Estão convidados para um “banho de bosque” no coração da cidade

As olaias são um sinal fantástico de Primavera, diz Cristina Castel-Branco. É rodeada pelas deliciosas árvores com milhares de flores arroxeadas e muitas outras espécies, que a arquitecta paisagista e presidente da Fundação Inês de Castro começa a visita guiada, que inaugura um momento adiado há um ano, por causa da pandemia: a Primavera nas Lágrimas.

Há 15 anos que a Quinta das Lágrimas está a restaurar a sua mata secular, esquecida e deixada a si própria desde o século XIX, que fica um pouco acima dos conhecidos Jardins, de que já aqui falámos. Mas o convite de Castel-Branco vai além da mera contemplação. O convite é o de experimentar o shinrin’yoku, um banho de bosque que se traduz por deixarmo-nos envolver pela atmosfera da floresta, absorvendo todos os seus sons, cores, odores e texturas. Todos sabemos que entrar na Natureza é bem estar, é um relaxamento grande mas não é um encosto: temos de estar atentos. E essa atenção é que eu venho aqui hoje chamar, a atenção à harmonia, ao que se desprende e que é a Natureza, explica a anfitriã.

Antes de iniciar o percurso, Cristina Castel-Branco fala-nos de Qing Li, o professor da Nippon Medical School, em Tóquio, vice-presidente da International Society of Nature and Forest Medicine e presidente da Sociedade Japonesa de Medicina Florestal, um dos maiores especialistas mundiais de shinrin-yoku. A também professora de História de Arte de Jardins e Material Vegetal, apaixonada pela cultura nipónica, diz que o trabalho de Li tem a ver com tudo aquilo que se pode retirar da floresta como possibilidade de cura. Coisas que podemos descobrir na obra Shinrin-Yoku A Arte Japonesa da Terapia da Floresta – Como as árvores nos ajudam a ser mais saudáveis e felizes (Ed. Nascente), um guia prático sobre a terapia de estar rodeado de árvores ou plantas, mesmo em casa, para reduzir a pressão arterial, diminuir o stress, aumentar a energia, favorecer o sistema imunológico e até perder peso excessivo.

Aceitámos o desafio e seguimos mata acima, em silêncio, em busca desse pilar da cultura japonesa, cujos efeitos transformadores hoje são reconhecidos por todo o mundo. 

Aquele abraço

O percurso começa na entrada dos Jardins da Quinta das Lágrimas, na Rua José Vilarinho Raposo. Propositadamente selvagem, passa por dois patamares mais arranjados com oliveiras centenárias. A fundação acredita que a mata terá sido desenhada no século XIX, altura em que houve um aproveitamento de socalcos já do século XVI, que permitiram ter o olival e ainda hoje se produzem favas e nabiças, por exemplo. Lado a lado, coabitam colossais árvores exóticas que, apesar da dimensão, são bem mais jovens. Terão sido plantadas numa altura em que as pessoas coleccionavam árvores e os senhores da Quinta teriam uma relação forte com o Jardim Botânico e trocavam plantas. 

É-nos sugerido abraçar uma árvore. Mais à frente, um pequeno miradouro oferece-nos um estalo de beleza ao avistar a imponente acrópole de Coimbra, enquadrada entre dois cédanos do Líbano. Estamos no centro de Coimbra e conseguimos obter uma sensação de Natureza que é acima do que é normal dentro de uma cidade. Castel-Branco explica que tentaram que nada fosse artificial, por isso alguns caminhos não estão tratados.

O som do vento

Depende das espécies, mas o som do vento a bater nos cedros gigantes, que encontraram aqui um sítio notável para crescer, é arrebatador. Quando era miúda eu gostava de ser árvore, confidencia Cristina Castel-Branco. Lembro-me de ter esta noção clara, a sensação de que as árvores tinham uma capacidade de estar sobre este planeta muito mais equilibrada do que a nossa. São seres vivos, são fantásticas e em sítios como este podemos lembrar-nos que elas estão em relação directa umas com as outras. Que espécie de árvore é que eu ou vocês queriam ser? Ora, cada um de nós pode pensar nisso agora. 

