A história e os encantos do rio a que chamavam Munda

De Munda a Mondaecus, o hoje rio Mondego reflecte os séculos de transparência, claridade e pureza que lhe originaram o nome.

É dele Coimbra e é nele que Aeminium brilha ao longo dos tempos.

Capas negras, Santa Clara,
Da tricana à universidade,
Ó Mondego tens nas águas,
Todo o brilho desta cidade

Tuna de Medicina de Coimbra, Capas Negras

Fonte de Inspiração

É a alma alquímica que partilha com Coimbra, que faz deste o rio mais cantado do país, possivelmente pelas suas margens terem sido palco de tributos à cidade que acolheu os estudantes da então única universidade portuguesa e lusófona, reflectindo a gratidão pelas lições de cultura e de vida. Recorrêssemos à poesia, perceberíamos o papel de confidente deste espelho de água. Podia ser feito de lágrimas de saudade de quem vive a nossa cidade.

Inspira poetas desde o século XVI, com direito a salpicos no Cancioneiro Geral e na obra de Luís de Camões, e mais tarde nos versos de nomes tão acarinhados como António Nobre, Eugénio de Castro, João José Cochofel  ou Miguel Torga, eternizado hoje sobre estas águas. A esta inspiração poética juntam-se-lhe as capas negras e a Canção de Coimbra nasce bebendo-lhe a alma, com a assinatura de grandes nomes, como Luís Goes e António Portugal. Daqui, desemboca na Balada de Coimbra e é a voz de José Afonso que nos consciencializa do quão a vivência na cidade do Mondego se nos crava na identidade.

Ó, Coimbra do Mondego
E dos amores que eu lá tive
Quem te não viu anda cego
Quem te não amar não vive

E se há quem por ele se inspire, há ainda quem lhe saiba ler as águas, ou não fosse o tema Variações de Coimbra de Gonçalo Paredes (e mais tarde Artur Paredes e Carlos Paredes) o melhor adjectivo das várias facetas do nosso Mondego. O rio nasce a cerca de 1525 metros de altitude na Serra da Estrela, perto de Manteigas e percorre as Beiras por mais de 250 km. Ao longo do caminho, com a ajuda de afluentes como o Dão, o Alva ou o Ceira, vai deixando a sua marca em povoações como Lajeosa do Mondego, Ribamondego ou Torres do Mondego, cuja identidade não se dissocia de um rio que as refresca, as alimenta e as hidrata.

Entre rochas graníticas e formações metamórficas, o Alto Mondego passa pelo planalto beirão, encaixa-se nos vales verdes e encolhe-se nas escarpas da Livraria do Mondego. 

Chegado a Coimbra, absorve-lhe o fado e tranquiliza as águas que rumam à foz da Figueira, em 40 km de planícies aluviais, fertilizando os campos do Baixo Mondego que culminam num estuário de cerca de 25 km de comprimento.

Esta heterogeneidade é uma das razões para abarcar um grande número de ecossistemas, abrigando as mais variadas espécies. No entanto, apenas um terço da sua extensão apresenta uma cobertura vegetal bem preservada e a qualidade da água na região do Baixo Mondego é degradada. Mas o caminho faz-se caminhando, e aos poucos reinventa-se os sistemas produtivos tradicionais com foco no equilíbrio ambiental. A Ilha da Murraceira é o exemplo de como a produção artesanal de sal marinho persiste em harmonia com as aves que nidificam no estuário. Mas não nos deixemos enganar pela sua ternura. O Mondego sempre tem uma palavra a dizer quando se lhe quer pôr rédeas; é o dono da sua água, e se lhe impomos barragens, extraímos areias ou se lhe retiramos vegetação essencial para fixação das margens, está sempre pronto a relembrar quem verdadeiramente domina a situação: as cheias de ontem, farão sempre parte do amanhã se agora não o respeitarmos.

Para além de o contemplar, são inúmeras as actividades com que nos vai acenando. E Coimbra tem estado atenta ao longo dos últimos anos. Desde acções de voluntariado para limpeza, requalificação de algumas zonas de lazer, praias fluviais, acções culturais com estas águas em pano de fundo, e actividades de recreio desde a natação à náutica, são várias as opções para lhe viver a tranquilidade. Para aproveitar mais da sua vertente natural, a sugestão passa por deixar os sentidos nos guiarem pelas zonas cheias de vida que são banhadas por ele. O Choupal é sempre o ex-libris, mas os paúis,
de Arzila e do Taipal não podem ser esquecidos, bem como o próprio estuário do Mondego. Bem pode correr para o mar, que continuará sempre a correr-nos na alma. É uma simbiose tão simples: respeitemo-lo e hidratar-nos-á sempre a veia da Saudade.

Texto: Inês Teixeira
Fotos: Inês Teixeira e Pedro Costa

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