Fernando de Lisboa, António de Coimbra

Tomasino tinha ano e meio de vida quando caiu numa tina d’água e se afogou. Corria o ano de 1263 e a criança vivia na cidade italiana de Pádua, mesmo ao lado de uma igreja. Com o menino morto no colo, a mãe desesperadamente correu para junto de uns frades e rogou a um santo. A multidão, que crescia em volta da mulher, testemunhou a promessa: ela pediu que o filho fosse ressuscitado e, em troca, daria sempre aos pobres uma quantidade de trigo equivalente ao peso do menino. Tomasino voltou à vida e foi para Santo António que a mulher chorou agradecimentos. De lá pra cá, toda a igreja que ostenta o nome deste santo, mantém a tradição do Pondus pueri — o peso da criança — e distribui pão tal como foi feito no milagre paduano.

Foi bem perto da terra do menino italiano Tomasino que morreu Santo António, num 13 de junho, há 790 anos. Sua história começa em Lisboa, onde nasceu, por volta de 1190 (quando falamos de Santo António, as datas não são marcos definitivos e sim aproximados) e recebeu o nome de Fernando Martins de Bulhões. O nome Bulhões pode remeter à profissão do pai, um homem ligado ao mundo monetário, dos impostos, a que Fernando não quis dar continuidade, preferindo entrar para a vida monástica quando tinha 15 anos. Escolheu a Ordem dos Cônegos Regrantes de Santo Agostinho, na Igreja de São Vicente de Fora, perto da casa onde vivia, para receber a primeira instrução. Prossegue a sua formação no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, sendo ordenado sacerdote, tornando-se então D. Fernando Martins.

A Coimbra da chegada, descoberta e partida

Estima-se que Fernando tenha vivido por quase dez anos em Coimbra. Chegou em meados de 1211, morou num mosteiro de vanguarda, paredes-meias com um grande centro urbano onde desenvolvia sua formação intelectual bastante apurada nas sagradas escrituras, na Lectio divina. A Ordem seguia uma regra instituída a partir dos ensinamentos de Santo Agostinho e Fernando vivia monasticamente na oração, silêncio e leitura quando um encontro mudou sua vida, tornando-o mais inquieto.

Italianos de Narni, os franciscanos Berardo, Otão, Pedro, Acúrsio e Adjuto partiram de Assis, em 1219, rumo às terras dos sarracenos, para pregar a fé aos muçulmanos. Na peregrinação, estimulada pelo próprio São Francisco, os cinco Frades Menores passaram por Coimbra, onde conheceram e conviveram com alguns cónegos regrantes, entre eles… D. Fernando Martins. Aquele encontro teve uma magnitude considerável na espiritualidade do jovem lisboeta, o que testemunhou da missão dos peregrinos o marcou profundamente.

De Coimbra, os missionários atingiram Sevilha a pé e, imprudentes, pregaram o Evangelho na mesquita principal da capital mourisca. Presos e torturados, em 16 de janeiro de 1220, foram decapitados pela cimitarra do Miramolim Aboidil, em Marraquexe. Cristãos conseguiram resgatar as cabeças e as enviaram para Portugal, justamente para a igreja do Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra (onde estão até hoje).

Frequentador do ermo

A chegada das relíquias dos Mártires de Marrocos, no fim deste ano de 1220, emocionou D. Fernando, imediatamente cativado pela coragem daqueles que falaram mudos e fermentaram o coração do cónego para mais uma decisão importante: abandona o claustro crúzio para ir viver entre os primeiros franciscanos conimbricenses numa pequena comunidade onde hoje é os Olivais. O lugar tinha albergado os amigos italianos de Fernando e acolhia doentes e marginais, num hospício dedicado a Santo Antão (um santo egípcio do início do cristianismo no Oriente, considerado o Pai dos Eremitas Cristãos).

É ali naquele ermitério que D. Fernando Martins procura uma gruta que lhe serve de cela, muda de nome, assume-se António, despoja-se do seu senhorio, cria a sua desinstalação, seu desconforto, aumenta seu despreendimento.

Estava na geografia de António uma outra tonalidade de espiritualidade, deixar tudo era pouco. Uma inquietação que germinou em Coimbra o fez deixar os Olivais e partir para Marrocos, na senda do ideário franciscano, no rastro dos jovens mártires. Dali para a Sicília, passando por Argel e Túnis. Além de Itália, conheceria o sul de França e entraria para a história pela sua celebradíssima e eficaz arte de pregar. Oitocentos anos depois, o ermitério onde ficava a cela do cónego Fernando, é a maior freguesia da Região Centro e uma das maiores de Portugal, Santo António dos Olivais tornou-se um lugar para contemplar os anseios daquele que hoje é chamado de Doutor da Igreja.

Fernando António Nogueira Pessoa

Na tarde de 13 de junho de 1888, uma quarta-feira, nascia em Lisboa o filho de Joaquim e Maria Madalena. O nome do menino homenageava duplamente o santo: Fernando António Nogueira Pessoa trazia na certidão de nascimento a vida irrequieta do compatrício. Na véspera do seu último aniversário, em 1935, Fernando Pessoa escreveu um poema para Santo António onde pede e questiona:

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,
Sê sempre assim!
Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.
Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei António —
Isso sim.
Porque demónio
É que foram pregar contigo em santo?

Texto e fotos: Vilma Reis

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Maria Sobral
02.07.2021

Sempre acrescentando mais ao caminho que meu querido Santo Antonio de Lisboa e de Pádua abriu para os que o querem seguir.