QUESTÕES COIMBRÃS | Como promover a dinamização e preservação do centro histórico de Coimbra?

O que é que perguntaríamos aos políticos da cidade se pudéssemos? E o que é que cada um deles responderia? Estas perguntas foram o ponto de partida para a criação desta nova rubrica da Coolectiva e não precisámos de pensar muito no nome. Fomos buscá-lo à Questão Coimbrã, célebre polémica literária que marcou a visão da literatura em Portugal na segunda metade do século XIX. 

É importante entender o sítio onde se vive que, como todos, tem as suas idiossincrasias. Há sempre tanto coisas a resolver como coisas a aplaudir. Nesta rubrica, atiramos perguntas sobre diversos temas de relevância municipal a pessoas de diferentes quadrantes políticos para lançar o debate democrático e plural. 

À segunda questão de Junho, responderam Paula Pêgo (Independente),  Carlos Lopes (PSD),  Carlos Cidade (PS), Filipe Ferreira (PAN),  Francisco Queirós (CDU) e Jorge Gouveia Monteiro (Cidadãos por Coimbra).

Durante os próximos meses, contamos continuar a tratar aqui assuntos de interesse público e contribuir para um esclarecimento generalizado da população relativamente às posições e propostas políticas dos nossos inquiridos, nos mais variados campos. A qualquer momento, aqueles inseridos num partido ou movimento político têm a liberdade de designar outra personalidade do mesmo para responder. O conjunto de respostas a cada questão é publicado mensalmente aqui, na Coolectiva

Como promover a dinamização e preservação do centro histórico de Coimbra?

Paula Pêgo

Doutoranda em Ciência Política (área governação) na Universidade de Aveiro, é licenciada em Direito, pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (UC). É jurista na empresa municipal Águas de Coimbra, E.M., administradora não executiva da empresa Metro Mondego S.A. e vereadora sem pelouro na Câmara Municipal (CM) Coimbra.

Começo por referir que a promoção, ou não, da dinamização dos centros históricos está intrinsecamente relacionada com a segurança ou insegurança dos mesmos.

Previamente, e como referi no artigo publicado sobre a insegurança na Baixa de Coimbra, importa aludir ao conceito de centro histórico de uma cidade por forma a delimitar o âmbito das ações a definir. O centro histórico é o “núcleo de origem do aglomerado, de onde irradiaram outras áreas urbanas sedimentadas pelo tempo, conferindo assim a esta zona característica própria cuja delimitação deve implicar todo um conjunto de regras tendentes à sua conservação e valorização” (in DGOTDU; 2005). 

A dinamização desta zona da Cidade passa pela conceção de uma estratégia que contenha políticas públicas integradas ao nível da habitação, da recuperação do edificado, da preservação do património classificado (municipal, nacional ou mundial da UNESCO Universidade de Coimbra, Alta e Sofia), da valorização do espaço público e da qualidade do ambiente urbano, da promoção do comércio local, da instalação de equipamentos de natureza cultural por forma a promover a vivência do espaço urbano, da atração de empresas criativas e tecnológicas, bem como assegurar uma mobilidade adequada e sustentável.

A requalificação das margens do Mondego, a requalificação da Beira Rio, a proteção do comércio e da restauração local com história, o Centro de Arte Contemporânea, o Mikvé, o Salão Brasil, a abertura do canal de transporte público do Sistema de Mobilidade do Mondego, a construção dos novos edifícios na Rua Nova e na Rua da Sofia (Edifício Ponte), são alguns dos projetos que vão contribuir para a revitalização do centro histórico, permitindo evoluir para uma zona atrativa, patrimonialmente preservada e socialmente diversificada, recuperando parte das suas funções de outros tempos e conferindo-lhe uma nova vivência.

Carlos Lopes

Tem 43 anos. É licenciado em Geografia pela UC e pós-graduado em Ordenamento e Desenvolvimento do Território. É atleta federado da Secção de Desportos Náuticos – modalidade Remo – da Associação Académica de Coimbra. Foi presidente da Junta de Freguesia de Almedina, em Coimbra, entre 2009 e 2013 e é o actual Presidente da Comissão Política Concelhia do PSD Coimbra. 

Para além de morador na “Alta” coimbrã, tive o privilégio e o orgulho de presidir à extinta Junta de Freguesia de Almedina, entre 2009 e 2013. Durante esse período, quero acreditar que existiu um verdadeiro espírito de dinamização e genuína ideia de ocupação de espaço físico, que ultrapassava a atual preocupação dissimulada de pintura das fachadas dos edifícios, mais ou menos degradados, ou da destruição de património com a substituição das escadas e passeios (do calcário para o granito) ou mesmo com a retirada questionável de monumentos de homenagem como estátuas, sem considerar a sua recolocação.

