COM PAPAS NA LÍNGUA | Arganil

Entramos na pitoresca vila de Côja, em Arganil, e percebemos por que é que também é chamada de «Princesa do Alva». É na esplanada do simpático restaurante que lhe pescou o nome, O Príncipe do Alva, que encontramos Paula Dinis, Vice-Presidente da Câmara Municipal de Arganil, para conversar sobre o concelho inserido na Região de Coimbra - Região Europeia da Gastronomia até junho de 2022.

A escolha da vila não foi por acaso, Paula nasceu em Côja e tem um orgulho que transborda facilmente a cada garfada e sempre que se fala deste lugar, onde a farmacêutica também é o rosto da Farmácia Alva, desde 1995. Além das vertentes profissionais, Paula é Presidente da Direção do Rancho Infantil e Juvenil de Côja, entre outras funções que levam a que, naturalmente, na autarquia, ter os pelouros da Cultura e Património, Saúde e Associativismo. 

ENTRADAS

Croquete de Presunto Serrano com Molho de Pinhão Picante, Bucho com Ovo Escalfado, Tosta Serrana com Queijo da Serra, Vinagre Balsâmico e Pólen de Abelha, Confitado de Pimentos, Azeitonas, Pão e Broa

 

O que é que estamos aqui a provar?

PD Este Bucho é mesmo de cá. A tripa é recheada com arroz, carne de porco e especiarias que lhe dão um travo muito específico daqui.  

Estamos no restaurante O Príncipe do Alva, com uma vista privilegiada para a ponte medieval que atravessa o rio Alva e liga Arganil à vila de Côja, que abriu no final de 2019 com nova gestão, não é?

Paula Dinis Sim, este espaço é recente e foi apanhado pouco depois pela pandemia e todos esses problemas. É um espaço sobranceiro ao rio, de eleição. Todas as localidades que são atravessadas por um rio têm outra beleza, não é? Além disso, Côja tem uma luz diferente, tem uma luz bonita. A proximidade também me faz apreciar de outra maneira este sítio, porque eu sou daqui. 

Como foi crescer em Côja?

PD Foi crescer com toda esta beleza natural. Temos uma praça aqui à frente muito bonita, temos as casas senhoriais, que dão um toque particular à vila. Agora temos o Parque Verde, que é uma zona que foi reabilitada ali junto à ribeira, mesmo no meio da vila, e que ficou extremamente valorizada. Houve muita transformação, isto ficou muito mais virado para o turismo por todas as apostas, quer do executivo da Câmara quer do local, da freguesia. Têm apostado muito nessa dinamização, no embelezar e no saber receber. Temos é o problema da perda de população, havia empresas grandes de cerâmica, serração, e tudo isso fechou.  

Quem vem a Côja e ao concelho de Arganil atualmente, o que é que procura?

PD É tudo junto, inclusive a gastronomia. Tudo convida à visita. Temos boas unidades de alojamento, tem havido uma evolução muito grande em termos do concelho, quer seja só turismo rural ou alojamento local, no sentido de dar oferta porque muitas vezes as pessoas queriam ficar e não tinham onde. 

É farmacêutica, como é que foi parar à política?

PD Eu trabalho aqui na farmácia de Côja, comprei-a há 26 anos e em 2005, já lá vão alguns anos, fui convidada a integrar a lista da Câmara Municipal. Já tinha um bocadinho da política na minha vida, porque o meu pai já tinha sido Presidente da Câmara, e disse: «Está bem, concordo em integrar a lista, mas não tenho vida para isto, posso ir num lugar não elegível». E assim foi mas num mandato seguinte já fui eleita e a partir daí fui ficando e dividindo o meu tempo entre a farmácia e a Câmara. Estou a meio tempo e vou gerindo. 

É gratificante essa relação de proximidade com a comunidade?

