COM PAPAS NA LÍNGUA | Oliveira do Hospital

Dá para perceber que deixamos a Beira Litoral e chegamos à Beira Alta, à medida que as árvores começam a ser substituídas por rochas na paisagem que apreciamos da janela. No restaurante O Gouveia, esperam-nos Graça Silva, Vereadora da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital, Paula Frade, investigadora na área de Patrimónios Alimentares, e João Quaresma, cozinheiro, empreendedor e também Embaixador do Queijo no âmbito do que nos traz a este concelho: a distinção da Região de Coimbra como Região Europeia da Gastronomia 2021/22.

Natural da Freguesia de Meruge, concelho de Oliveira do Hospital, Graça Silva da cresceu na aldeia de Nogueirinha. É  licenciada em Escultura, pela Escola Superior de Tecnologias Artísticas de Coimbra e fez carreira como professora de Educação Visual do 3.º Ciclo e Ensino Secundário. É vereadora a tempo inteiro, com a atribuição dos pelouros da Educação, da Cultura, do Associativismo e do Património Municipal, em conjunto com Nuno Jorge Perestrelo Ribeiro.

ENTRADAS

Enchidos como Chouriça de Carne, Queijo Serra da Estrela DOP, Doce de Abóbora e Pão e Broa de Milho

Recebem-nos com pompa e circunstância, uma mesa recheada de iguarias que Oliveira do Hospital oferece.

Graça Silva Estamos a finalizar a carta gastronómica, há dois anos que temos feito o levantamento juntamente com os parceiros concelhios e a vontade é realmente fazer uma recolha etnográfica daquilo que são os pratos mais antigos daqui, de Oliveira do Hospital. Vai ser difícil ser só de Oliveira, porque há muita coisa que é da região, pratos que se repetem e são transversais em vários concelhos. Mas também é verdade que há pratos com o mesmo nome que são confecionados de maneira diferente, com pequenas variações. Temos o exemplo da Tigelada, que tem umas 50 receitas diferentes e a diferença é de uma casa para a outra.

O que é que leva as pessoas a variar tanto?

GS É o querer fazer melhor.

João Quaresma São os recursos e o contexto. Se uma casa tem mais limoeiros e a outra tem uma laranjeira, se calhar vão meter a casca da laranja e não a casca do limão. Ainda no outro dia, estava aqui a falar com a D. Fátima, cozinheira mor deste restaurante, e perguntei como é que fazia a Tigelada, que está referenciada como sendo de Oliveira do Hospital. Ela disse-me que inicialmente era com leite de ovelha e era um doce de festas, em que aproveitavam o forno a lenha com que cozinhavam para a semana o pão. Disse que quando surgiu o leite de vaca, começou a fazer-se com ele mas o segredo dela é usar o soro do leite de ovelha, de quando se faz o requeijão, para criar uma cremosidade e ter o toque original. Na segunda-feira estive na Queijaria dos Lobos, um dos produtores do Queijo Serra da Estrela DOP [Denominação de Origem Protegida] aqui de Oliveira. Fui para visitar e para tentar criar sinergias para visitas com turistas.

São duas queijeiras que vão buscar o leite ao pastor, fazem o queijo e o requeijão e depois ainda embalam tudo, é muito engraçado e com muita tradição.

GS Aqui às vezes o problema que se coloca é que o sabor intenso do leite de ovelha, não é tão comercializável. Trazer para o restaurante esta genuinidade do prato, tal como ele surgiu, e com os produtos endógenos que estavam mais à mão - o leite de ovelha, os ovos, o açúcar e a farinha da broa -, é difícil. Eu ainda provei a Tigelada e o Arroz Doce com o leite de ovelha e leite de cabra, que também há aqui. O nosso interesse aqui em Oliveira, e porque fazemos a maior feira do Queijo Serra da Estrela, é obviamente elevar tudo o que está associado à ovelha, como o leite, a manteiga e o queijo - que tem três tipos de maturação e pode ser comido quase como queijo creme, e tanto pode servir como entrada como com sobremesa. O requeijão, que vem do soro do queijo, também é DOP e é maravilhoso. Temos queijarias com queijo certificado, que é uma garantia de qualidade sinalizada com um selo prateado.

