COIMBRA NO MUNDO | Eindhoven, Holanda

Em Janeiro de 2015, com um bebé de 6 meses num colo e um de 2 anos no outro, chegámos a Eindhoven, no Sul da Holanda, para começar uma vida nova. Mas a minha história começa antes, bem antes.

Nasci em 1978, como tantos outros bebés, na Maternidade Bissaya Barreto. Até aos 10 anos, vivi nos Olivais, depois na Rua dos Combatentes, naquele prédio amarelo do outro lado da estrada do Lanterna Dourada, mais conhecido por LD. Era por aí que os meus pais tomavam café todas as noites com os amigos e nós aproveitávamos para poder estar na rua a brincar, até às tantas.
Foi na igreja de São José que caí pela primeira vez de bicicleta.
Joguei às escondidas em becos escuros.
Dancei 'slows' em festas de garagem. Apaixonei-me e partiram-me o coração.
Subi e desci a rua vezes sem conta, a ir para a festa ou a vir da festa.
Tive mais do que um café: a Topázio, o Flamingo, o Rubyana, o Guana e o Piolho. O café. O sítio onde não era preciso combinar para ter companhia.
Passei mais horas à porta de sítios a decidir onde ir do que nos sítios em si.
Fui a matinés da Via Latina, enchi cartões no Aqui há Rato, dancei horas no Buraco Negro, atravessei a ponte para o Scotch, bebi absinto no States, traçadinho em tascas, bagaços no
Tosta e vodkas promoção no Académico.
Comi ossos no Zé Manel, pizzas no Pierrot, francesinhas no Atenas, torradas no Botânico,
pão com chouriço nas tendas da Queima, sandes de pernil ao fundo das monumentais e
cachorros no Psicológico.
Fiz uma linha no Bingo.
Invadi o estádio quando a Académica subiu de divisão.
Fui a mais de 10 Queimas.
Comecei no João de Deus, depois 'Anexas', Eugénio de Castro e Dona Maria.
Andei perdida em Química e em Farmácia e eventualmente encontrei-me em Psicologia.
Os meus amigos são de uma vida inteira, uns desde que me lembro de ser gente, outros descobertas mais tardias. Quase todos frequentadores habituais da minha varanda dos Combatentes. 

A minha história é igual a tantas outras de Coimbra.
Nunca imaginei viver num sítio que não fosse Coimbra.

Durante muito tempo, era a única referência que tinha de casa e sempre sem qualquer crítica. Desafiei-me a fazer um ano de Erasmus, em Salamanca, mas na primeira semana pedi à minha mãe para me ir buscar. Acabei por ficar mas fazia 6 horas de autocarro de 15 em 15 dias, para vir a Coimbra. Depois de acabar o curso, fui viver para Lisboa, atrás de um namorado que eventualmente virou marido. Nunca chamei Lisboa de casa. Fiz amigos mas os Amigos mantiveram-se os de Coimbra. Os meus filhos nasceram em Coimbra. Quando quis fazer mestrado foi em Coimbra. Coimbra continuou a ser casa, a casa dos meus pais, dos meus avós, dos meus amigos, das minhas pessoas. Mas não a minha casa. Não havia trabalho. Esperei/esperámos pacientemente por mudanças, nunca aconteceram. A cidade que outrora me parecia perfeita não nos queria lá. E de casa, passou a albergue. Que nos alojou grande parte da vida, mas que se recusava a continuar a dar-nos abrigo. E abriu-me os olhos para outras hipocrisias. O snobismo dos coimbrinhas e a obsessão com o 'em que zona vives?', 'o que fazem os teus pais?' ou 'onde compras a roupa?'. A excelência da teoria dos cursos universitários para empregos que não existem. O investimento em obras que ficam embargadas décadas. Uma Câmara Municipal que prioriza rotundas. Famílias falidas a viver em palacetes de fachada. O perpetuar de viver em função de uma universidade e de um hospital, com uma qualidade tão incrível como o tempo de espera para uma consulta.

A exigência de viveres dentro das fronteiras do que alguns determinaram que era Coimbra,
em casas que não podes pagar.

As mamãs do João de Deus que foram tuas colegas em algum momento da vida, mas que já não cabem nela. O olhar crítico dos velhotes que te veem passar com os copos depois do Sol nascer, ou olhar de orgulho se for durante a Queima. Tanta casa sem gente e tanta gente sem casa.  Coimbra mandou-nos embora e nós fomos.  Fomos à procura de menos preocupações financeiras, de maior valorização profissional e de uma forma de viver diferente. E encontrámos tudo isso na Holanda. Se calhar até mais. Mais calor do que imaginávamos, no clima e nas pessoas. Mais organização, mais eficiência, mais e melhores condições. Mais confiança na saúde. Mais diversidade cultural. Mais flexibilidade na educação. Mais voz também, quando não
concordas, dizes em voz alta e ouvem-te. Mais frontalidade, o que tens a dizer dizes na cara.
Mais igualdade no mérito entre ter um trabalho qualificado ou não. Mas também menos. Menos espontaneidade. Menos prazer a cozinhar e a comer o que cozinhaste. Menos coesão nas famílias. Menos elogios. Menos sentido de humor. Menos generosidade. Menos igualdade do que esperávamos. Não há lugares perfeitos. Mas até então, a balança continua a pender para ficarmos. 

Não encontrámos a familiaridade de nos sentirmos na nossa casa.

De saber que é na Baixa que se compram tecidos.
E que dá para comprar tabaco na 'Idemitsu' seja a que horas for.
E que há restaurantes que ainda servem às 11 da noite.
E que o mar está a meia hora de carro.
E que dá para estacionar nas faculdades para ir beber um copo ao Quebra.
E que na Conchada há uma pastelaria que se bateres à porta antes de abrir, te vendem
bolos acabados de fazer
E que a esplanada do tropical vai ser sempre vermelha.
E que aquela árvore do Jardim Botânico está lá desde sempre e para sempre.
E que não há leitão como no Rui dos mesmos.
E que um fino de final da tarde pode durar até às 2 da manhã.
E que um fim de semana com amigos pode ser marcado na véspera.
E que a senhora do autocarro foi tua professora na escola.
E que a mãe dos amigos dos teus filhos era tua amiga quando tinhas a mesma idade.
E que à 5a feira jantas sempre com os teus pais.

E que se voltarmos será por isso. Mas só quando nos quiserem de volta. Entretanto, vamos voltando, de vez em quando, para a familiaridade de quem se sente em casa e a distância de quem já não lá vive. Sempre de coração apertado, no encanto da despedida.

Até já Coimbra.

Joana Teixeira

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