PD É enriquecedor. São áreas completamente diferentes, abarcamos conhecimentos e assuntos completamente diferentes e depois é o contacto com as pessoas. Isso é uma coisa à qual sou muito sensível, quer seja na farmácia quer seja no dia a dia.

BEBIDA

Casa da Carvalha Tinto, 2010

O que é que estamos a beber?

PD É o único vinho que nós temos, um produto local. É de uma vinha localizada ali na Ponte da Mucela e pertence à Região Demarcada do Dão. 

Estamos em plena “Semana Gastronómica: Sabores de CÁ” de Arganil, organizada pela Câmara Municipal, que além de valorizar o receituário concelhio, pretende promover e estimular a atividade económica local através do setor da restauração e dos alojamentos turísticos.

PD Sim, normalmente nesta altura decorria em Arganil a chamada Feira das Freguesias, que é uma mostra gastronómica que acontecia desde 2005. Juntava muita gente à volta dos pitéus da região e depois durante a tarde e a noite tinha animação cultural, com os ranchos, as tunas e outras coisas. As pessoas aproveitavam o fim de semana para visitar os locais, éramos muito visitados. Com a pandemia, no ano passado não se fez e este ano decidimos fazemos isto: convidamos os restaurantes a integrar a iniciativa e atribuímos «vouchers». Numa refeição de 30€ que inclua um prato típico, é atribuído ao cliente o patrocínio de 20€ da Câmara Municipal. Apelamos muito a que todos os espaços tenham os produtos locais, claro. 

Além de comer as pessoas cada vez têm maior interesse em conhecer os pratos e iguarias, aprender a fazer. É possível fazer isso aqui também?

PD Sim, por exemplo, também temos workshops na Semana Gastronómica. Começámos com «o melhor coscurel do mundo», pelo Grupo de Danças e Cantares de Soito da Ruiva, transmitido online.  As senhoras costumam participar nas Feiras das Freguesias e são filas e filas para comer os coscureis delas, porque elas estão a cozinhar e estão a sair na mesma altura. A seguir ao momento do workshop há um momento com uma tradição local, com pequenas formações. No caso, foi a tocata do Grupo Folclórico da Região de Arganil - sem a parte da dança, porque também não se pode ainda. 

O que é um coscurel?

PD É uma massa frita que é espichada ou esticada e depois vai a fritar. Fica muito bom. E há mais workshops previstos, de como fazer o pão, por exemplo. Além dos restaurantes, convidamos várias pastelarias a participar também e a fazer. Posso acrescentar que, no ano passado, inauguramos o Núcleo Museológico de Etnografia de Arganil. Há uns anos, existiu um Museu Regional de Arqueologia e Etnografia de Arganil, entretanto desativado. Estamos a fazer um esforço por fazer registos atuais de atividades antigas. As colheres de pau, o cesteiro, o sapateiro - acho que são coisas muito importantes, porque são atividades que se vão perdendo.

PRATO PRINCIPAL

Arroz de Grelos com Tomate, Cabrito com Batatas Assadas e Alecrim, Arroz de Cabidela, Chanfana e Grelos Salteados

Tem algum prato típico daqui favorito?

PD Eu gosto muito do Cabrito. Gostava muito do que a minha mãe cozinhava, infelizmente já não mas tento eu fazer, mais ou menos. 

E cozinha outros pratos típicos também ou deixa para os restaurantes?

PD Deixo para os restaurantes. O Cabrito é a única coisa que faço pessoalmente. Há coisas que era tradição e não… Deixei muito. E agora tenho pena de não ter aproveitado. A minha mãe fazia muito tigelada e eu nunca fiz porque era sempre ela que fazia. 

Distinções como esta, da Região Europeia da Gastronomia, podem despertar esse interesse? 