BEBIDA

Freire Lobo Vigno Encruzado, Dão, Branco

Que vinho é este?

JQ É de um produtor, muito pequeno e recente ainda.

GS Tem a ver com a Queijaria Quinta dos Lobos, é uma família muito ligada à pastorícia e agricultura. O Dr. Vaz Pato é médico cirurgião, já com os seus 90 e tais anos, com muitos terrenos espalhados pelo concelho e mesmo fora, que apostou sempre muito na agricultura. Fez parte de uma cooperativa vinícola, ajudou a impulsionar esta preocupação em potencializar o vinho do Dão e o Queijo Serra da Estrela, e também tem mel e doces. É fabrico artesanal, claro, nada massificado. Também há a Paula Lameiras, cuja queijaria infelizmente ardeu na sua totalidade nos incêndios de 2017 mas a Paula tem sido uma grande mulher no nosso concelho e nesta área, que é muito difícil de trabalhar. O pai é o proprietário de um rebanho, é um setor económico muito assente na base familiar. Ela tem conseguido reerguer-se, continua a produzir o seu queijo e requeijão certificado, com a preocupação de apostar na qualidade e respeitar as regras das artes ancestrais. Reconstruiu a queijaria, agora já mais modernizada mas pequena, até para ser proporcional à quantidade de ovelhas. Quando há mais queijo do que leite é porque alguma coisa que não está bem.

Queijo que acompanha bem com o Doce de Abóbora, não é?

GS Claro. Sabe por que é que temos o Doce de Abóbora? Porque nós, terras de porqueiros, temos muitas abóboras, de diferentes tipos, para os alimentar.

JQ Temos uma boa tábua de entradas em Oliveira. Há esta tradição dos enchidos, uma vertente serrana, da agricultura de subsistência, em que cada família tem o seu porquinho e faz o seu presunto, o seu chouriço...

GS Quem não tivesse um porco é porque era uma família muito pobre. Ter um porco era uma riqueza e havia uma data específica para a matança, que ainda hoje se comemora, já não com a matança mas com a desmancha. Agora já não se pode matar o porco, tem de ser controlado. Vivia-se da terra e tinha-se muitos filhos. As dificuldades eram muitas. Hoje há falta de emprego e tem-se poucos filhos, já viu? Esta chouriça, que nós chamamos de Chouriça de Carne, é feita com carnes temperadas de um dia para o outro, que depois são colocados no fumeiro e em potes de barro com azeite. Hoje já não se coloca na salgadeira, que era usada para preservar.

JQ A base é o porco, são enchidos com mais ou menos gordura, mais ou menos tempero, como é o caso da Chouriça de Bofe ou a Morcela de Sangue.

Paula Frade E a Farinheira Doce.

GS Sim, que é feita com farinha de trigo - porque o milho e o trigo são os cereais que mais predominam na região e a farinheira normal leva as gorduras do porco. O segredo está nos temperos. O açúcar associado à farinheira foi algo que se trouxe de outra localidade e agora também faz parte da nossa gastronomia. Também há Farinheira com pinhão.

É importante, ou mesmo essencial, a transmissão de geração em geração?

GS Sim. O facto de estarmos aqui hoje e a valorização que estamos a dar, aquilo que a Comunidade Intermunicipal (CIM) Região de Coimbra está a fazer, tem despertado uma grande importância. Quer os autarcas, quer as juntas de freguesia, têm tido cada vez mais essa preocupação de deixar bem registado o passado e a identidade das nossas gentes, do nosso povo, e em todas as áreas, não apenas na gastronomia. A gastronomia é um potencial económico fantástico que, associado ao turismo, é uma mais valia. Com este despertar, esta vontade de fazer turismo, comer bem e conhecer as histórias, é preciso procurar que as unidades hoteleiras também façam essa aposta e não copiem os menus internacionais, mas tenham menus associados àquilo que é a nossa identidade.

