QUESTÕES COIMBRÃS | Qual é o futuro do património industrial devoluto de Coimbra?

O que é que perguntaríamos aos políticos da cidade se pudéssemos? E o que é que cada um deles responderia? Estas perguntas foram o ponto de partida para a criação desta nova rubrica da Coolectiva e não precisámos de pensar muito no nome. Fomos buscá-lo à Questão Coimbrã, célebre polémica literária que marcou a visão da literatura em Portugal na segunda metade do século XIX. 

É importante entender o sítio onde se vive que, como todos, tem as suas idiossincrasias. Há sempre tanto coisas a resolver como coisas a aplaudir. Nesta rubrica, atiramos perguntas sobre diversos temas de relevância municipal a pessoas de diferentes quadrantes políticos para lançar o debate democrático e plural. 

Contactados todos os habituais participantes nesta rubrica, até à data de publicação responderam Carlos Cidade (PS), Carlos Lopes (PSD), Jorge Gouveia Monteiro (Cidadãos por Coimbra) e Jorge Almeida (CDS).

Durante os próximos meses, contamos continuar a tratar aqui assuntos de interesse público e contribuir para um esclarecimento generalizado da população relativamente às posições e propostas políticas dos nossos inquiridos, nos mais variados campos. A qualquer momento, aqueles inseridos num partido ou movimento político têm a liberdade de designar outra personalidade do mesmo para responder. O conjunto de respostas a cada questão é publicado quinzenalmente aqui, na Coolectiva

Qual é o futuro do património industrial devoluto de Coimbra?

 

Jorge Gouveia Monteiro

Nascido em 1956, licenciou-se em Direito. Foi dirigente do PCP, membro da Assembleia Municipal e vereador da CM Coimbra. Foi administrador dos Serviços de Acção Social da UC e um dos fundadores da associação Grupo Gatos Urbanos. É coordenador da direcção do movimento Cidadãos por Coimbra. 

Reconverter e preservar a memória.

Importantes espaços industriais em zonas centrais da Cidade, designadamente na frente ribeirinha, na Arregaça e na Pedrulha) podem e devem ser reconvertidos quer para as chamadas "indústrias criativas", entendendo eu por isso atividades económicas de alto valor acrescentado ligadas à moderna revolução digital (bom exemplo da Critical), mas também ateliês, incubadoras de empresas, etc, quer ainda para atividades culturais e lúdicas. A "CBR factory" pode nascer nestes espaços de grande proximidade ao centro e ao Rio.

Alguns outros exemplos de património industrial devoluto, em zonas mais periféricas, podem e devem ser musealizados como memórias importantes de uma Cidade com produção cerâmica, têxtil, alimentar. Estou a pensar em Taveiro e no Ameal, nos Fornos, em Souselas, no Algar, na linha de  Antanhol a Cernache. Outro exemplo, que proponho seja preservado na anunciada remodelação da Estação ferroviária, é o das antigas oficinas de reparação de locomotivas, existentes a Norte da gare e que se encontram intactas.

Mas há património de atividades industriais mais antigas e quase artesanais que merece ser preservado e pode dar lugar a polos de atração cultural, educativa e turistica, como os moinhos de água de Cernache, os esteireiros de bunho de Arzila, algum/s lagares de azeite, a serração e carpintaria dos Pereiros, além dos teares de Almalaguês que, fruto do dinamismo associativo das tecedeiras, têm conseguido resistir.

Jorge Almeida

Tem 53 anos e é presidente da Comissão Política Distrital do CDS-PP, bem como professor adjunto no Instituto Superior de Engenharia de Coimbra. É investigador, membro sénior e especialista da Ordem dos Engenheiros. Colunista no Jornal Económico, é consultor e ex-director técnico de várias empresas e também ex-oficial do Exército. 
 
 

O património industrial devoluto de Coimbra é vasto, mas constata-se que está ao abandono pelo que carece de uma estratégia urgente de reconversão e requalificação urbana. Na cidade de Coimbra são, infelizmente, escassos os espaços disponíveis para startups, hubs criativos e profissionais liberais pelo que o património industrial devoluto deve ser reconvertido tornando-se, por isso, rentável e muito procurado após a necessária reabilitação.
Por toda a Europa são inúmeros os exemplos de reconversão de património industrial para habitação, comércio e serviços pelo que Coimbra tem que activamente cuidar do seu património industrial abandonado, embora não seja uma tarefa fácil dado o mesmo pertencer maioritariamente a privados. Compete à autarquia estar na primeira linha da defesa do património industrial da cidade, mas infelizmente constata-se que por inércia e falta de ideias quase nada tem sido feito.

A arquitectura industrial é um testemunho de primordial importância para o conhecimento e compreensão da evolução da cidade, pelo que este património abandonado merece inequivocamente ser preservado. Face à importância deste património, há que criar uma estratégia que permita recuperá-lo e tornar Coimbra uma cidade amiga do investimento e das empresas que se queiram instalar na cidade e se debatem com indisponibilidade de espaços. O contributo da conservação e integração de edifícios industriais devolutos tem vital importância para Coimbra que tem que rapidamente acelerar a regeneração urbana, pois só assim se tornará mais atractiva ao
investimento e à instalação de novas empresas e manutenção das existentes, para ser capaz de reter o talento dos jovens que anualmente terminam os seus estudos superiores e que não encontram trabalho na cidade, ou seja tem também uma dimensão social e económica que importa não esquecer.