PD Acho que sim. Ainda no outro dia em conversa falou-se de uma coisa que eu ainda não tinha interiorizado, que é o facto de, com esta história da pandemia, muitos dos nossos idosos terem desaparecido e ter ficado muita coisa por contar. O programa da Região Europeia da Gastronomia é importantíssimo, porque valoriza muito a nossa gastronomia e tudo o que tem subjacente. O interesse das pessoas em utilizar os nossos produtos, em consumirem, terem estas preocupações com o saber servir, é importante. Esta questão dos restaurantes terem de fazer formação para cumprirem os requisitos, as questões ambientais, o desperdício, o facto de usarem produtos biológicos e locais, são coisas que as pessoas, locais ou visitantes, valorizam. Se queremos valorizar os nossos produtos, tem de ser por aqui o caminho. Se há procura, temos de produzir mais. Muitas vezes o problema são os recursos humanos, como se sabe. 

Há muita diversidade gastronómica, cultural e mesmo social no concelho?

PD Sim. Esta parte, por exemplo, é muito mais verde, «mais serra», tem uma população diferente. Houve muita gente que, em meados do século passado, emigrou para Lisboa, nas alturas difíceis do pós-guerra e de falta de condições. Os padeiros e pasteleiros, muitos foram para Lisboa. É o caso da pastelaria Versailles, o dono é do nosso concelho. Muitas outras pastelarias tinham pessoas de cá, que depois levavam os familiares para lá e fundavam os próprios negócios, há muito essa história aqui do chamado «alto concelho». Depois há a parte de Pombeiro da Beira, por exemplo, que também é muito rico em património e em termos gastronómicos, tem os seus torresmos como tradição. No dia 1 de novembro, a Feira de Todos os Santos era um ponto de encontro obrigatório. 

E atualmente, ainda há pessoas a deixar Arganil ou há outro movimento de pessoas a virem para cá? Devido à tendência do trabalho nómada, por exemplo. 

PD Há aqui uma questão: é que isso é tudo muito bonito mas há o problema da rede. As pessoas podem achar fantástico vir à serra mas depois não têm rede e, sem comunicação, não há segurança. É um entrave muito grande. Mas notamos que muitas pessoas que migraram nessa altura para Lisboa estão a regressar, não para viverem cá mas para passarem grandes temporadas com os familiares. Gostam de vir com os netos para usufruir de tudo isto, temos praias fluviais lindíssimas, piscinas naturais maravilhosas. Côja tem uma praia fluvial de eleição, que é Bandeira Azul e praia acessível, muito procurada há muitos anos e que tem sido preservada e valorizada.

Costuma frequentá-la?

PD Já não, agora há muita gente. Talvez de manhã, quando tenho disponibilidade, mas é preciso ver que esta vila e todo o nosso concelho triplicam a sua população no verão. É significativo. Temos mesmo muitos locais onde as pessoas podem usufruir da nossa Natureza. Temos as Secarias também, Sarzedo, Piódão, Foz de Égua que é um postal. 

Entretanto, estamos aqui a provar vários pratos, todos de carne. E o peixe?

PD Sim, apesar de antigamente haver o peixe do rio, que entretanto foi proibido, havia a truta que deixou de haver. A União de Freguesias de Côja fez um repovoamento, em colaboração com o Município, e este fim de semana há um concurso de pesca. Parece que há trutas agora lá, vamos lá ver se não são todas pescadas e se reproduzem. 

Temos aqui a caçoila de barro preto com a Chanfana, mais um prato da região, comum a vários concelhos. Gosta? Traz-lhe alguma memória?

PD Sim! A Chanfana é o nosso prato de dia de festa. Eu andei na Filarmónica aqui de Côja até ir para a universidade e lembro-me que havia festas todos os fins de semana e davam-nos sempre Chanfana. Andávamos fartos dela, então no verão nem se fala. Mas esta está muito boa, muito tenra, sim senhora. 

Há mais festividades incontornáveis no concelho, além da Feira das Freguesias?