JQ Há quem diga que a cozinha é uma arte mas há um chef espanhol, Joan Roca, que diz que a cozinha é artesanato, que traduz a história do local e as vivências e tradições. Eu acho que os cozinheiros, seja num restaurante ou num hotel, onde que seja, tem esse dever de fazer a tradução do que são as suas vivências ou do local onde está implementado o espaço onde servem. Eu vivi por cima de um talho, numa aldeia aqui do concelho. Vim para o concelho de Oliveira aos 5 anos e vivi aqui até aos 17. Lembro-me de estar sempre lá, à porta do talho e de a dona me dar chouriça. Passado uns anos, já depois de ter tirado o curso de cozinha, fiz um evento em que as senhoras que forneceram os enchidos me perguntaram o que é que eu lhes tinha feito, porque estavam muito bons. E eu disse: «Nada, o modo de confeção foi respeitar aquilo que é o enchido». Porque há muito o colocar gordura no produto que depois é assado, frito e salteado, mas eu deixei como as senhoras os fizeram. Para quem gosta, como eu gosto, de respeitar a tradição, mesmo que se dê algum ponto de modernidade a base tem de ser essa, até na própria apresentação.

PRIMEIROS PRATOS

Truta com Cama de Presunto e Batata Cozida, Pimentos Cozidos, Sopa Serrana

JQ Somos terra de campo mas temos rio, daí termos trutas. Estas são recheadas com presunto picado. É uma tradição de bem receber.

GS É o peixe que mais carateriza a zona do Alva. Em tempos já se pescou truta, havia concursos até mas hoje não. Os incêndios arrastaram com as cinzas um conjunto de biodiversidade que estava nos rios e que eu espero que a Natureza consiga recuperar. Também temos na zona Norte o rio Mondego, somos muito ricos em águas, rios, praias fluviais.

De que é feita esta Sopa Serrana?

JQ Temos feijão encarnado, batata, couve, cebola, alho...é uma sopa de consistência. Está tudo em creme, triturado, e por acaso eu lembro-me de a minha avó, apesar de não ter varinha mágica, fazer o creme naquelas panelas de ferro, sentada à lareira, triturando a batata à mãe e misturando o resto.

GS O nome diz tudo, aqui tínhamos trabalho duro por isso a sopa é forte. Eu sou filha de avós que tiveram sete filhos, agricultores com bois, inclusive. Esta realidade para mim é muito familiar. Depois da escola, ia para a quinta dos meus avós. Sou de uma aldeia muito pequenina e os meus padrinhos foram porqueiros. Ajudei a fazer enchidos, conheço bem o Arroz com Suã. Também me lembro da minha avó, pequenina, à lareira, a esmagar com um garfo a batata para fazer a sopa.

SEGUNDO PRATO

Borrego Assado em Forno de Lenha com Batata Assada

Somos bastante apreciadores da carne e do peixe, poucos seriam vegetarianos na época?

 GS No entanto, comia-se mais legumes e mais frutas do que agora! Muito feijão cozido. A carne e o peixe não era o que mais abundava. E depois havia as condições climatéricas a condicionar a agricultura. Se havia muitas cheias e tempestades, já não tínhamos tanto milho. Viver da agricultura era sempre uma grande ansiedade, ainda assim havia sempre comida, mesmo que não fosse o que se gostaria mais.

A Graça tem algum prato favorito?

