COIMBRA NO MUNDO | Berskshire, Reino Unido

Todos de nós devíamos encontrar uma missão de vida e a minha parece ser desmistificar a emigração.

Mas vamos então começar pelo início. O meu nome é Joana, tenho 35 anos e moro no condado de Berkshire, a uma hora de Londres. Nascida na encosta da serra do Buçaco (mentira, nasci na maternidade Bissaya Barreto...) foi no Luso que fui criada, entre primos e Verões inteiros na piscina a comer gelados. Anos mais tarde a família muda-se para Coimbra e desde então é a minha vida, quando estou em Portugal, é feita na Solum, o meu bairro.

Quando me perguntam de onde sou, fecho os olhos e divido-me entre o som da água da fonte a correr no Luso e das guitarras em Coimbra. Há quem não tenha terra, cá eu sou uma mulher com a sorte de ter duas terras!

Quando me perguntam porque decidimos sair de Portugal já não me recordo bem do motivo. Lembro-me da na altura estar num desafio bastante interessante em termos pessoais, mas de me sentir inquieta. Dois anos antes o João, a minha cara-metade, tinha-se despedido porque eu tinha recebido um desafio profissional muito aliciante e em 2013 senti que estava na altura de eu fazer o mesmo por ele. Depois do início de carreira em Coimbra, vivemos dois anos em Lisboa e finalmente mudámos para o Reino Unido. Nunca ponderamos o peso da palavra emigração até começarmos a abordar o assunto com a família e amigos. Para mim viver no Reino Unido ou na Madeira seria a mesma coisa, aliás, de Londres teria mais voos diariamente para Portugal do que existem entre a Madeira e o continente! Para eles claramente não foi, embora tenham feito as pazes com esse assunto com o tempo.

Se fechar os olhos e pensar em Coimbra consigo ouvir o Fado de Coimbra, sentir o sabor do prato do juiz do D. Elvira, comer um croissant com fiambre no Moinho Velho e andar pelos corredores do Alma Shopping.

A minha (nossa) vida aqui é absolutamente normal, e é neste ponto que gosto de me focar. Levantamo-nos da manhã, tomamos o pequeno-almoço, conduzimos até ao emprego, trabalhamos, saímos, decidimos se jantamos em casa ou se vamos a algum lado, dormimos. Ao fim de semana estamos com os amigos ou viajamos.

Se há algumas diferenças desta vida em relação a que tínhamos em Portugal? Muito poucas!

 Óbvio que ao final do dia damos (dávamos, pré-covid) um salto a Londres para ir a um musical ou ao teatro e viajamos (mais uma vez, viajávamos, pré-covid) pelo menos uma vez por mês para algum lado, mas de resto é uma vida igualzinha à que qualquer pessoa tem em qualquer parte do mundo. Não, já não somos daquela geração que vive com dificuldades e que junta todas as poupanças para comprar uma casa na terra. Não somos a geração do mercedes branco que vai no mês de Agosto a Portugal e corre as festas das aldeias.

Somos dois profissionais altamente qualificados (eu na área de gestão de retalho e ele na área de tecnologias) que têm empregos normalíssimos, mas cujos colegas em vez de falarem português falam... inglês! Não há rigorosamente nada de coitadinho nem de herói na nossa situação. O mundo está demasiado global e viver em Londres, em Singapura ou no Porto é igual. Mas não sou hipócrita, tenho noção que a minha realidade é uma bolha, que nem toda a gente vive da mesma forma que nós, mas a nossa realidade é esta.

Há muito pouca coisa de que não gosto aqui e muita de que gosto. Do que não gosto é o Brexit, simples e directo.

Fez nascer no norte do país (bem longe da minha realidade), um olhar de soslaio para com os imigrantes. Aqueles que roubaram os empregos dos filhos deles. A realidade tem demonstrado o contrário, 6 meses depois e há uma falta de mão-de-obra avassaladora, principalmente em empregos mais baixos uma vez que a mão-de-obra qualificada normalmente tem poder de compra (ou é patrocinada) para conseguir um visto de trabalho. Também é uma chatice para enviar e receber encomendas, algo que fazíamos imensas vezes e agora fica MUITO mais caro.

Quanto ao de que gosto, acima de tudo o respeito pelo trabalhador. Em Portugal as empresas fazem-te sentir que és um sortudo porque te deram emprego, aqui as empresas sentem-se umas sortudas porque tu aceitaste trabalhar para eles.