Tempos houve de afirmação, de tão nobre zona da Cidade, com um objetivo concreto: impulsionar e dar vida aquele que é o Coração da nossa cidade, da Universidade à Sé Velha, promovendo a ligação à Baixa pelo Quebra-Costas - através da criação de oportunidades de negócio e abertura de espaços ligados à cultura e ao turismo - tal como a tão necessária fixação de pessoas.

Em 2013, com a candidatura de Coimbra a Património Imaterial da Humanidade, reforçámos a vocação intrínseca do nosso Centro Histórico para fixar empresas e pessoas, reabilitar edifícios e promover a urgente qualidade de vida.

Convocámos sinergias no aproveitamento do fado, enquanto promotor cultural e turístico de divulgação das tradições coimbrãs, fomentando novas oportunidades de negócio (como a restauração, lojas tradicionais ou a escola do fado) e apoiámos iniciativas como o “Jazz Quebra”, hoje uma referência cultural de Coimbra.

Mas o entusiasmo desses dias parece ter-se esbatido. Transformou-se num cinzento-escuro, apenas pintado a cor pelos graffitis que inundam as paredes tristonhas de um passado longínquo.

Precisamos de uma Coimbra na vanguarda da reabilitação urbana e na linha da frente da requalificação do imenso e inigualável património que possui. Para além da intervenção no terreiro da Erva, questiono onde estão os planos de uma tão necessária intervenção, por exemplo, na Rua da Sofia. Tanto como se não será já tempo de alargarmos o centro histórico à margem esquerda do rio mondego?

Cidades como o Porto, Guimarães, Braga ou Évora, onde vários indicadores apontam para o aumento da fixação de empresas e pessoas, apresentam hoje uma delimitação física desses espaços muito mais abrangente e compacta, com níveis de intervenção e ocupação profundamente superiores a Coimbra.

O que é que aspiramos? Um centro histórico-museu com estátuas, recantos e tradições? Um centro-histórico com Vida feita de fado, serenatas e futricas? Preenchidos com estudantes e turistas? Com diversidade de restaurantes e cafés que potenciam o comércio local? Com variedade cultural de um teatro ou um cinema que nos orgulhe?

É legitimo, desejável e possível querermos tudo isto e muito mais para o nosso centro histórico! Com o envolvimento da sociedade civil e da comunidade local, com planeamento e capacidade de criar projetos inovadores, conseguiremos indubitavelmente promover a fixação de pessoas, fomentar a economia local e progredir com o investimento sustentável.

Tenhamos todos o arrojo de não nos ficarmos apenas pela discussão das “pedras”.

Carlos Cidade

Licenciado em Direito, exerce no Núcleo de Apoio Jurídico da Águas do Centro Litoral, SA (Grupo Águas de Portugal). Foi dirigente sindical, adjunto e chefe de gabinete do presidente da CM Coimbra e vereador. É vice-presidente da CM Coimbra e membro da Comissão Nacional do PS.

Vou começar esta resposta com um desabafo: Esta pandemia enche-nos a todos de tristeza em relação aos vários negócios que por ela foram afetados e que estavam a revolucionar a forma como vivíamos todo o centro histórico. A simbiose entre o Turismo Sustentável, as intervenções realizadas pela Câmara e pela Universidade em termos de mobilidade e reabilitação urbana, a ligação das pessoas com o percurso da baixinha até à Universidade, levavam-nos para uma baixa com cada vez mais gente, de dia e de noite.

Com esta tempestade da pandemia, o turismo parou, alguns negócios foram suspensos outros estão com grandes dificuldades e passámos a olhar para a necessidade de recuperar. A dinamização do centro histórico passou assim por duas vertentes fundamentais: A aceleração da reabilitação do espaço público e a promoção de iniciativas que mantenham a atração de quem cá vive e quem nos visita para o coração da cidade.

No campo da reabilitação do espaço público, está à vista de todos a reabilitação que vem da Universidade até à Sé Velha, passando pelo Quebra Costas e ainda ligando às intervenções da “Via Central” e das ligações da Sofia com a Manuel Rodrigues e a Rosa Falcão. Estas intervenções juntam-se à já reabilitada Praça do Comércio, Praça da República e Terreiro da Erva. Mais que passeios, e acessos, tratamos também de garantir melhoria das condições de serviços de água e saneamento para quem lá mora e visita, no respeito pela comodidade das pessoas e no respeito histórico.

