ARTE AO DOMICÍLIO | Catarina Parente, Designer e artista

A artista plástica Gabriela Torres convida à reflexão sobre a relevância da arte em tempos isolamento através de uma série de entrevistas a artistas plásticos, fotógrafos, ilustradores, entre outros que ao mesmo tempo apresenta, abordados sob diversas perspectivas consoante a sua natureza mas sempre com a temática da figura humana como fio condutor.

 

– Catarina, fale-me um pouco sobre o seu percurso artístico.

– Sempre gostei de desenhar, pintar, criar. Quando era pequena, gostava de ter sempre por perto lápis e papel – mesmo que não estivesse a desenhar, sabia que me podia dar vontade! Fui crescendo, e os lápis de cor já não chegavam: descobri os pincéis (aguarela, guache), os pastéis (secos e de óleo), massa de modelar, crochet, costura, tudo aquilo que me permitisse criar. Entretanto, fui ganhando um gosto especial por objetos vários que se cruzavam no meu caminho, naturais ou não, e comecei a criar pequenas colecções – descobri o conceito de “objet trouvé”, e isto é algo que me tem acompanhado nos últimos anos. Tirei o curso de Design e Multimédia na Universidade de Coimbra, e esta formação
permitiu-me aliar a minha criatividade a projectos de design. Ao longo dos últimos anos tenho trabalhado no desenvolvimento de materiais gráficos, Web, CDs, livros… Não dispenso uma boa reunião para tentar perceber e sentir o projecto que me é pedido. Quando crio para outros, sinto que lhes devo esse empenho e entrega. Aquilo que crio para mim, como nasce de uma necessidade muito pessoal de produção, acaba, na maioria das vezes, por ficar guardado. Actualmente, estou a frequentar o Doutoramento em Arte Contemporânea do Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, onde estou a desenvolver o meu projecto de investigação que foca, entre outros aspectos, o desenho como forma de assimilação do lugar.

– Como equilibra a dualidade entre a ilustração digital e os trabalhos mais recentes de fotografia?

– Estas duas vertentes da minha produção artística têm funcionado como um equilíbrio, talvez uma forma pessoal de manter a balança nivelada entre a ordem do design e a flexibilidade da arte. Na ilustração digital, encontro-me através de linhas limpas, curvas que seguem caminhos específicos, paletas de cores harmoniosas, objectos cuidadosamente enquadrados no campo visual. Gosto de criar imagens felizes, que transmitam leveza e, esperançosamente, um sorriso no rosto de quem as observa. Na fotografia, encontro uma forma de registar as alterações que crio no mundo que me rodeia. Se raspar, ou pintar, neste espaço, o que acontece? Como brilha a tinta que seca? Se colar aqui esta frase, como estará daqui a uma semana, e que efeito terá naqueles que a lerem? Este trabalho revela-se mais cru, intuitivo, embrenhado na riqueza de texturas que o mundo me oferece e que considero, só por si, passíveis de serem arte. É sobre elas que actuo, explorando esta dinâmica de intervenção e acaso, num processo que é acompanhado por fotografia, ou vídeo,
para registo dos resultados.

– Considera Coimbra uma cidade que valorize as artes plásticas?

– Acredito que Coimbra tem tido, nos últimos anos, no geral do panorama cultural da Cidade, um problema de comunicação. Muitas das exposições ou actividades carecem de divulgação atempada e alargada, limitando o alcance àqueles que já se encontram dentro dos círculos de comunicação. No entanto, e principalmente agora,  com o advento da urgência do digital em tempo de confinamento, acho que o desafio está a ser superado!

No que toca ao mundo das artes, não nos falta por onde escolher, desde que se esteja atento. Temos o Museu do Chiado, um edifício belíssimo recheado de arte clássica, os vários espaços do Círculo de Artes Plásticas, o Centro de Arte Contemporânea (inaugurado o ano passado), a Galeria do Colégio das Artes… Muitas exposições preenchem a Sala da Cidade, o Convento de S. Francisco, e até mesmo espaços de lazer, como o café Liquidâmbar, na praça da República, que nos presenteia sempre com diferentes exposições de talentosos artistas. A Bienal de Arte Contemporânea é um evento que ocupa vários espaços da cidade, criando circuitos artísticos com uma multiplicidade de obras, desde a pintura, instalação, performance, cinema… Além da riqueza artística, permite-nos conhecer espaços que normalmente não são acessíveis ao público, como o Convento de Santa Clara-a-Nova ou as antigas salas do cinema das Galerias Avenida.

– Qual é o valor da arte nestes tempos de maior isolamento?

– Sinto que a arte, em todas as suas formas, nos permite expandir as nossas fronteiras – sinónimo de grande valor, nestes dias de confinamento… Quando criamos, de que forma seja, conseguimos ampliar o campo com que estamos em contacto no dia-a-dia para dar espaço a novas situações, novos projectos… da mesma forma, acaba por ser uma estratégia que nos permite desenvolver a nossa mente, expandindo as suas capacidades de criação além das paredes das nossas casas, permitindo-nos viajar por outros cenários, até mesmo outros universos! Por vezes, este processo mental acaba por nos libertar de pesos que guardamos dentro de nós, e que passam a fluir criativamente através de linhas, formas, cores, que ganham um novo suporte. Assim, esse peso dissolve-se em arte, deixando em seu lugar um suspiro de concretização e leveza.

– Algum tema que considere importante?

– Nestes tempos estranhos em que vivemos, sinto que é pedido ao ser humano que trabalhe a sua capacidade de adaptação e resiliência. Neste contexto, vejo a arte como catalisadora de um contacto mais directo com o Eu, permitindo experiências de criação que podem ser, inclusivamente, interpretadas num contexto de meditação. Ao criar, quando nos entregamos inteiramente a um projecto, desenvolvemos a nossa capacidade de atenção plena – prática de mindfulness. Fechados em casa, com as várias secções da nossa vida misturadas no mesmo espaço / tempo, é essencial trabalharmos essa dualidade, procurando que a consciência se permita a estar num só sítio, um aqui e agora pleno. Para aqueles que pensam não ter vocação para as artes plásticas, relembro que tudo aquilo que produzimos com as nossas mãos pode ser considerado um acto de criação, desde a escrita à jardinagem. Desde que estejamos totalmente entregues à criação, oferecemos à nossa mente um espaço e um tempo para respirar!

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