RU(G)AS DE COIMBRA por Ricardo Jerónimo

Tinha 10 anos quando fui para lá morar, em 1990, e ainda se chamava Rua do Cidral. Acabei por ficar a chamar-lhe assim até hoje, quase como que se tratasse de uma entidade abstracta. Mas, a certa altura, de uma entidade abstracta passou para outra bem concreta – “o” Miguel Torga, aquele que tinha consultório na Portagem e que, segundo o que ouvia lá em casa, teria merecido mais o Nobel do que o Saramago. A mudança de nome parecia querer atribuir à rua uma respeitável dignidade, mas um harmonioso conjunto de cidreiras sempre me pareceu ter dignidade que chegasse. Provavelmente o próprio Torga concordaria…

Vivíamos num prédio ao lado do café Anos Loucos. A localização era perfeita porque estava numa espécie de encruzilhada. Descendo, em direcção à rotunda do Mimosa, um supermercado aí existente, estava a dois passos da escola Eugénio de Castro. Uns anos mais tarde, ao sair de casa, se em vez de descer a rua, a subisse, era sinal que me preparava para ir ter com amigos à Praça ou em direcção à Universidade. Tinha também outra opção, que era cavalgar a grande escadaria que subia até aos Loios e me levaria a outra zona da cidade, mas isso ficará para outra vez… 

Indo em frente, logo à saída de casa, havia um carreiro pedonal, antigo e mal iluminado, que era o atalho ideal, directo a uma série de sítios bem mais interessantes: o Gira Solum (para ir ao cinema e ao salão de jogos, para ver as capas das revistas de música na mini-papelaria da entrada, para ir jogar Nintendo de graça na Românica, para mexer nos discos da Stradivarius); o Dona Maria (para jogar basquetebol, saltando a vedação ao lado do pavilhão do União, que estava devoluto e tinha sido ocupado por um clã cigano); a Brotero (que, a partir do 10o ano, acumulou as funções de escola e de novo campo de basket); e o estádio do Calhabé (para, de 15 em 15 dias, ir ver a Académica).

Falando na Briosa, a lembrança mais antiga que tenho de descer o Cidral, ainda lá não morava, coincidiu com um dia de jogo da AAC. No banco de trás do carro, a descer a rua, apercebi-me de que na terra batida em frente àquilo que viria a ser a minha casa, estavam vários carros estacionados. Com a porta aberta e os auto-rádios ligados no relato, os seus donos, de binóculo em riste e com um cotovelo apoiado no capot, sobrevoavam a Praça Heróis do Ultramar, atravessando o olhar sobre a bancada norte e a pista de atletismo, até chegar ao relvado. E ali guardei, para sempre, essa fugidia imagem de um sublime equilíbrio, entre devoção e tédio.

Texto: Ricardo Jerónimo
Fotos: Coolectiva

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