GS Gosto muito de Borrego Assado e do Arroz de Fressura, que é feito com as miudezas do Borrego (pulmão, fígado, etc..), que pode ser estufado. Nada se deita fora, tudo se aproveita. A escolha deste restaurante também está muito associada a um trabalho que temos de elogiar e louvar, pelo empenho que têm tido e a disponibilidade para ajudar e promover. A D. Fátima tem estes dois filhos, que vieram à mesa e a quem deixa o legado. Eles foram dos primeiros a aderir à iniciativa de restaurantes Seleção Gastronomia e Vinhos [ que resulta de uma parceria entre a CIM Região de Coimbra, a Entidade Regional de Turismo do Centro de Portugal, a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal e o Instituto de Emprego e Formação Profissional]. São empreendedores e transformaram este num bonito espaço onde sabem receber bem.

 PF Na minha perspetiva de investigadora e historiadora em Patrimónios Alimentares, acho que estamos a viver um momento muito especial, em que tudo se conjuga. A consciência de todos nós, de valorizarmos o que é nosso; o trabalho dos municípios, que estão na linha da frente, apoiando os seus empreendedores e produtores, valorizando e divulgando; e depois, acho que é importantíssimo o trabalho dos jovens Chefes, que pegam naquilo que muitas vezes tínhamos e não valorizava-mos, conseguindo projetar e mostrar a outros a qualidade de produtos desconhecidos. É o caso do João e o que está a fazer com a Pêra Passa artesanal, por exemplo, que é um produto que se pode transformar e usar no receituário.

 GS Para fincar bem a importância da Pêra Passa no concelho, dizemos aos jovens que o produto pode ter um potencial de negócio fantástico. Depois, temos de ajudar a que haja consumidores e, por isso, introduzi-la na mesa. No caso, junto ao café. Como é um fruto seco, que se conserva muito bem, em vez de pormos um bombom colocamos pomos a Pêra Passa. Também temos a aguardente de Pêra Passa, que nós chamamos de Amarelinha. O cheirinho, que é uma coisa que os senhores e até as senhoras já pedem, para colocar no café, já é um código que está associado à aguardente de pêra. Quem não quiser o cheirinho, come a Pêra Passa.

JQ Também estou a trabalhá-la com o próprio Queijo Serra da Estrela, seja como entrada ou com o próprio Requeijão, como sobremesa.

Como é a Festa do Queijo Serra da Estrela de Oliveira do Hospital?

GS Fazemos o maior requeijão do mundo, por exemplo. Já chegámos aos 67 quilos. São milhares de pessoas, é uma marca de Oliveira do Hospital, conquistámos a dimensão da maior feira de queijo nacional, reconhecida pela comunicação social. Reunimos os melhores produtores de queijo, nós devemos ser o concelho com mais produtores de queijo artesanal. Nem todos têm certificação, daí eu reforçar a questão do selo, porque naturalmente há que valorizar estas pessoas que pagam mais impostos para ter essa distinção e é a eles que damos destaque na Feira.

Que vai além do queijo, não é?

GS Tem um pouco de tudo, pretende-se promover do vinho ao enchido, ao pão e aos doces. Temos a freguesia de Lagares da Beira, com as doceiras. Na minha, de Meruje, são os porqueiros e nessa são as doceiras. Elas criaram bolos muito interessantes, uns em forma de 8 que atraem as crianças à Feira. Os mais pequenos fazem birras pelo bolinho em forma de 8 - eu era uma delas. (risos) O meu pai adorava o bolo de canela, que tem forma de ferradura. Depois há os bolos associados à Páscoa, o Bolo de Azeite e a Arrufada. As doceiras percorriam todas as feiras aqui à volta, temos várias mensais e anuais, mas hoje em dia infelizmente já são poucas. Não é fácil manter a confeção genuína destes produtos. Temos também o Bolo Finto, a Confraria dos Bolos, Doces, Aguardentes e Licores de Ervedal da Beira protege estes produtos. Temos a do Queijo Serra da Estrela, que é a mais antiga e agora o Chef Embaixador do Queijo, que está muito bem entregue, na minha opinião.

 Como é ter essa responsabilidade, João?

