COIMBRA NO MUNDO | Dubai, Emirados Árabes Unidos

Coimbra passou de metrópole à minha aldeia preferida. 
 
Há 11 anos fora de Portugal, é nas minhas raízes que encontro o conforto para a alma e onde revejo o equilíbrio emocional para as decisões mais importantes que tenho que tomar. Depois de ter viajado o mundo inúmeras vezes, Coimbra continua sendo não só uma memória viva de felicidade pura mas também o meu ponto de referência cultural, histórico e académico.
 
Lembro-me de estar em Machu Picchu e aquando envolta no fascínio do império Inca (sec. XV/XVI), um rasgo de memória fez-me voltar à minha vida académica, cuja universidade tinha sido fundada por D.Dinis em 1290. Dois séculos antes. Quando estive em Boston, fui visitar Harvard, infiltrei-me no meio dos estudantes e consegui ver a biblioteca principal. O mesmo em Dublin no Trinity College, Oxford e por aí adiante. A biblioteca joanina é  (para mim), inequivocamente, muito mais bonita. 
 
Nasci em Coimbra e vivi muitos anos em Lamego, cada vez que voltava de fim de semana de Trás-os-Montes, sentia que a cidade era uma metrópole, perdia-me nas ruas e as pessoas não trocavam os v’s pelos b’s.
 
Para mim Coimbra era imensa, e Lisboa então nem se fala. 
 
Aos 19 anos fui viver sozinha para Siena, em Itália, e depois Roma. Que choque. O frenesim inquietante da cidade, as expressões romanas, a quantidade de turistas que não paravam de chegar. E os gestos? Aprendi que os gestos não são universais. O nosso gesto português de pôr os dedos na orelha para dizer que a comida é deliciosa, em Itália estamos a dizer que a outra pessoa é homossexual. O gesto italiano famoso de mão fechada virada para cima significa ‘Mas que raio?’, no Médio Oriente quer dizer ‘espera um bocadinho’.
 
Se virem um indiano ou paquistanês a levantar o dedo mindinho, não se atrapalhem, eles estão à procura da casa de banho. Na Coreia do Sul, se cruzarem o polegar e o indicador não vos estão a pedir dinheiro, estão a fazer o símbolo de um coração. E na China, o número 6 conta-se com a mão levantando o mindinho e o polegar mas no Havai o mesmo gesto significa ‘Aloha’ (Olá, em português)  
 
Aos poucos fui-me habituando e foi em Roma que consegui o meu primeiro emprego.
 
Se já me tivera perdido nas ruínhas da baixa em  Coimbra, foi em Roma que apanhei grandes sustos.  Voltei a Coimbra para acabar os estudos e trabalhei como guia turística no circuito da Universidade de Coimbra. Aprendi muito durante aquele ano e conheci pessoas incríveis mas senti vontade de voltar a sair, de novos desafios. Aos 21 anos, mudei-me para o Dubai e por cá continuo. Pensava no alto da minha pós adolescência que sabia o que estava a fazer, mas não fazia a mínima ideia no que me metera . Passei na entrevista de emprego com um inglês horrível para ser assistente de bordo em aviões. 
 
A minha vida em Coimbra era perfeita. Tinha casa, mota, boas relações na universidade e emprego remunerado. Um conforto pleno. Mas eu sou filha da inquietação e da liberdade e a falta de desafios, o cheirinho a  aventura que tinha vivido em Itália fez-me querer mudar de novo. Afinal é fora da zona de conforto que a magia acontece. 
 
Cheguei ao Dubai às 4h da manhã. Há um misto de medo e excitação quando se chega a uma cidade de noite. Eu costumo dizer que em Nova Iorque à noite só há maluquinhos na rua e em São Francisco parece que o espírito de Janis Joplin se propaga pelas ruas, em versão de overdose. Na Austrália tenho medo de atropelar um canguru enquanto conduzo à noite, o marsupial muito provavelmente sobrevive e o carro vai para a sucata. Na Ásia os mosquitos e a humidade noturna tomam conta das cidades. O termómetro do  Dubai, naquela noite de junho de 2012, marcava 43 graus. E dizia eu, na minha inocência, que o Alentejo ou a Toscana tinham temperaturas insuportáveis. 
 
O Dubai não é o que era quando cheguei.
 
