RU(G)AS DE COIMBRA por Ricardo Jerónimo

Quando abriram o túnel ao cimo desta avenida, passei a subi-la e descê-la mais frequentemente, de carro, para contornar o trânsito, normalmente em direcção ao Loreto, na entrada norte da cidade. Antes disso costumava percorrê-la de bicicleta BTT, a caminho de Vale de Canas.

Uma memória forte que guardo da Elísio de Moura tem a ver com uma das coisas mais importantes, pelo menos na altura, para um miúdo de 11 ou 12 anos: um sítio para jogar futebol. Não era um campo propriamente dito... Desses havia na Quinta da Maia (um mais pequeno, lá mais para cima, entre os prédios, e outro maior, em terra batida, onde está hoje um supermercado) ou nas escolas secundárias da Solum. Na verdade, quando subia a avenida era com o objectivo de, ao contornar um dos enormes prédios encavalitados na encosta, chegar a uma rampa que dava acesso a uma série de garagens. O desespero por jogar à bola era tanto que a imaginação ampliava o que nos rodeava e, portanto, um dos portões transformava-se numa óptima baliza. O plantel de luxo era composto por 3 jogadores, eu e mais dois irmãos gémeos, meus colegas na escola Eugénio de Castro. De forma rotativa, um de nós posicionava-se a guarda-redes e os outros dois eram simultaneamente defesa, médio e avançado, jogando um contra um.

Esses dois irmãos tinham uma profunda cumplicidade, como muitos gémeos parecem ter, mas também enveredavam frequentemente por discussões acesas e intermináveis, sobre as mais pequenas coisas. Um era fanático do Porto e outro do Sporting, o que gerava faíscas constantes, às quais eu me mantinha distante, no meu papel de recente sócio da Académica com uma costela familiar do Benfica. Mas as discussões, que normalmente envolviam gritos, lágrimas e longos amuos, estendiam-se ao uso do comando de televisão, à escolha do jogo da Sega que se ia experimentar depois do lanche, ou, no final de tudo isto, à argumentação junto dos pais sobre quem tinha “começado”. Também com eles fui percebendo que falar de ouvidos fechados dá, normalmente, maus resultados.

Ao fim do dia, lá vinha eu por ali abaixo, muitas vezes a correr, ofegante, porque estava demasiado próximo o horário estipulado para chegar a casa, de modo a ter tempo para tomar banho antes do jantar, ingerido impreterivelmente às oito da noite. A comida era rapidamente ingerida, em silêncio, com a cabeça concentrada no dia seguinte, quando, a meio da tarde, haveria uma Avenida para subir, novamente a correr...

Texto: Ricardo Jerónimo
Fotos: Coolectiva

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