Mas de que servem as infraestruturas se não as usamos, por isso mesmo o caminho que percorremos é para devolver a energia entusiasmante que criámos antes desta pandemia. Trazer novamente os grandes eventos, como as Festas da Cidade, o Fim de Ano ou os grandes eventos desportivos de dimensão internacional, que contribuem para a recuperação económica.

É continuar a trabalhar com a APBC, AHRESP e representantes de Comerciantes e moradores diversos que nos permitam ir capitalizando oferta pública de cultura, desporto e lazer com aquilo que os comerciantes e restauração tem para oferecer, como tão bem se tem visto desde a Ferreira Borges à Almedina.

Por fim, dinamizar e preservar o Centro Histórico é continuar a apoiar as reabilitações e investimentos privados no âmbito das Áreas de Reabilitação Urbana que foi definida para o efeito, criando empregos, atraindo moradores, turistas e utilizadores do espaço público que possam usufruir do melhor que Coimbra tem, como o estamos a fazer na zona da margem direita do Mondego.

Filipe Ferreira

Filipe Ferreira, 42 anos, é residente em Coimbra, economista em regime de freelancer. É membro da comissão política distrital do PAN e membro da Liga de Amigos do Museu Nacional Machado de Castro.

Em circunstâncias normais, o centro histórico de Coimbra possui grande dinamismo devido aos fluxos turísticos que a ele ocorrem, por se constituir como um dos principais senão mesmo o principal atrativo turístico da cidade, estatuto reforçado após a sua elevação a património mundial. Como tal, é expectável que à medida que os efeitos nefastos da pandemia se vão reduzindo e por consequência aumentem os fluxos turísticos,  o centro histórico vá recuperando o seu vigor pré-pandémico. Não é possível conceber a dinamização do centro histórico sem presença humana e só quando as condições sanitárias o permitirem é que não apenas os turistas mas também o comércio e a cultura poderão voltar em força. Recordamos alguns eventos pré-pandemia que normalmente ocorriam no centro histórico, conferindo-lhe dinamismo: feiras medievais, mini-concertos de tunas académicas, concertos de verão ao ar livre, encontros mágicos, realização de peddy-papers, homens-estátua, etc.

Em termos de preservação, verificamos que parte do edificado do centro histórico se encontra grafitado constituindo assim um foco de poluição visual que não abona para a sua imagem, sobretudo se tivermos em consideração o seu estatuto de património da humanidade.

Independentemente dos edifícios estarem grafitados ou não, parte deles necessitam de obras de reabilitação. Para a reabilitação dos edifícios, dever-se-á fazer uma simbiose entre conservação, restauração e sustentabilidade: restauração e conservação no que se refere à parte exterior do edificado através, nomeadamente da preservação dos traços arquitetónicos de época; sustentabilidade no que se refere à parte menos visível do edificado mas importante para a sua conservação, por um lado e para atender a valores importantes do nosso tempo como a maior eficiência energética. Para tal, poder-se-á procurar preservar as fachadas dos edifícios ao mesmo tempo que se substituem os antigos materiais, mais inflamáveis, do interior dos edifícios, como é o caso das madeiras, por materiais mais recentes concebidos para resistir a incêndios, mas também cujas propriedades permitem diminuir a amplitude térmica ao longo do ano tornando assim os edifícios mais confortáveis para quem os habita. Assim que a requalificação dos edifícios esteja feita, poder-se-á destinar parte desse imobilizado para fins turísticos (turismo de maior valor acrescentado) proporcionando ao turista a possibilidade de enriquecer a sua estadia em Coimbra ficando hospedado no centro histórico.

Francisco Queirós

Tem 56 anos e é natural de Coimbra. Professor de História do Ensino Secundário, é vereador da CM Coimbra. Exerceu diversos cargos de gestão escolar, foi delegado sindical, dirigente sindical e associativo. Militante do PCP, é membro do Comité Central do PCP e tem vasta colaboração em órgãos de comunicação social.

A melhor forma de preservar o centro histórico é dando-lhe vida. Dar vida não é apenas, nem sobretudo, povoar o centro com visitantes e alojados temporários. Muito menos expulsar os que ainda vivem no centro da cidade.

O centro histórico precisa de pessoas. Assim, há que trazer moradores à Alta e à Baixa de Coimbra. Reabilitar o edificado e limitar e condicionar os custos de aquisição e de arrendamento, através de programas específicos e de política fiscal.