Hoje em dia é um lugar de destino turístico para muitas celebridades, está nas bocas do mundo e, imagine-se, já se pode comer tranquilamente durante o ramadão nos restaurantes. No 'meu tempo’, não era assim. No meu segundo mês no Dubai, eu e as minhas amigas tivemos que nos trancar no WC de um shopping para comer Macdonalds. 
 
Havia duas praias onde se podia ir ao mar, mas estavam sempre cheias de pescadores asiáticos e as fotografias a mulheres estrangeiras na praia eram constantes. Íamos para a praia de lancheira, desprovidas de pão com chouriço e cerveja. Não havia muitos lugares para comprar porco e beber na rua assim é ilegal. Restava-nos sumos e água, que nos ajudavam a suportar temperaturas de 50º.
 
Andar na rua e fazer um passeio também não era viável. A cidade estava inundada de auto-estradas e zero lugares para caminhar. O hábito de ir à praça beber uma mini e comer uns tremoços de sapatilhas e jeans ficou em Coimbra. Aqui, um copo de vinho custa mais do que 10€ e na altura não era fácil encontrar álcool, a não ser dentro de um hotel internacional que exigia um ‘dress code’.
 
Nestes 9 anos a cidade evoluiu de uma forma incrível. O sheik queria um canal de água novo na cidade, parecendo um rio natural? Ora então ‘façamo-lo’. Ilhas artificiais para construir hotéis? Com certeza, construam-nas. Vamos criar espaços de arte e recreação? Modernizar e revitalizar partes antigas da cidade? Claro que sim. Meses e anos depois, a cidade reprogramou-se e, hoje em dia, é uma cidade incrível para se viver. 2012 parece anos luz de distância.
 
Sempre que podia, ia a Coimbra. Tinha a sorte de poder ir mês sim, mês não. E como boa emigrante que se preze, a minha mala voltava atulhada com comida, sempre rezando para que não me fizessem abri-la no aeroporto por excesso de peso, e ter que escolher entre o bacalhau, as latas de atum, o queijo da serra ou o moscatel. 
 
Sempre que volto a Coimbra, a primeira coisa que faço é dar uma volta a pé sozinha pela cidade.
 
Não sou fã de pastéis de nata mas os pãezinhos quentes da padaria, com queijo e fiambre, não me escapam. E o café bem tirado na praça a 0,50€? È felicidade em forma líquida. Gosto das cores da cidade, gosto de me sentar e ver os estudantes acabados de chegar e saber que já fui assim, e que em cada caloiro há um futuro incrível pela frente. Deixam-me triste as praxes actuais, onde a simbologia sexual tomou uma forma de auto-afirmação desnecessária e o largo consumo de álcool continua de forma exponencial.
 
No entanto, acho fundamental viver a vida de estudante de Coimbra. È uma escola sem igual e quase inexistente no resto do mundo, onde há uma ligação forte entre amizade e vida social com a parte académica. Já estudei em Itália e fiz o meu MBA no Dubai. Nada se compara a Coimbra. Ninguém tem tempo para um café a meio das aulas ou para ir a casa uns dos outros, com o pretexto de estudar. Não gosto disso. Dessa frieza, dessa indiferença pela vida académica. Desse vazio.
 
Na cidade, mudaria as oportunidades de emprego para gente jovem.
 
Estágios remunerados e integrados nos mais variados cursos. Coimbra tem tido uma revitalização muito positiva mas acho que tem imensas oportunidades para mais. Depois de ter viajado bastante, sei que a qualidade de vida em Coimbra é incrível. A segurança da cidade, a quase inexistência de criminalidade, os parques naturais, o rio, as serras e até a praia a poucos quilómetros de distância. 
 
Se pondero voltar? Claro que sim. Na realidade nem sei se alguma vez cheguei mesmo a sair. Aprendi ao longo dos anos que a alma nasce do caos e Coimbra tem alma, tem algo que a caracteriza que é indescritível e tem um caos inerente e boémio. Coimbra é, de facto, uma lição e agora vinda do Dubai, Coimbra é um pouco maior do bairro onde eu vivo e parece uma aldeia. Uma aldeia que admiro e que me recebe sempre de braços abertos. 
 
Sempre adorei o fado de Coimbra e defendo-o contra os ataques lisboetas, quase de uma forma infantil e irracional. No entanto há um fado de Coimbra que me deixou de fazer sentido.
 
Para mim, Coimbra tem mais encanto na hora da chegada. 

Anaisa Gomes

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