 JQ Sou embaixador dos dois DOP, Serra da Estrela e Rabaçal. Sinto tanto a responsabilidade que esta semana fui passar um dia a uma queijaria para aprender ainda mais. Quero entrar neste espírito e nas histórias das queijeiras, que são mulheres, maioritariamente.

 Dizem que é por causa das mãos, não é?

 GS Sim. A melhor queijeira é a que sabe manter as mãos frias a fazer o queijo, que é para ele não azedar.

 JQ É uma coisa que eu já fazia antes, ir à tradição conhecer as pessoas e o que fazem, mesmo que depois eu pegue nas coisas e lhes dê alguma inovação ou modernização, seja na confeção como no empratamento. É reaprender, entrar na pele dos queijeiros e conhecer a história que vai desde o Cardo, e a força dele no Queijo Serra da Estrela, à Erva Santa Maria, no Rabaçal. Perceber como é que posso pegar nisto, que influência têm no produto, e como posso pegar nisso para o empratamento e para a criação em si. Tal como a história da Pêra Passa, conhecer como era Oliveira em termos da produção da pêra.

Temos aqui na mesa as pêras, numa bolsa de pano.

GS Era nestas bolsinhas que se guardavam o feijão, os cereais, que se ia buscar o pão à mercearia.

Como é o turismo aqui?

GS Há turismo mas também temos uma comunidade estrangeira crescente e já não é uma coisa recente. Eu sou professora de profissão, na zona Norte do concelho, e já tivemos de adaptar uma escola para receber famílias holandesas. Houve um casal de acolhimento que veio com várias crianças, que não sabiam falar português, já lá vão mais de 20 anos. Eles sempre acharam que Portugal era um país bastante acolhedor. Temos o caso de um escritor bastante conhecido na Holanda, Gerrit Komrij, que comprou uma casa em Vila Pouca da Beira. Ele faleceu na Holanda mas quis ficar cá connosco, está aqui no cemitério. Que mais se pode dizer sobre a forma como Oliveira acolhe os estrangeiros? Na Câmara Municipal temos um gabinete de apoio, chamado The Friendly Municipality. Fomos pioneiros neste tipo de acolhimento a pessoas que querem comprar uma casa e fixar-se cá e tem sido crescente o número de pessoas que procuram Oliveira do Hospital para viver, agora sobretudo casais jovens, com filhos. Falam muito da qualidade de vida e do clima.

JQ E agora com a tendência do trabalho remoto, acho que estes concelhos vão dar outro salto, porque estão a criar-se condições de oferta de serviços para os chamados nómadas digitais, com a disponibilização de Internet e espaços de cowork. Na vertente turística, que também me toca a mim, acho que Oliveira começa a ter alojamento de qualidade, sejam casas de campo, hotéis ou pousadas.

GS Temos tido gente empreendedora a apostar cada vez mais em infraestruturas turísticas. Temos um hotel 5 estrelas, nas Caldas de São Paulo, com spa e restaurante, e tudo o que é bom para passar um fim de semana à beira rio.

As coisas avançam, ainda que com um ritmo condicionado pela pandemia, que chegou depois de um outro período muito difícil, que foi o dos incêndios, em outubro de 2017.

GS Sim, que desbastou aqui grande parte da paisagem que era apetecível para os nossos turistas. Houve muito turismo nessa época que vinha visitar a desgraça, mas falando do turismo dito normal, a pandemia afetou obviamente todos os setores mas sempre que há uma brecha recupera rapidamente. A necessidade das pessoas de virem relaxar um bocadinho é tanta, que Oliveira tem beneficiado disso. No verão passado, as pessoas de cá tiveram algum receio de ir de férias mas quem vive nas grandes cidades pensou o contrário, acharam que indo para sítios pequenos se afastavam também da pandemia. Houve muita gente que normalmente ia para o estrangeiro e se lembrou de vir até cá e a outros concelhos. Houve uma mudança de atitude naquilo que era a atitude do passar férias. As nossas praias fluviais foram muito visitadas por pessoas de Lisboa, por exemplo, e acredito que vamos ter agora um verão bastante competitivo também no que diz respeito ao turismo, mesmo de pessoas dos concelhos vizinhos que não ficam a dormir mas vêm descobrir e redescobrir a região. Além dos próprios oliveirenses! Achei piada que, o que mais publicaram no Facebook, foi o que nós temos de melhor. É um dos poucos benefícios da pandemia - se me posso atrever a dizer isso, uma vez que a temos de passar e suportar -, é que hoje temos mais amor pelo que temos.