Algo tão simples que se traduz no respeito pela individualidade do trabalhador e em como a experiencia de vida pode enriquecer aquela empresa, o equilíbrio entre a vida privada e pessoal, em como o horário de saída é respeitado para que possamos ter tempo para os hobbies, no facto de as férias poderem ser marcadas da forma como der mais jeito ao trabalhador. E depois o óbvio, as viagens. Somos apaixonados por viagens, já visitámos 56 países e viver tão perto de Heathrow ou de qualquer um dos outros 4 mega aeroportos de Londres faz com que ir à Cornualha seja tão normal como ir à Grécia. Num mundo pré-covid (dá para perceber que estou um nadinha farta?)  os nossos dias de férias eram geridos de forma muito minuciosa para nos dividirmos entre as dezenas de viagens que fazíamos e as idas a Portugal. Para nós, em Portugal é aquela corrida para ver os amigos e a família pelo que as férias são feitas noutros pontos do mundo. Tivemos anos em que fizemos 40 voos e isso apenas é possível pela proximidade que vivemos dos aeroportos e pelas centenas de voos que existem diariamente. Apesar de termos uma vida bastante agitada vamos a Portugal cerca de 6 vezes por ano. Nunca vamos muito tempo, normalmente um fim-de-semana prolongado, mas gostamos de ir muitas vezes. É raro falhar eventos de vida importantes, aniversários redondos, casamentos, filhos dos amigos que nascem, sobrinhos, estou lá. Só assim funcionaria para mim.

Quando estou em Coimbra há coisas que não falham: uma visita à Bina, do cabeleireiro Livre e Solto, uma sessão de compras no Alma Shopping e lanchar no Moinho Velho. Quando há mais tempo uma visita um café na esplanada da Almedina, um passeio até a Baixa e às Docas. Os jantares dividem-se entre o D. Elvira, a Marisqueira 39 e o Cova Funda (na Baixa).

Mas na verdade do que sinto mais falta de Coimbra, para além dos meus, é a proximidade de tudo. Não há nada que fique a mais de 10 minutos de carro e isso é algo que se antes me fazia sentir sufocada agora considero um privilegio único. Os amigos estão à distancia de 5 minutos, o shopping 3, o hospital a 9. Tudo é rápido e raramente se apanha trânsito. Aqui fazer menos de meia hora para chegar a algum lado é super perto. Ter de conduzir uma hora de carro até ao trabalho é comum, conduzir durante 3 horas para chegar a algum lado onde só vamos passar uma noite faz-se com uma perna as costas.  

Voltemos ao Reino Unido. Sei bem que sou uma sortuda, em Portugal trabalhei em marketing de Centros Comerciais e quando me mudei para cá, depois de uns meses de procura continuei a minha carreira exactamente onde a tinha deixado em Portugal. Sete anos depois continuo na mesma área mas agora como Directora Adjunta de um centro comercial. Um passo em frente na carreira que achei que em Portugal não iria acontecer. Talvez tenha sido injusta e devesse ter dado uma hipótese ao nosso país.

Mais do que viver num país mais ou menos desenvolvido do que o nosso, viver fora permitiu-me alargar os horizontes.

Perceber que a nossa realidade é muito pequena, que nascemos, crescemos e iremos morrer numa bolha social bastante pequena. Com esta mudança consegui alargar os meus horizontes, não só aqui, como pelas viagens que fiz. Nunca me hei-de esquecer de um hotel onde ficamos no Camboja. Achava caricato haver muita vegetação entre o hotel e os edifícios à nossa volta, decidi aproximar-me e ver o que estava para lá desse paraíso onde estávamos hospedados. Pois a realidade foi um murro no estomago. Foi uma criança a tomar banho numa banheira no meio do jardim, com água que estava bem longe de ser considerada própria para banhos e no meio de animais domésticos, galinhas, cães... Ali, a escassos 20 metros de mim, uma criança tomava banho em condições desumanas. Gelei, fechei os olhos e até hoje, vários anos depois nunca esquecerei. Este episódio, assim como outros, tornaram-me mais humana. Deixei de ficar alheia às causas humanitárias, à defesa dos animais. Adoptámos uma gata que veio da Roménia, parcialmente cega (mas infinitamente feliz). Passei a olhar mais para o lado e perguntar aos que vivem a minha volta se estão bem, mesmo bem. E isso só foi possível porque quebrei com a bolha que estava a nossa volta.

Voltar a Portugal não está nos planos para já, talvez na reforma.

Sonho com o dia em que eu e as minhas amigas mais próximas compramos casas na praia, junto umas das outras onde vamos curtir os anos dourados enquanto cotas enxutas. Até lá, o país nublado, onde o chá se bebe com leite e se faz juramento à rainha será a minha (nossa) casa. Ou não, uma pessoa sabe lá que desafio se esconde do outro lado da porta?

 

Joana Almeida-Santos

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