 O centro histórico precisa de serviços. Assim, os serviços municipais devem permanecer e sediar-se aqui. E a Alta e a Baixa precisam dos seus museus, do Tribunal, bem como de outros equipamentos, como o teatro da cerca.

O centro histórico precisa de comércio e restauração. Do pequeno comércio de bairro, que faz sentido com habitantes. Do comércio tradicional que não sirva apenas aos turistas, mas que seja capaz de atrair os citadinos e servir os habitantes do concelho.

O estado actual do centro histórico torna difícil, mas cada vez mais imperioso e necessário, intervir para inverter o rumo. Outras políticas municipais são fundamentais para o seu revigoramento. Outras políticas, quer municipais, quer outras do Estado central, poderiam já ter evitado a desgraça a que se chegou. Coimbra, cidade de média dimensão no contexto nacional e pequena no quadro mais geral da Europa, não carecia de tantas grandes e médias superfícies. As grandes superfícies foram sendo instaladas por toda a cidade e são, em certa medida, também responsáveis pela crise do comércio tradicional e desse modo pela degradação da qualidade de vida. Em tempo, dever-se-ia ter regulado e limitado esse avanço desenfreado.

Sim, pois uma cidade faz-se com bairros, onde há parques e jardins e outros espaços de lazer, equipamentos culturais e desportivos, pequeno comércio, a mercearia, o talho, a peixaria, o café, o quiosque de jornais.

Talvez a Alta e a Baixa não regressem àqueles tempos de glória, cheias de vida e de gente. Por que não? Não podem ser transformadas definitivamente numa espécie de paisagem para excursão de turistas.

Tratar do centro histórico da cidade é urgente. Não passa por medidas avulsas, por pequenos remédios que rapidamente se revelam ineficazes frente a uma ofensiva galopante. A cidade trata-se e humaniza-se com outro modelo de desenvolvimento.

Jorge Gouveia Monteiro

Nascido em 1956, licenciou-se em Direito. Foi dirigente do PCP, membro da Assembleia Municipal e vereador da CM Coimbra. Foi administrador dos Serviços de Acção Social da UC e um dos fundadores da associação Grupo Gatos Urbanos. É coordenador da direcção do movimento Cidadãos por Coimbra. 

É urgente repor a multifuncionalidade, acrescentando habitação a custos controlados, para venda preferencialmente a jovens famílias, e habitação para arrendamento em regime de renda apoiada, Para isso, o Município tem que adquirir uma fatia de mercado com peso suficiente para suster a especulação, designadamente através da reversão para o Município dos terrenos do Infraestruturas de Portugal entre a Av Fernão de Magalhães e o Rio, mas também no conjunto da Baixa e da Alta. É inexplicável que terrenos e imóveis adquiridos pela Câmara na primeira década de 2000 estejam ainda desaproveitados.

O conceito de requalificação urbana não se esgota nas pavimentações, tantas vezes desadequadas. O Município tem que saber ouvir a Universidade, no quadro da Associação Ruas, e a população antes de avançar com as empreitadas. E, depois dos pavimentos, tem que dinamizar novas funções nas praças e largos históricos. Há largos anos que o CpC  vem propondo a realização de um mercado semanal de flores e plantas na Praça do Comércio, ou no Terreiro da Erva, seguindo o modelo de muitas cidades francesas e italianas, desde logo a cidade de Pisa, geminada com Coimbra.

Alguns exemplos de dinamismo empresarial estão a surgir na zona histórica. É necessário aprofundar este movimento, criando as condições urbanas aprazíveis para a instalação das chamadas indústrias criativas, designadamente na zona do Arnado e na frente ribeirinha. É também necessário reaproveitar o valioso património histórico dos colégios renascentistas da Rua da Sofia, atraindo para aí actividades culturais e artísticas.

Percebendo que a Baixa é o local dos que chegam à Cidade, é urgente criar condições de apoio à população carenciada, designadamente sem-tecto, para a sua instalação em habitação apoiada, com acompanhamento interdisciplinar, noutras áreas da Cidade.

Foto: Paulo Victor/Unsplash

Próxima Questão Coimbrã:

Como fomentar a inclusão da comunidade na governação local?

* Biografias da autoria dos inquiridos e editadas pela Coolectiva; respostas copiadas ipsis verbis sendo que alguns autores seguem o Acordo Ortográfico.

Outras Questões Coimbrãs:

Deixa-nos a tua opinião!

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.