RU(G)AS DE COIMBRA por Ricardo Jerónimo

Foi para aqui que me mudei com a Joana, em 2006, quando decidimos sair das casas que passaram a ser
dos nossos pais. Um edifício peculiar, revestido a tijoleira e com uma galeria contínua, nas traseiras, que ligava a entrada para os quatro apartamentos de cada andar. Ficava mesmo em frente à Casa da Cultura, uma enorme vantagem para nós porque nos primeiros anos não tínhamos dinheiro para televisão por cabo ou internet, por isso, bastava atravessar a rua para ir ao e-mail, ler os jornais e requisitar um livro ou um filme.

Até hoje, nunca vivi numa moradia e, na verdade, sempre me senti bem a viver em prédios. Gosto de ir tirando a pinta aos vizinhos – a sua personalidade, os seus hábitos – e, sempre que possível, travando
amizades. Ou, no caso deste prédio, acelerando-as (com este fica completa a quota diária de jogos de
palavras que me é conjugalmente imposta). Rapidamente percebemos que em alguns dos outros apartamentos também viviam pessoas mais ou menos da nossa idade e, em poucos meses, já andávamos todos a entrar pelas casas uns dos outros, a combinar lanches e jantares, a ver filmes, a fazer sessões infinitas de Youtube, a importunar felinos ou simplesmente a conversar.

Durante alguns anos, a nossa vida foi em muito parecida à daquelas típicas sitcoms americanas como a Friends ou Seinfeld. O interior do nosso apartamento, no 2º andar, era muito exíguo, mas funcionava como uma espécie de estúdio open space, com quatro módulos, o que o tornava bastante personalizável. O primeiro módulo era composto pelo vestíbulo, a despensa e a casa de banho. No segundo estava uma pequena kitchenette e o espaço de comer. Estes eram abertos para o 3º módulo, a sala de estar. Finalmente, tudo terminava naquilo que tinha sido originalmente uma generosa varanda mas que, a certa altura, o dono do prédio transformara em quarto, encapsulado dentro de uma espécie de grande marquise. 

Foi nesse estranho quarto, com péssimo desempenho térmico, que eu e a Joana dormimos durante mais de 7 anos, ora quase congelados no Inverno, ora insuportavelmente quentes no Verão. Foi nesse estranho quarto, virado para a rua e sem vidros duplos, que repetidamente não conseguimos adormecer com o barulho dos carros, das discotecas ou simplesmente das conversas de quem passava lá em baixo. Foi nesse estranho quarto, sem qualquer insonorização acústica, que ouvimos os vizinhos de cima e do lado a, enfim, fazer as coisas deles. E foi precisamente lá, nesse estranho quarto, que numa fria noite de Fevereiro, com a ajuda de um assobio, escrevemos uma canção que mudaria boa parte das nossas vidas…

Durante alguns anos, a nossa vida foi em muito parecida à daquelas típicas sitcoms americanas como a Friends ou Seinfeld. O interior do nosso apartamento, no 2º andar, era muito exíguo, mas funcionava como uma espécie de estúdio open space, com quatro módulos, o que o tornava bastante personalizável. O primeiro módulo era composto pelo vestíbulo, a despensa e a casa de banho. No segundo estava uma pequena kitchenette e o espaço de comer. Estes eram abertos para o 3º módulo, a sala de estar. Finalmente, tudo terminava naquilo que tinha sido originalmente uma generosa varanda mas que, a certa altura, o dono do prédio transformara em quarto, encapsulado dentro de uma espécie de grande marquise. 

Foi nesse estranho quarto, com péssimo desempenho térmico, que eu e a Joana dormimos durante mais de 7 anos, ora quase congelados no Inverno, ora insuportavelmente quentes no Verão. Foi nesse estranho quarto, virado para a rua e sem vidros duplos, que repetidamente não conseguimos adormecer com o barulho dos carros, das discotecas ou simplesmente das conversas de quem passava lá em baixo. Foi nesse estranho quarto, sem qualquer insonorização acústica, que ouvimos os vizinhos de cima e do lado a, enfim, fazer as coisas deles. E foi precisamente lá, nesse estranho quarto, que numa fria noite de Fevereiro, com a ajuda de um assobio, escrevemos uma canção que mudaria boa parte das nossas vidas…

Texto: Ricardo Jerónimo
Fotos: Coolectiva

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