RUC | Nos bastidores da mítica rádio que é escola, família e comunidade

Eu tenho um friozinho na barriga antes de levantar a via, diz Diogo Barbosa, 31 anos. E penso sempre, sempre: Por favor não digas merda, por favor não digas merda, por favor não digas merda. Sara Mendes, 40, diz que põe os pés no chão e respira fundo. Normalmente não fala logo. Fico à espera do momento, é um feeling. Ambos os locutores da Rádio Universidade de Coimbra (RUC) têm vários anos de casa. Não parece? Pois faz parte da paixão que eles, que sem saber tinham o bichinho e se perderam de amores pelo microfone, pelos estúdios da secção cultural da Associação Académica de Coimbra e pelo que acontece antes e depois de estar no ar.

A RUC faz 35 anos e não resistimos a fazer uma visita à rádio local, com emissão 24h por dia em 107.9FM e online, e legiões de fãs espalhadas pelo mundo e principalmente por Coimbra – do Choupal até à Lapa. Uma das coisas que adorei quando acabou o primeiro confinamento foi, depois do primeiro programa que viemos fazer em estúdio, ligar-nos um mecânico a dizer que já tinha saudades, conta Diogo. E uma senhora, com saudades de ouvir o meu riso na rádio! Sim, a rádio confinou por causa da pandemia de Covid-19. Também já perdeu a antena numa tempestade, foi berço de dezenas de jornalistas e locutores portugueses e continua a ser casa para muitos melómanos, sempre de antena no ar.

Uma rádio comunitária

Diogo Barbosa é de Cucujães, em Oliveira de Azeméis. Chegou a Coimbra em 2013 e viveu quase 10 anos em repúblicas. Mestre em História Contemporânea, na vertente de Estudos Coloniais, foi parar à RUC desafiado por um amigo, como convidado de um antigo programa da manhã, o Lavagantes da Lua. Fazia uma crónica que era a Cozinha para Burros, com o Zé Santiago, em que vinha cá uma vez por semana fazer coisas completamente nonsense, como ensinar o pessoal a cozer massas e a picar cebolas, era um programa da manhã, conta. Ensinei muita gente a fazer massa à estudante!

Membro da administração e locutor do programa Fahrenheit 107.9, de rock, do Café Olé nas manhãs e do programa de rock psicadélico e stoner rock Smoker, Diogo Barbosa descreve a RUC como uma espécie de república, no sentido em que é uma rádio comunitária, apesar de admitir que já tenha sido mais anárquica. As coisas estão muito compartimentalizadas, organizadas, gente muito obediente, interrompe Sara Mendes. Continuamos todos malucos e irreverentes mas já foi pior, continua. Sara está na RUC desde 2004, mas a história de amor dela começa bem antes, na década de 80. 

O irmão mais velho de Sara, Pedro Rosa Mendes, era locutor na RUC e levava cassetes com os programas dele e de outros locutores que admirava quando ia de fim-de-semana à casa da família, na Sertã. Acabávamos por ouvir todos aquilo, eu adorava, sempre tive um orgulho imenso nele e pensava: Ele é espectacular, diz estas coisas malucas, está ali a falar de coisas sérias e de repente passa Mão Morta! Foi com o irmão que Sara Mendes veio morar quando se mudou para Coimbra, ainda no ensino secundário. Lembra-se bem do ritual: sair da escola, chegar a casa, ligar a aparelhagem, puxar a frequência até ao fim e ouvir a RUC. Lembro-de de ouvir músicas que só conhecia dos CD do meu irmão mais velho, como Jay-Jay Johanson, Pulp, coisas que eu já gostava mas não conhecia mais ninguém da minha idade que gostasse.

Depois do curso de Biologia, já durante o mestrado, uma amiga de Sara, Olga do Vale, locutora do departamento de Informação da RUC, desafiou-a para fazerem juntas o curso de Programação da rádio. Nunca lhe tinha passado pela cabeça fazer rádio e sabia que o processo de candidatura era selectivo. Começa por um teste escrito, sobre as motivações de cada candidato e o conhecimento musical (no caso da Programação), e passa por uma entrevista presencial. 

