómetros para comer?

NMC Sim, costumo estar atento às novidades, compro o guia Boa Cama Boa Mesa. Sou um bom garfo, mas já comi mais. Muito mais.

E cozinhar?

NMC Gosto mas sei fazer sobretudo comida italiana. Estudei na Bélgica há trinta anos e vivi com italianos que estavam sempre a cozinhar.

AL O povo mediterrânico é muito ligado à comida. É sempre um ponto de reunião e de confraternização.

A política, por exemplo, também passa muito pela mesa, não é?

NMC As pessoas querem ser ouvidas. Eu numa aldeia demoro três ou quatro horas a ir a umas dez casas. Janto nelas todas! (risos)

AL Eu, durante muito tempo, na minha atividade profissional, fiz contactos para construção de linhas de média tensão. Uma grande parte das pessoas, nas zonas mais rurais, convidava-me no fim para um copo na adega. É uma forma de as pessoas agradecerem a atenção ou um serviço.

Sabem cozinhar algum destes pratos típicos?

AL Eu fico com a parte de comprar o cabrito e acender o forno para a minha sogra fazer, mas o forno é de lenha por isso é importante, tem a sua técnica. A Chanfana não é propriamente tradição mas quer a minha avó, quer agora a minha mãe, fazem.

E as novas gerações, acham que vão continuar a gostar e a fazer?

NMC Acho que sim. Aqui a Dona Almerinda, que é a dona do restaurante, também pode dizer.

Almerinda Quintas Ai, o meu pessoal de casa são os piores! São os mais exigentes e críticos. Não dão valor.

SOBREMESA

Arroz Doce, Marmelada de Marmelos (Receita da Almerinda), Escarpiada, Leite Creme, Broinhas Doces

Almerinda, aproveito que continua aqui connosco para perguntar qual é a história do Arroz Doce e a tradição dos casamentos?

AQ Quinze dias antes do casamento, antigamente, as famílias contratavam uma cozinheira para fazer a calda do Arroz Doce e estava ali três ou quatro dias a fazer, para depois entregarem porta a porta. Além de ser tradição, era uma forma de angariar mais uns dinheiritos para os noivos, porque a família depois devolvia o prato com uma prenda ou dinheiro. Houve uma altura que as pessoas deixaram de fazer isso, por causa das quintas, mas agora voltaram outra vez.

Este é feito por si?

AQ Sim, é leite, açúcar, canela e limão.

AL A memória que eu tenho dos casamentos é de o arroz ser rijo, de cortar à faca.

E as Escarpiadas?

AL São mais de confeção na padaria. É massa de pão com uma calda de açúcar e canela. É uma receita de execução simples, mas não tenho ideia de ser feita em casa. É algo que não se vê em mais lado nenhum.

NMC A escarpiada leva azeite e açúcar amarelo. Quanto mais depressa for consumido, mais mole está. Não se sabe bem a origem, mas foi durante muito tempo o doce dos pobres, feito com o pão que restava. Só existe aqui. Há coisas com sabor parecido no Algarve. Já há quem copie fora de Condeixa mas nós registámos a marca e estamos num processo de patente, que já dura há uns cinco anos, e estamos a estudar com o Politécnico uma maneira de ele durar mais tempo, para ser comercializado em escala. Neste momento só é comercializado aqui, em padarias.

AL As Broinhas Doces fazem-se todo o ano mas é uma tradição de Natal. Todas as famílias fazem, cada um com a sua receita. Uns com batata, outros com abóbora..

DIGESTIVO

Licor de Leite

Temos aqui mais um produto original. O que é Licor de Leite, Almerinda?

A É leite da cabra com aguardente e açúcar. Quando não há de cabra, as pessoas inventam, mas antigamente era só de cabra ou ovelha. Aquilo está em infusão uns dois meses, vai-se mexendo e vai-se tirando, tem de ser coado. Dá muito trabalho.

E é bebido nas festas?

A Sim. E é de fabrico caseiro, não se vende por aí, por isso tem de provar.

 

CIM - Região de Coimbra

Fotos: Mário Canelas

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