PD Temos a Feira do Mont'Alto e Ficabeira – Feira Industrial, Comercial e Agrícola da Beira Serra, com mais de 30 anos. Também é um espaço de encontro e visitação do nosso concelho, com animação e nomes de renome nacional. Hoje em dia também estamos a trabalhar o envolvimento da comunidade estrangeira, temos perto de 600 pessoas recenseadas no nosso concelho, que já é uma população muito significativa. Temos tido a preocupação de integrá-los, embora haja diferentes tipos de estrangeiros. Muitos já são reformados, pessoas com posses, que têm boas casas e já não trabalham ou trabalham à distância. Depois, temos as comunidades estrangeiras que vivem aí na serra, um pouco mais em grupo, que já é um bocadinho mais difícil entrosarem-se. Começámos com encontros interculturais, aqui em Côja. Tivemos um evento em que eles traziam uma especialidade gastronómica do seu país, com animação também e eles participaram com as suas performances. Fizemos uma coisa muito interessante também que foi uma réplica do projeto [da orquestra comunitária ] «Nós 19», o «Nós 14», e a adesão foi principalmente dos estrangeiros. Tivemos um espetáculo final muito interessante, com muita diversidade cultural. Sentimos que são uma mais valia e é preciso ver que são eles que nos têm ajudado a equilibrar o nosso débito demográfico. 

Há alguma nacionalidade preponderante?

PD Não, são de diversas nacionalidades, ingleses, holandeses, alemães e alguns brasileiros. 

SOBREMESA

Tigelada, Pudim de Castanha com um shot de Jeropiga, Pudim de Queijo da Serra do Açor

Chegámos à parte mais doce e trouxeram-nos aqui duas novidades. Não estava à espera?

PD Pois não, o pudim de castanha e o pudim de queijo. Muito bem, até eu estou surpreendida. A tigelada é a mais icónica e os coscureis também, mas esses são feitos de propósito.. De resto, é o tal desafio, criarem estas novas propostas com produtos locais. 

Na farmácia, deve ter contacto com o reverso da medalha, as pessoas que aparecem com problemas digestivos e dores de barriga.  

PD Sim, só quando há abusos. Ainda ontem à noite, estava em Arganil e um senhor dizia-me: «Ai, doutora, precisava de um remédio que me esqueci, já não tenho.» Eu disse: «Está bem, pronto, quando for embora e passar lá por Côja telefone que eu dou-lhe.» Assim fez e quando abro a porta aparece outro senhor, que aproveitou o facto de eu ter a farmácia aberta para procurar um medicamento também, que estava esgotado. Lá disse que estava alojado em Avô, que tinha almoçado em tal sítio e o primeiro senhor começou a dar-lhe algumas indicações, mas na verdade no dia seguinte tive vontade de o convidar a experimentar outras, porque se ficarem só por aquelas não vão conhecer outras melhores. Lá acabei por explicar e divulgar, espaços e iniciativas. É assim, aproveito para «vender o meu peixe», como se diz.

É orgulhosa da sua terra?

PD Muito, muito. Temos outra mais valia que são os caminhos pedestres e a passagem da Grande Rota do Alva. Além do percurso de Côja, temos as pequenas rotas do Piodão, o percurso da Benfeita - que é um local muito bonito, que tem uma cascata Fraga da Pena e a sua área protegida da Mata da Margaraça. É uma reserva muito interessante da nossa fauna, sinergética, com espécies de flora únicas na península e que resistiu aos incêndios pela especificidade de árvores que tem. 

E ainda a presença romana e até rupestre. 

PD Sim, o Núcleo de Arqueologia está especialmente dedicado ao Acampamento Militar Romano da Lomba do Canho, que também é um espaço que vamos reativar e tornar o espaço visitável e bem interpretado, e o Centro Interpretativo de Arte Rupestre de Chãs d'Égua, que abre nos primeiros sábados de cada mês com visitas orientadas pelo nosso arqueólogo. Recomendo a visita noturna que é fantástica, o brilho que as figuras ganham com as lanternas é muito diferente do que se vê durante o dia. 

CIM - Região de Coimbra

Fotos: Mário Canelas

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