E pensamos, enquanto seguimos caminho para a mata de loureiros e chamada Mata Velha, antes inacessível e onde foi descoberta uma abertura em grutas devido ao terreno calcário. A arquitecta diz que essas grutas no subsolo recolhem a água que fica contida em reservatórios naturais e vão alimentando o bosque, durante todo o ano. Há mesmo uma terceira fonte (além das célebres Fonte das Lágrimas e Fonte dos Amores), que é uma boca de água no meio da floresta, que só surge depois de uma grande chuvada. 

A inspiração natural

É sabido que antes de fazer poesia ou pintura os monges budistas sentam-se em frente ao jardim e a apreciação da Natureza permite-lhes ter uma maior capacidade de inspiração. Cristina Castel-Branco acredita que a própria Rainha Santa Isabel de Aragão, que mandou fazer um canal para levar a água de duas nascentes para o Convento de Santa Clara – segundo o documento mais antigo que refere a propriedade deste lugar, de 1326 -, era ecologista e acreditava no poder da contemplação da paisagem. Na Idade Média vivia-se numa relação com a Natureza perfeitamente sustentável. Ela vem com 11 anos para cá, tem uma infância especialmente privilegiada porque vivia com um pai e um avô inteligentíssimo, que a adoravam, portanto foi uma miúda acompanhada e certamente instruída intensissimamente, refere.

O assunto leva-nos a outro tema que a pedagoga defende: a aposta na educação, sobretudo primária. Incentivar as crianças a subir às árvores, criar uma disciplina de Paisagem. Quando os alunos me chegam ao mestrado e licenciatura, é gente que teve paisagem em casa e eu na ficha, pergunto: Qual é a primeira paisagem de que se lembra e com quem é que estava? Esta relação da paisagem original determina a nossa vida, por inteiro.

A terapia

Há investigadores que fazem o teste: à entrada de um bosque medem o nível de toxinas de uma série de coisas aos visitantes, através da saliva. Passados uns 20 minutos, à saída do bosque, medem de novo e é absolutamente claro que o nível de toxinas reduz-se, é um facto, exemplifica Cristina Castel-Branco. Desde que as pessoas vão em silêncio e não vão a pensar noutras coisas, estejam atentas, ligadas e focadas, isso permite-lhes despejarem os problemas estando atentas aos musgos, aos pássaros, ao vento e às árvores e relaxarem. 

No Japão, as florestas e montanhas são sagradas. E essa sacralização da Natureza está muito próxima do respeito pela Natureza que estamos a pedir neste momento que a população mundial tenha, refere a autora de Luis Frois: First Western Accounts of Japan’s Gardens, Cities and Landscapes. O livro revisita o trabalho daquele que foi um dos primeiros jesuítas a chegar ao Japão. Das 4 mil páginas que deixou escritas, Cristina Castel-Branco mergulhou à procura de tudo sobre jardins, cidades e paisagens e foi ao Japão encontrar 19 dos 23 jardins mencionados, que ainda existem. 

Aí se fala da relação vital que tínhamos com os japoneses no início (…), nações que têm parecências. Ao lado têm uma grande potência, eles a China e nós a Espanha, países ligados ao mar – somos o segundo que mais come peixe no mundo, a seguir a eles -, uma certa humildade, um sentido profundo da dignidade e da honra. Encontraram-se ali duas culturas que se estimaram tanto que até trocaram receitas de cozinha. Está tudo dito, não é?

Todos os anos, na Primavera, milhares deslocam-se em massa para assistir ao Sakura, o espectáculo natural das cerejeiras em flor, que inclui uma rede de eventos e tradições, inclusive os hanami – piqueniques de contemplação das cerejeiras. Quem sabe um dia Portugal começa a assinalar de forma assim, apaixonada, o seu património natural, indaga Cristina Castel-Branco. Até lá, podemos fazê-lo nós e começar hoje, Dia Mundial da Árvore, em qualquer zona verde do concelho. Os Jardins da Quinta das Lágrimas estão abertos todos os dias, das 10h às 19h, e a entrada custa 2,5€ (com descontos). 

Texto e fotos: Filipa Queiroz

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