Conhecer o mural “Insomnia” de Violant

É visível a escassez em Coimbra de arte urbana em registo mural de grande dimensão e de autor. Além do projecto FIO (do João Samina com curadoria da Mistaker Maker) - de que já falámos - pontilhado pela cidade e periferia, e do recente Bordalo II ao Apeadeiro do Parque, contam-se pelos dedos de mão e meia tais intervenções.

Daí que a satisfação suplante a surpresa em relação ao anúncio da Câmara Municipal de Coimbra (CMC), no decorrer das obras Sistema de Mobilidade do Mondego, que vai proteger e preservar o grande mural Insomnia de Violant.

Com isto anuncia-se que ganhamos o metro (ainda que em modo bus) e mantemos muitos metros quadrados de obra de arte.

Este mural ciclópico, que terá certamente mais de 5 metros de altura por 15 metros de comprimento, para cima de 75m2, chama-se Insomnia e é obra de Violant, pseudónimo artístico de João Maurício, um dos grandes nomes da arte urbana portuguesa. Falámos com o artista sobre este reconhecimento.

A CMC anunciou que vai preservar o teu mural Insomnia. Esta notícia surpreendeu-te, ainda para mais numa cidade sem grande história e apreço por arte urbana (com a boa excepção do FIO do Samina)?

- Sem dúvida, quando a fiz não imaginava que fosse este o desfecho. Acho que é uma acção positiva por parte da CMC, pois mostra que está atenta e ouve a opinião dos seus munícipes, e tem sensibilidade para perceber que são coisas irrepetíveis. Mas tenho um pouco de pena por sentir que este género de projectos não teriam aprovação se lhes fosse pedida. 

Consideras que, dada a rica história da pintura mural política e contestatária de Coimbra, fazia algum sentido estar a desconsiderar esta forma de expressão urbana?

- Entendo que cidades mais antigas tenham menos disponibilidade para novas formas de arte pública. Hoje em dia a arte em pintura mural distancia-se da contestação política, e tem já um lugar próprio como expressão plástica. Ao investir neste tipo de linguagem está-se mais perto de inspirar criativamente alguém do que a apelar à revolta. 

O mural — dadas as suas dimensões ciclópicas — deve necessitar de cuidados técnicos específicos e de segurança para o preservar. Os serviços da CMC já te contactaram nesse sentido; o que seria necessário, no teu entender?

- Do que a obra realmente precisava, se a quisermos conservar o melhor possível, era de uma repintura e verniz no final para selar o trabalho. Para estes murais é preciso muita tinta que não podia comprar, então na altura diluía-a muito para a fazer render e isso traz consequências para a sua durabilidade. Ninguém me contactou até agora para agir de alguma forma, sei que deram um estatuto patrimonial qualquer ao trabalho. 

A tua obra Amal, não muito distante deste mural, na Casa Branca, já tinha sido destruída com a demolição do edifício onde estava. A transitoriedade da street art é uma das suas facetas. Assim também como a sua crescente visibilidade. Achas que preservar Insomnia é estar a contrariar a essência da natural passagem do tempo ou a arte urbana já se reinventou?  

- Pessoalmente, acho que alguns trabalhos devem ser preservados. No meu caso levo como regra não me fixar a um estilo ou a um tema, para que, cada vez que pinto, eu tenha uma experiência e desafio diferente. Então, cada trabalho para mim é único, sendo que me vou investir nele porque não o voltarei a replicar. Outro motivo é que as obras podem entrar em processos de definhamento bastante longos e são assim vistas durante a maioria da sua vida. Muitos trabalhos contam só como fotografia da Internet, enquanto a sua origem é desprezada. 

Uma fachada é um suporte tão válido quanto uma tela ou outro suporte estático, na necessidade de o artista comunicar os seus anseios e paixões?

- Sim, para mim é como uma plataforma à parte. Não consigo explicar porquê, mas não me puxa nem tenho os mesmos resultados a pintar em tela. Por outro lado, gosto da ideia do trabalho simplesmente existir, sendo de todos, mas não pertencendo a ninguém. Se bem que aquilo que é comissionado ou feito publicamente tende, como regra, a ser amestrado. 

O que é que sentes ao olhar para este mural, ou para outra qualquer obra tua desta dimensão, sentes o dever cumprido, voltas ao local para rever a obra e perceber como vai resistindo à passagem dos meses e dos anos?

- É um misto de sentimentos. Tanto de sucesso como de fracasso. Sei e logo vejo os defeitos do meu trabalho como aspectos a melhorar. Vou revê-los quando me apetece e tenho oportunidade para ver como maturam. E tento identificar o que possa ter feito na altura para o resultado que está presente. 

O que é que te levou a fazer este mural em Coimbra e neste spot em particular, qual é a história ou temática por detrás do Insomnia?

- Ter deixado esse trabalho em Coimbra deve-se a um conjunto de circunstâncias: de ver esse projecto recusado em uma outra cidade, ter muita vontade de o fazer e ter encontrado um lugar em que pudesse estar à vontade para o concretizar, ter o tempo e tintas suficientes e um sítio onde ficar.

Para mim, este mural é o tormento aos sonhos que temos. Sendo que a criatura não deixa dormir /sonhar. 

Qual é afinal a dimensão deste mural e quais foram os truques ou recursos de que te serviste para o materializar?

- Sinceramente, não sei. Faz uns quatro ou cinco de mim em altura e em comprimento são duas vias, com duas faixas de rodagem e respectivos passeios, agora que penso nisso. Eu não tenho muitos truques nem segredos. As minhas imagens são feitas geralmente a olho, teimosia e paciência, pintadas com pincéis, rolos e tinta de parede, usando uma vara extensível, às vezes em cima dum escadote.

Texto: Rafael Vieira
Foto de capa: Gui Mota Photography
Fotos: Violant

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