O prazer de comunicar

Depois de ser aprovada nas diferentes fases do processo, à medida que foi fazendo o curso Sara Mendes começou a perceber que tinha encontrado a sua praia. Eu adoro isto. Adoro mexer nos botões, adoro escolher música e pensar que canção é que vou coser a esta, que informação é que é importante e significativa dar; isto começou a mexer comigo e a fazer-me perceber: eu gosto de comunicar.

Diana Rodrigues, 18 anos, anui. Esteve mais calada durante a conversa até porque é recém-chegada e teve de se ausentar para fazer uma entrevista. Natural de Almalaguês, entrou para a RUC em Setembro do ano passado. Somos a nova fornada da Informação, explica, os que ficaram encarregues de programas como o Observatório, que são as sínteses informativas às 21h. O seu Tempo, é diferente do de Sara. Um curso que costumava ser de um ano, por causa da Covid-19 e da necessidade de ter pessoas a trabalhar acabou por ser de 3 meses, com entrevista via Zoom. Diana não só é caloira num ano em que as aulas são híbridas, como não é estudante de Jornalismo e sim de Relações Internacionais, saída da área de Ciências e Tecnologias. Foi uma corrida contra o tempo mas senti que a RUC me ajudou muito a crescer, no sentido em que vinha para aqui e era um alívio. Vinha para a rádio, desligava e mudava o chip.

Agora foi a vez de Diogo Barbosa concordar. Eu passei a gostar muito da ideia de uma pessoa se poder expressar, ser si própria mas sem ter de mostrar a cara, isso para mim é fantástico, é um momento nosso mas também de partilha e o estúdio deixa-me super confortável porque não está ninguém a olhar para mim, explica. Mas não foi chegar, ver e vencer. Vim com uma ideia muito fixa (do rock) e foi uma das maiores aprendizagens que tive, foi ser desafiado durante o curso inteiro de Locução e Realização, a sair do meu espaço musical.

Sara Mendes lembra-se da primeira crónica que fez, sobre Josh Rouse. Ouvi a discografia completa, li imenso e fiquei com um conhecimento ao qual ainda hoje recorro. Já os programas da manhã, deram-lhe a capacidade de desenrascar. A questão é que uma pessoa vem para aqui, começa a gostar de vir para aqui, de repente passa-se quase um ano e vi mais vezes o microfone do que a lupa no meu local de trabalho, e é a tal comunidade que se cria. Sara é co-autora do programa Narita, de música japonesa, há 16 anos. Também faz e coordena o Preto no Branco, com colegas da chamada velha guarda (Fernando Alves, Fernando Ferreira, Rui Ferreira, Paulo Sebastião, entre outros) e Spot Hi-Fi, bastante participado pelos ouvintes.

Em directo e online

Sara, Diogo e Diana não têm dúvidas: a adrenalina do directo não tem comparação mas admitem que o podcast, ou seja o alojamento online dos programas gravados, é importante. Sara, descreve-os como um pau de dois bicos. Para pessoas como eu, mais perfeccionistas, gravar um programa de 1 hora leva 3 horas e a noção de que vai ficar disponível para qualquer pessoa ouvir condiciona-me na forma como vou comunicar, além de sentir que as coisas não saem tão naturais. Diogo defende que o podcast abre caminho para uma divulgação maior. Da parte dos artistas sinto que é uma forma de divulgação importante e as pessoas reconhecem o trabalho que estamos a fazer, é uma forma óptima de valorizarmos o nosso trabalho, sendo que nunca iria substituir o estúdio por um podcast em casa. A rádio em directo é a rádio em directo. Diana foi posta à prova quando cobriu as últimas eleições à Associação Académica de Coimbra. Foi muita adrenalina, porque estavam muitas coisas a entrar ao mesmo tempo, era ver dados e ir falando ao mesmo tempo, gerir as pessoas, foi uma experiência muito enriquecedora. Volta e meia cometia um erro e tinha de dar a volta por cima mas no fim, a Isabel Simões, que é uma “mãe de redacção”, disse: Bem, para quem foi atirada aos lobos, correu muito bem.

