COIMBRA NO MUNDO | Rio de Janeiro, Brasil

Vivo no Rio de Janeiro desde abril de 2012, mas saí de Portugal há quase 20 anos.

Logo após me formar em Direito na Universidade de Coimbra, em 2004, fui viver um ano em Stuttgart, na Alemanha, integrada no programa Serviço de Voluntariado Europeu (SVE), da UE. Sempre desejei viver fora e, após essa primeira experiência tão rica em aprendizados, percebi que queria continuar vivendo no estrangeiro. Da Alemanha fui para Espanha, onde vivi em diferentes cidades (Jerez de la Frontera, Sevilha e Madrid) durante quase 7 anos e, de lá, vim para o Brasil.

Sempre adorei viajar e conhecer outras culturas. Inspirada pela história da minha família, que viveu em Angola e no Brasil, e tendo tido o privilégio de viajar pela Europa com os meus pais desde a adolescência, percebi desde jovem que a minha trajetória seria além-fronteiras. Senti também, desde cedo, que o meu propósito era ajudar as pessoas e, de alguma forma, contribuir para a construção de um mundo melhor.

Trabalhei, durante muito tempo como voluntária, em várias organizações não governamentais na área de prevenção da delinquência e promoção dos direitos humanos. Vim para o Rio através de uma ONG espanhola com a missão de implementar um projeto social numa favela da Zona Norte, onde vivi durante alguns meses e experienciei uma cidade bem diferente daquela emoldurada nos cartões postais.

O meu desejo era ficar na cidade, aprender mais sobre a realidade das favelas e, de alguma forma, me integrar à luta pelos direitos humanos, tornando-me parte ativa da transformação social. Com o apoio de pessoas incríveis, que me abriram portas e confiaram em mim, tive então a oportunidade de continuar a minha trajetória por aqui.

No início de 2013, comecei a minha jornada pelo yoga como praticante e, em determinado momento, meus dias se dividiam entre o mundo da coordenação de projetos sociais e os àsanas (posturas) e pranayamas (exercícios de respiração). Até que resolvi unir esses dois universos, criando o Instituto Yoga na Maré e iniciando nesta cidade um novo capítulo, repleto de alegrias, desafios e aprendizados.

O Yoga na Maré é o fruto de uma trajetória de muito trabalho, estudo, dedicação e perseverança e sem dúvida o que mais me enraíza a esta cidade. Com raízes fortes e consolidadas, espero ampliar o meu trabalho e conseguir impactar a vida de cada vez mais pessoas.

Ao longo destes 9 anos de Rio de Janeiro, sinto que vivi vários Rios de Janeiro e vivi várias vidas, todas elas de forma muito intensa. Cheguei quando a cidade estava repleta de estrangeiros, expatriados de uma Europa em crise financeira, e se preparando para sediar os grandes eventos (Mundial e Jogos Olímpicos). Vivi numa favela do subúrbio, vivi em outra favela de frente para o mar, e depois vivi em diferentes apartamentos no asfalto. Trabalhei sempre muito, mas também desfrutei das inúmeras belezas que admiro nesta cidade maravilhosa: longas caminhadas e passeios de bicicleta por Copacabana e Ipanema, trilhas na Floresta da Tijuca, manhãs preguiçosas na praia, aulas de natação no mar, remadas de canoa havaiana com o sol nascendo, rodas de samba, aulas de pandeiro, feijoadas da (Escola de Samba) Portela, shows na Lapa, jantares e festas em casas de amigos. O Rio de Janeiro é uma cidade que pode ser desfrutada sem precisar gastar muito, com várias opções de lazer gratuitas, o que é excelente para migrantes com orçamentos apertados.

Criei uma rede de amigos multicultural, que se tornou minha família e com quem compartilhei momentos únicos, mas que neste momento já estão em outros lugares.

Além do trabalho, muitas vezes desdobrado em diferentes lugares para conseguir pagar as contas, e dos tempos de lazer quase sempre acompanhados de sol, água com sal e música, estudei muito. Formei-me como professora de yoga e terapeuta Ayurveda e, neste momento, continuo me aperfeiçoando e especializando.

Atualmente, a minha vida é dedicada ao Yoga na Maré, às aulas de yoga, aos atendimentos de Ayurveda e aos estudos. Com a pandemia de Covid19, e as recomendações de isolamento social, desde março de 2020 que o Rio de Janeiro ficou reduzido à minha casa. As aulas, os atendimentos de Ayurveda, os workshops e os eventos do Yoga na Maré, as rodas de samba, os convívios com amigos... passaram a ser entre quatro paredes e em frente à tela do computador.