João, isto de representar a gastronomia não é uma novidade, em 2015 fez um «roadshow» por 20 cidades europeias para promover a gastronomia portuguesa.

 JQ Sim, fui como promotor do produto português mas a raiz de beirão estava sempre presente. Daqui levei enchidos e o mais importante, que são as histórias. O projeto era contar histórias da gastronomia e dos produtos. Levei a alheira, as conservas, o Arroz Doce, a Tigelada. A Tigelada é a minha sobremesa de infância de sempre, foi o prato final que levei à avaliação do curso de cozinha, com uma variante que era sorbet de limão e uma telha de canela.

 GS O João tem o pai associado à produção do pão e, mesmo ao lado da padaria, há um moinho de água que ainda funciona.

E o gosto pela cozinha, quando é que aparece? Não foi em criança, pois não?

JQ Não, mas agora arrependo-me. Os meus pais vieram de Moçambique, tiveram uma padaria lá e vieram para a aldeia com esse negócio. Agora têm um espaço em Avô. Havia uma altura em que eu ajudava mas não cheguei a aprender com aquele gosto. Quando fui estudar Turismo para a Guarda vivi com um rapaz de Trás-os-Montes que cozinhava maravilhosamente, era brilhante. Ou seja, os nossos jantares eram sempre partilhados. Eu fui aprendendo e também tive de desenrascar, isto de 1999 a 2001 ou 2002. Depois fui estagiar e trabalhar para Coimbra e claro que tinha de cozinhar, além de o meu trabalho no Turismo passar por visitas a restaurantes e hotéis. Aquilo começou a entrar e em 2008 decidi tirar o curso de Técnicas Avançadas de Cozinha. A minha ideia nunca foi cozinhar em permanência, fechado numa cozinha, mas sabia que tinha de cozinhar para os outros e, entretanto, fiz muita coisa, desde o projecto Chef em Casa à viagem e ao trabalho com pequenas empresas.

O Chef em Casa é um projeto inovador na cidade de Coimbra, que consiste em levar o serviço de cozinha a casa do cliente. Teve sucesso nesta fase de pandemia?

JQ Durante a pandemia há mais a tendência de as pessoas pedirem o serviço mas para fazer noutros sítios, estou a cozinhar em alguns espaços de turismo que querem exclusividade para determinado grupo, por exemplo. 

VINHO

Alva Magna, Quinta Vale do Cesto, Dão, Tinto

GS Este vinho é de cá, da Lageosa, tem uma série de outras marcas, já recebeu várias medalhas e tem conseguido bons resultados. Este território andava um pouco adormecido, este é um projeto recente, de uma família muito empreendedora que também tem uma empresa de transformação de carnes. Tudo se liga, a carne com um bom vinho é maravilhoso.

A Graça cozinha?

GS Sim, a minha mãe era cozinheira de casa mas também para casamentos, procuravam-na muito para fazer os doces e os bolos. A minha avó era das poucas com fogão de lenha. A minha mãe fez questão de passar os saberes às filhas, eu vivi isso e a gastronomia para mim é um saber que não me é de todo desconhecido. Adoro cozinhar mas não por obrigação. Adoro ter gente em casa. Acho que a rotina é que leva às vezes as pessoas a dizerem que não gostam de cozinhar. Gosto de cozinhar pratos típicos da região, faço-os quase todos mas, cientificamente, temos aqui Paula Frade e o João para falar. Eu sou do tempo em que via a minha avó a baquear o pão, pô-lo no forno e eu pedir um bocadinho de rapadura, para fazer um boneco, e pôr urna chapa da porta do fogão para ele cozer e eu depois comer. Tenho muitas saudades daqueles cheiros e sabores.

