A ave que habita os postes e o imaginário do Baixo Mondego

Se o milhafre nos der licença, deixa de ser o protagonista por um dia e dá espaço a outra ave que faz parte da pintura dos campos do Mondego: a cegonha-branca (Ciconia ciconia). Ela que bem merece a nossa atenção, apesar de não gostar de muita proximidade.

A quem percorre os campos do baixo Mondego não lhe passa despercebida. Nem poderia, pois tudo o que é poste eléctrico ganha asas

Se pararmos e nos aproximarmos, este dinossauro alar, que pode chegar aos dois metros de envergadura, lembra-nos que, apesar de gostar de ambientes humanizados, não é fã de contacto humano e começa a tocar castanholas com o bico.  Para ela é um alerta, para nós é da melhor percussão que a natureza faz.

Ir ou Ficar?

Se até há uns tempos era mera visitante estival, hoje tem passado a residente anual. Os adultos encontram em Portugal um lar com alimento disponível nas 4 estações, achando que ficar neste nosso cantinho compensa toda a energia e perigos de uma migração de centenas de km. Já os juvenis, no primeiro ano de vida, querem é sair de casa dos pais e ver o mundo, acompanhando os adultos mais tradicionais até para lá do Sahara, ou até Marrocos (no caso dos menos atrevidos), entre Agosto e Setembro.

Para os que vão, não falando naqueles atletas de alta competição, que também os há no mundo das cegonhas, é uma viagem de ida de cerca de 25-34 dias, 12 dos quais para atravessar o maior deserto da Terra (200 km), o que é ainda mais espantoso sabendo que não costumam voar de noite, por dependerem de correntes térmicas. O retorno à casa de Verão, que na verdade é feito no Inverno, já é mais demorado, ali com umas mini-férias para os lados de Marrocos.

Mas a regra está a tornar-se excepção e o último censo de Inverno realizado a esta espécie aponta números a rondar os 20 000 indivíduos (10 vezes mais do que há duas décadas) que decidem estabelecer-se de malas e bagagem em Portugal, alargando cada vez mais o território. Ainda sem certeza de percentagens, a tendência para os investigadores do Birds on the Move é clara: Portugal está a tornar-se a sua residência fiscal.

Podemos florear e atribuir estes novos habitantes anuais a uma paisagem agradável e Invernos amenos, mas facto é que este bico vermelho aponta mais para os aterros sanitários, onde há comida para dar e vender. Mas nem tudo é fast food e na verdade esta cegonha presta-nos um serviço importante, ao alimentar-se do lagostim-vermelho-da-louisiana (Procambarus clarkii), uma espécie exótica que se tem tornado uma grande ameaça aos rios portugueses.

Vida em comunidade

A expansão pelo território português é notória, mas os campos do Mondego já são poisos tradicionais. Isto porque são o reflexo do que é o habitat perfeito para esta cegonha: zonas pantanosas, pastagens húmidas, margens de rios, com poisos altos e sem muita vegetação florestal.

A cegonha-branca é uma ave gregária que pode viver mais de 30 anos. Os casais podem caçar em grupo e nidificar em colónias, ficando os mais velhos com os ninhos centrais e os mais jovens na periferia. Os parceiros, com exceção de casais mais liberais, são para a vida e nidificam em ninhos que podem pesar até 250 kg. Por ano apenas nasce uma ninhada por casal, que, partilhando esforços, incluindo a incubação, criam 4 crias. As mini cegonhas nascem com o bico escuro e ganham a coloração vermelha tão característica no Verão seguinte.

Do imaginário à realidade

O cuidado dos casais monogâmicos para com as crias, mesmo depois destas se tornarem independentes, e a noção de lar transposta para um ninho para o qual voltam ano após ano, deram à cegonha um estatuto carinhoso que remonta à mitologia grega, espelhando a imagem da família e da fidelidade. Mas provavelmente terão sido os hábitos migratórios os responsáveis pela associação entre esta ave e o nascimento de bebés, já que o retorno à Europa é feito no Inverno/Primavera, simbolizando a fertilidade e o renascimento. Há ainda teorias que apontam a sobreposição entre a chegada das cegonhas e a chegada de bebés, em locais onde os casamentos eram realizados no solstício de Verão (21 de Junho), comemorando a fertilidade, nascendo os rebentos 9 meses depois, altura em que as cegonhas chegavam.

Esta associação entre cegonha e família trouxe uma consciência popular que se tornou de relevante importância a nível de conservação e sensibilização ambiental. Em Bragança, por exemplo, matar uma cegonha era considerado um crime de mão cortada.

Já faz tanto parte do nosso imaginário dos campos do Mondego que por vezes nos esquecemos que por baixo destas penas a preto e branco se esconde um ser vivo tão complexo como simples. A nossa dica é olhá-las com olhos e ouvidos curiosos, sem importunar. Se começarem a ouvir aquela caixa de som (o som do repetido bater do bico é amplificado pela garganta e cria-se um ritmo diferente para cada situação) gravem-no na memória e está na hora de ir embora.

Texto e Fotos: Inês Teixeira

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