Outro Rio de Janeiro dentro do Rio de Janeiro, outra vida dentro da vida nesta cidade. Porém, apesar de todos os desafios e dificuldades, que são muitos, este período ofereceu-me também a possibilidade de me conectar mais com as pessoas que deixei em Coimbra e em outros lugares onde vivi. Através da adaptação ao mundo digital, comecei a gravar vídeos para o canal do YouTube do Yoga na Maré e a dar aulas de yoga online também a familiares e amigos, compartilhando com eles um pouco do que tenho aprendido ao longo da minha trajetória. Nos eventos virtuais do Yoga na Maré, sinto a emoção de ter na mesma sala de yoga as alunas da Maré, os alunos das minhas aulas particulares, os meus pais, a minha prima, as minhas amigas da faculdade e os meus amigos de Madrid, por exemplo. Ao mesmo tempo que estou privada de fazer o que mais gosto no Rio de Janeiro, que é estar na Maré com as minhas alunas, dar aulas presenciais, organizar encontros, e desfrutar das imensas possibilidades de lazer ao ar livre que o Rio oferece, estou expandindo o alcance do meu trabalho e me reconectando com pessoas especiais que fazem parte da minha vida.

De Coimbra, sinto especialmente saudades dos tempos vividos durante a minha formação académica.

Eu cresci em Penafiel, mas nasci e passei várias férias de verão em Coimbra, na casa dos meus tios. Através da minha prima, 3 anos mais velha do que eu, conheci as tradições académicas quando tinha apenas 15 anos.

Comecei a acompanhar os momentos festivos, a assistir aos saraus de tunas, a aprender mais sobre todo o mundo académico e a alimentar o sonho de estudar na Universidade de Coimbra.

Sonho realizado, vivi com alegria e intensidade toda a tradição académica. Fiz parte das Mondeguinas – tuna feminina da Universidade de Coimbra, que foi a minha segunda (ou primeira?) faculdade, tracei a capa com emoção e orgulho, chutei a raposa antes das provas, fiz e recebi serenatas, organizei eventos e festas caseiras, participei de inúmeros saraus académicos e festivais de tunas. Também estudei, e preferia sempre a sala da Associação Académica, a sala dos Grelhados, o Cumn ou alguma biblioteca das faculdades da Alta, pela oportunidade de troca e convívio entre colegas.

Foram tempos únicos, que deixam saudades, mas que se mantêm vivos e presentes por fazerem parte da minha história, por terem-me formado como pessoa, e por me terem presenteado com amizades que, até hoje, são o meu porto seguro nesta vida de emigrante.

Quando eu vivia em Espanha ia regularmente a Portugal, mas desde que me mudei para o Brasil tornou-se mais complicado. Em 9 anos, fui apenas duas vezes, e por um tempo muito curto.

Quando vou – e espero fazê-lo em breve – não posso deixar de subir as escadas monumentais até à Alta, passar na porta férrea, escutar a cabra tocando e visitar a faculdade de Direito; descer pelas ruelas, passear nas margens do Mondego, tomar um sumo no bar da Associação Académica (pode parecer estranho, mas nunca tomei álcool); lanchar na Vénus; encontrar-me com os amigos na Praça da República, ir a um ensaio das Mondeguinas.

Como não vivo em Portugal há muito tempo, e principalmente porque não vou aí há quase 5 anos, não me sinto com legitimidade para fazer alguma avaliação ou propor alguma mudança na cidade de Coimbra, embora procure manter-me informada da situação da cidade através das notícias e das conversas com amigos e familiares. E mais do que voltar para ficar, sinto que meu destino é levar um pouco de Coimbra e Portugal por todos esses lugares pelos quais passo e ainda passarei nesta vida.

Ana Olivia Cardoso

* A Autora escreve segundo o Acordo Ortográfico.

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Lidia Maria Cardoso Gomes.
27.06.2021

Ana, adorei ler tudo que escreveste sobre a tua vida, maravilhoso!! Beijinhos da tia com saudades.

Neuza Nascimento
28.06.2021

Muita Luz pra você, Ana! E Gratidão pela sua generosidade.
Beijo!

Anselmo Sivla
29.06.2021

Uma história linda, contada de forma envolvente. Me fez ler rindo!

jose manuel figueiredo moreira
29.06.2021

Adorei a tua história de vida e que sempre me orgulharei de ti. Só não te perdoo porque não mencionaste os nossos encontros em Penafiel par comer gelado. Mas pronto acabei por te perdoar !!!!! Minha querida sobrinha foste e Hades continuar a ser uma lutadora. Muitos beijinhos do tio ZECA.