Carlos Lopes

Tem 43 anos. É licenciado em Geografia pela UC e pós-graduado em Ordenamento e Desenvolvimento do Território. É atleta federado da Secção de Desportos Náuticos – modalidade Remo – da Associação Académica de Coimbra. Foi presidente da Junta de Freguesia de Almedina, em Coimbra, entre 2009 e 2013 e é o actual Presidente da Comissão Política Concelhia do PSD Coimbra. 

Para falarmos de futuro do património industrial de Coimbra, temos necessariamente que revisitar o passado, que foi verdadeiramente rico e historicamente imponente, sobretudo entre 1850 e 1950.

Tempos de gente arrojada e empreendedora e em que observámos a fixação de inúmeras indústrias, nos mais deferentes ramos (alimentar, vidreira, cerâmica, têxtil), a qual aproveitou de forma exemplar, a ferrovia, como principal meio para escoamento dos produtos.

Hoje, todo esse património industrial, continua a ser “Edifício”, mas muito dele está abandonado, devoluto e obsoleto, como podemos observar em diversas zonas da nossa cidade: as antigas industrias de lanifícios e sabões, em Santa Clara; de faiança e curtumes, na Baixa de Coimbra; de massas, bolachas, de fundição, de moagens, de serração, na zona mais a norte do Concelho ou os equipamentos coletivos referentes ao abastecimento de água (antiga central elevatória no Parque Manuel Braga) e de eletricidade (central termoelétrica dos serviços municipalizados).

Não obstante, e ao longo dos últimos 12 anos, assistirmos à requalificação e recuperação de vários desses “edifícios”, em ações urbanísticas mais ou menos casuísticas e sem ordem aparente, sendo que a grande maioria continua em processo de forte degradação e abandono generalizado.

Trata-se efetivamente de um vasto património e monumentos industriais, cujas valências e potencialidades (culturais, didáticas, turísticas e económicas) urge aproveitar e onde as políticas municipais deverão ter um papel fundamental. Não só do ponto de vista da gestão urbanística e de requalificação do espaço público, como de promoção destas áreas junto dos diferentes parceiros económicos e potenciais investidores.

Coimbra deverá respeitar sempre o seu passado e está na hora de o aproveitar, potenciando o presente, idealizando e projetando o futuro. Com o arrojo dos seus antepassados, deverão ser criados mecanismos de recuperação e requalificação que permitam que as novas gerações aproveitem e dinamizem todo este legado.

O Plano de Resiliência apresentado pelo Governo, poderia ter sido um bom “motor” para esta aposta, mas infelizmente parece ter sido mais uma oportunidade perdida.

Resta-nos acreditar que ainda vamos a tempo, com criatividade e trabalho, devolver a muitos destes “Edifícios” a dignidade e a vivência que os mesmos merecem.

Carlos Cidade

Licenciado em Direito, exerce no Núcleo de Apoio Jurídico da Águas do Centro Litoral, SA (Grupo Águas de Portugal). Foi dirigente sindical, adjunto e chefe de gabinete do presidente da CM Coimbra e vereador. É vice-presidente da CM Coimbra e membro da Comissão Nacional do PS.

O futuro do património industrial está à vista de todos e pode se definir em duas palavras, reabilitação e adaptação. Reabilitar é um dos pontos fundamentais de uma economia que se quer sustentável em termos ambientais e que permita potenciar os recursos que estão ao nosso dispor. Os próprios fundos europeus em curso e os que irão chegar com as linhas de financiamento do próximo quadro financeiro plurianual, vão ser favoráveis à reabilitação de património sem utilização/devoluto, ou com negócios falidos. Neste campo temos assistido a casos de projetos de reabilitação bastante interessantes como é o caso da residência médica que pretende reabilitar a antiga fábrica da Ideal ou da Critical Software que tem em marcha um projeto para reabilitação das antigas instalações da Coimbra Editora. O Município tem incentivado e apoiado este tipo de iniciativas, não só através dos regulamentos municipais de incentivos e taxas, mas também dando apoio administrativo e político a estes esforços dos privados na nossa cidade, como por exemplo na zona da Pedrulha, veja-se o exemplo da antiga Armar, projetos em curso na antiga Fábrica Triunfo, a antiga CERES em Torre de Vilela, com uma dinâmica empresarial visível, espaços de lazer e desporto como no antigos Transportes Jaime Dias e na zona central da cidade os projetos em curso nos antigos “barracões” da CP, no terreno da antiga Fábrica Triunfo na Rua dos Oleiros, ou a instalação de uma moderna unidade hoteleira numa antiga fábrica de lanifícios nas Lages/Quinta da Várzea.

Contudo o que estas e outras reabilitações representam é também um sinal de adaptação, adaptação dos negócios às realidades económicas, procurando tornar estes edifícios mais sustentáveis em termos energéticos e infraestruturais, e capazes de se readaptarem no futuro. Um desses casos será certamente o projeto da Bluepharma na reabilitação da antiga POCERAM. Tornar estes projetos adaptáveis a este novo paradigma e capazes de se auto-ajustarem com as mutações naturais da economia e do mercado, que cada vez é mais célere nessas mesmas mutações.

Ou seja, o caminho está traçado e em andamento e está umbilicalmente ligado aos desafios que a União Europeia definiu para o futuro próximo de digitalização e sustentabilidade ambiental, potenciando os recursos e capacidades dos territórios, o que não poderia ser mais feito à medida dos exemplos que aqui referi e que são o caminho certo para essa recuperação patrimonial a par do natural impulso para o investimento em reabilitação que cria valor económico e cria emprego.

* Biografias da autoria dos inquiridos e editadas pela Coolectiva; respostas copiadas ipsis verbis sendo que alguns autores seguem o Acordo Ortográfico.

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