Há histórias de rivalidades entre departamentos na RUC. Sara e Diogo dizem que agora é tudo pacífico e foram muitas e muitas as tardes e noites de conversa nos corredores, entre todos. Se eu disser que a maior parte dos meus amigos são da RUC, não estou a dizer mentira nenhuma, afirma Sara Mendes, e garante que todos os anos entra gente nova e todos os anos os recebe como pares.

Diogo acha que conseguiu transpor o sentimento de comunidade que tinha em casa para a vivência deste espaço. Acho que o facto de ninguém ser profissional e o elemento comum a todos ser o prazer de fazer rádio, o ajudar, esse espírito que existe por só cá estar quem quer, faz com que o ambiente seja mais descontraído. Para o locutor, o edifício da AAC é um polo dinamizador de cultura para pessoas que à partida não se iriam inserir no meio cultural, inclusive pelo facto de permitir que pessoas não universitárias possam integrar as secções. Para mim, que não sou de Coimbra, foi uma oportunidade incrível de conhecer pessoas, trabalhar outras situações, envolver-me na cidade e não só no meio universitário. E acrescenta: A RUC por si só não vale nada, vale pelas pessoas que cá estão, os ouvintes que tem, os espaços que ocupa, a transformação que provoca nas pessoas.

Do outro lado

Quando se trabalha numa rádio local é fácil achar que não está ninguém a ouvir. Mas de repente acende-se a luzinha, que é o nosso telefone, e é alguém a perguntar: O que é que estás a passar agora? Isto é muito fixe!, conta Sara Mendes. Durante a pandemia, a locutora fez programas com os discos da sua vida, inspirada por desafios popularizados nas redes sociais. Quando fiz o primeiro capítulo, sobre a minha infância, percebi que estava muita gente a ouvir. Houve pessoas a ligar para o estúdio a dizer: Hey, não ouvia essa música há bué de anos!

Actualmente a trabalhar em Lisboa, a bióloga conta que mesmo artistas, nacionais e internacionais, deixam comentários nos alinhamentos que disponibilizam no Facebook, a agradecer o facto de os terem mencionado. Acontece com o mítico Santos da Casa, de música portuguesa, e programas de nicho. Sempre que há concertos na cidade, a rádio também tenta levar os músicos a estúdio. Aliás, graças à RUC nasceram projectos como a Lugar Comum

O amor pela rádio e pela música uniu os fundadores da associação de promoção e divulgação cultural de Coimbra. Fartos de gastar dinheiro a ir a Lisboa e ao Porto, perguntaram-se: Por que é que não havemos de ter concertos em Coimbra? Por que é que os nossos artistas favoritos não vêm a Portugal? Hoje em dia, os locutores garantem que, fora do contexto de pandemia, o panorama é bem diferente do que era há 10 anos. Antes, sair em Coimbra era ir para os copos e hoje sabes que se saíres à noite, pelo menos à sexta ou ao sábado, tens um concerto, diz Sara Mendes. De resto, para saber o que se passa, é não perder um Culturama e os blocos informativos, onde Diana afina o talento. A RUC é uma família, com pessoas dos 17 e 18 até aos 60 ou mais e tem sido compensador, mesmo no meio do confinamento. É voluntário mas é gratificante, dá-nos acesso a uma vida local que não teríamos de outra forma.

A provar a vitalidade, aos 35 anos de vida a RUC ganhou uma nova imagem e site. Desenhado maioritariamente por associados e actuais e antigos estudantes da academia, dá acesso às notícias, podcasts e até um chat. A assinalar o aniversário, sob o mote 35 anos sem restrições, há um ciclo de conversas sobre fazer rádio em tempos de pandemia e os desafios do jornalismo

Texto e fotos: Filipa Queiroz

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