JQ Vai ter de contar essas histórias quando eu tiver o meu projecto. Descemos a Nogueirinha e conta aos turistas, que adoram essas coisas.

Que projeto é esse, João?

JQ Comprei um espaço, uma mercearia, que descobri por acaso quando andava à procura de móveis antigos. É uma antiga mercearia, drogaria e tasca, o edifício é de cerca de 1915. Disseram-me que chegou a ter do outro lado da rua uma sala de cinema, contou-me um velhote no outro dia. A ideia inicial era recuperar o edifício para fazer só restauração, mas agora quero acrescentar o alojamento. Uma casa de campo temática, ligada à gastronomia, à mercearia antiga e aos produtores locais. Criar um circuito onde integre também a agricultura de subsistência, as histórias dos vizinhos, a feitura dos produtos que chegam à mesa. E as pessoas de cá, das aldeias, têm vontade de nos receber e fazer parte destas coisas, elas vêm ter comigo e dizem-me isso. É um espírito de aldeia, muito simples, que também estou a fazer por passar à minha filha.

PF Há outro projeto que está agora a nascer e do qual o João fará parte, que é o Centro de Investigação Cultura e Tradição. Com locais, pessoas das várias áreas que podem acrescentar valor, fazermos uma espécie de mentoria e acolhermos pequenos produtores. Começámos a pensar primeiro nas senhoras, que são elas maioritariamente as detentoras desses saberes, e que podem reforçar a sua economia familiar e sentirem-se valorizadas. É uma associação sem fins lucrativos, particular, apesar de ter o apoio do município. Temos queijeiras, doceiras e produtoras de azeite, por exemplo, que estão a trabalhar produtos gourmet sem o saberem e precisam de ser apoiadas. O objetivo final é termos um espaço de degustação de produtos e pratos locais em que estes associados vão participar. Queríamos muito que depois tivesse outros caminhos também, fazer ligações com entidades internacionais. Em França, a «poire passe» é um produto caríssimo e refinadíssimo. A autoestima do produtor é importante, e é obrigação de quem está mais consciente chamar a atenção deles e ajudá-los a fazerem o próprio caminho.

 A Paula é de cá?

 PF Não, sou de Lisboa, mudei-me para cá há mais de 20 anos por uma aposta familiar. Achei que a minha filha ia ser muito mais feliz aqui. Tenho um vizinho australiano em teletrabalho e outro holandês, que gere uma empresa de contentores de barcos. E o que me atraiu aqui foi a parte mais rural, não foi a sede de concelho propriamente. A minha filha agora diz-me que foi a melhor opção que fiz.

JQ Tanto se pode ficar no alpendre e estar a tarde toda à conversa e a comer bem, como aproveitar uma série de coisas. Há projectos e circuitos como as Aldeias do Xisto, Aldeias de Montanha, praias fluviais, percursos pedestres, Dark Sky...

PF Posso contar a minha experiência de citadina. Tudo depende de vários fatores. Temos de encontrar o sítio certo e o momento certo na nossa vida, porque depois, se estivermos predispostos e com abertura à mudança, também vamos contactar com realidade que não sabíamos que nos faziam falta. Para mim, os silêncios são uma coisa que valorizo imenso. A largueza de vistas. Olhar e não ver nada.

SOBREMESA

Requeijão, Doce de Abóbora e Tigelada

E chegámos às sobremesas.

PF Valha-me Santa Eufémia! 

CIM - Região de Coimbra

Fotos: Mário Canelas

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