COIMBRA NO MUNDO | Genebra, Suíça

Faz precisamente dez anos que decidi emigrar para Genebra (Suíça). Sinto um turbilhão de emoções quando recordo este dia.

Não foi fácil para mim. Deixar Portugal nunca esteve nos meus planos. Recomeçar uma vida noutro país requer determinação e uma coragem extrema e eu estava longe de sentir isso. Sou licenciada em Serviço Social e na altura trabalhava numa IPSS, mas não era remunerada como tal. Tinha um salário pequeno que não me dava a independência financeira que sonhava ter. A oferta de trabalho na minha área era escassa. Encontrar um novo emprego com melhores condições era quase impossível.

A crise económica que se instalava em 2011 fez com que procurasse um novo rumo para a minha vida. Depois de um ano de ponderação, instalei-me finalmente em Genebra. Contei com ajuda do meu irmão e família que já viviam por cá. Ter o apoio da família já conta muito, mas não é tudo. Eu tinha consciência que não dominava a língua francesa e que isso poderia trazer-me alguma dificuldade em encontrar algo na minha área. Não me imaginava a fazer outra coisa. Contudo, pensava que por ser portuguesa e o facto de haver uma grande comunidade portuguesa neste país poderia ser uma porta aberta mas no meu caso, enganei-me.

Depois de alguns CV enviados, deparei-me com a realidade. Percebi que seria necessário começar por “baixo”.

Humildemente, aceitei um trabalho num hotel. Fiz limpezas até obter o famoso “permis de séjour”. Estava oficialmente declarada em Genebra. O tempo foi passando e com isso foram muitas as “portas” que me negaram emprego na minha área. Para mim foi um caminho árduo. Quando senti que dominava melhor a língua passei ao obstáculo seguinte. A Suíça exigia-me o reconhecimento do meu diploma. Fiz prova das minhas competências teóricas e felizmente consegui com que fosse reconhecida profissionalmente como assistente social.

Foi nesta boa fase da minha vida que conheci o Homem com o qual me casei. A ajuda e o amor do Davide foram fundamentais para seguir em frente, mas foi apenas em 2019 que consegui o meu primeiro emprego como assistente social. Presentemente, trabalho numa Instituição social reconhecida nesta cidade. Dedico o meu tempo à “terceira idade”, dando-lhe a dignidade e o respeito que tanto merecem, pois ao longo destes anos aprendi que TODOS somos dignos de sermos felizes num país que não seja o nosso mesmo que isso seja difícil de conquistarmos.

Ao contrário do que muitos portugueses especulam não fazemos horas extraordinárias ou não trabalhamos mais do que aquilo que e permitido legalmente.

Obviamente há quem contorne a lei e prefira encher os bolsos do que preservar a saúde. Eu trabalho 40 horas semanais. O meu marido também. A vida aqui começa cedo. Madrugamos para ir trabalhar. Partilhamos de uma rotina normal de um casal sem filhos, como todos os outros casais que procuram este país para ter mais qualidade de vida. Temos uma vida muito mais privada do que teríamos se estivéssemos em Portugal. Genebra é considerada a quarta cidade mais cara do mundo. Os “bons” salários de que se fala por aqui, não são assim tão compatíveis à qualidade de vida desta cidade, que acolhe milhares de culturas. As pessoas aqui são mais frias e egoístas. O dinheiro comanda a vida de todos os que se instalam. É difícil fazer amizades genuínas e que sejam para a vida. Também não gosto dos dias curtos associados aos dias cinzentos que se instalam sobre Genebra durante semanas. Com eles aumentam as saudades do sol e do calor humano que Portugal oferece gratuitamente.

Mas nem tudo é mau. Genebra oferece-nos uma panóplia de coisas boas. Gosto de passear à beira do lago “Léman” e sentir a brisa do mar. Gosto de fotografar o emblemático jato de água e o famoso relógio feito de flores. Podemos também saborear os diferentes chocolates suíços, assim como visitarmos a catedral de S. Pierre ou a sede europeia das Nações Unidas e no final do dia, degustar uma “raclette” ou uma “fondue” de queijo no aconchego do nosso lar.

Coimbra é saudade.

Saudade das minhas origens. Da família e amigos. Saudade de passear livremente pelo Jardim Botânico ou da Sereia. Saudades de ouvir falar português nas ruas da Baixa. Para mim Coimbra será eternamente recordada pelos momentos de estudante. Não há Queima das Fitas mais bonita do que a nossa. Saudade de ouvir o fado de Coimbra. Ou de apanhar o comboio até à Figueira da Foz e ver o mar. Infelizmente, com esta pandemia que ameaça o mundo, desde o ano passado que não vou a Coimbra tantas vezes como gostaria. A última vez foi no Verão do ano passado. Espero regressar em breve para “os braços da minha Mãe”.

Os meus pais e irmão são realmente a minha grande prioridade nas minhas idas a
Portugal. A distância é algo a que não consigo habituar-me. Por mais que o tempo passe, mais me dói ter de deixar os meus. Custa não podermos estarmos presentes em batizados, aniversários ou casamentos dos mais próximos. Em certa medida, não me sinto no direito de dizer o que gostaria que mudasse no nosso país. Neste momento a minha vida é em Genebra e não me vejo a regressar tão cedo. Acredito que isso aconteça quando me reformar (risos). Mas se pudesse mudar alguma coisa, começaria por mudar a mentalidade dos portugueses. Acabaria com as ideias estereotipadas acerca dos emigrantes contribuindo para uma sociedade mais tolerante e inclusiva.

Marta Rebelo Valentim

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