Já temos um livro com a pergunta que se impõe: “Onde está o meu Abraço?”

Numa altura em que todos sentimos falta dele, o escritor António Vilhena transformou-o em livro: Onde Está o Meu Abraço? (Ed. Caracol, 2021). É um texto com dois ou três anos e é uma pergunta que os pais normalmente fazem quando se encontram com os filhos, quando os vão buscar à escola ou não os vêem durante algum tempo, por exemplo, conta o autor. Então achei que podia escrever um texto afectivo, empático e esperançoso que com a pandemia começou a fazer mais sentido no contexto das nossas vidas, e eu tentei de alguma maneira adequá-lo, torná-lo mais universal. 

António Vilhena é psicoterapeuta e curador da Casa da Escrita, equipamento da Câmara Municipal de Coimbra. Esta é a 14ª obra publicada, que tem a mais valia de ser bilingue (português/inglês) e contar com as ilustrações de Márcia Santos, com quem já tivemos a oportunidade de conversar. Foi uma sequência de encontros, de lhe passar à porta no Quebra Costas, em que fui conhecendo o trabalho sem ela perceber, gostando do traço dela e pensando como é que ele poderia casar com este texto, ou vice-versa, porque é uma lufada de ar fresco na ilustração. Das ilustrações geralmente avulsas, a criadora e proprietária da loja Ilustração ao Vento recebeu assim, em plena pandemia, a encomenda de uma história para contar.  

Márcia Santos conta que António passava em frente ao atelier diariamente. Certo dia, entrou e disse-me que um dia gostaria de fazer um livro comigo. Fiquei radiante. Como adoro desafios disse-lhe: Quando quiser!. A promessa foi cumprida, Márcia começou a fazer as ilustrações para Onde Está o Meu Abraço? em Outubro de 2020. Foi maravilhoso, porque o turismo parou e como eu vivo muito dele, e do contacto com as pessoas, foi como se uma corda me puxasse. A ilustradora admite que tem sido duro, está a criar ilustrações para quando o estúdio reabrir e algumas encomendas mas outros projectos, na conjuntura em que estamos, complicou-se. A cultura perdeu muito apoio, afirma.

O livro Onde Está o Meu Abraço? tem uma carinhosa página no Facebook, com fotografias e muitas mensagens de leitores que já o receberam nas suas casas. E não meto lá tudo, muita gente me escreve em privado também, as pessoas deram-se ao trabalho de querer tornar públicos os afectos e os abraços, diz António Vilhena. Estou muito feliz, acho que o livro vai ter visibilidade agora com o levantar do confinamento e a abertura das escolas, porque é afectivo e do ponto de vista gráfico muito bem conseguido, a todos os níveis. 

O processo de trabalho do escritor já é habitualmente solitário ou de auto-confinamento, mas será que desta vez foi diferente? Não, a única coisa que estranho é não ter a bica, é sair à rua e apanhar ar, de fazer esse intervalo social 'de vento nos cabelos', para usar a expressão da Ilustração ao Vento, da Márcia. Esse intervalo faz todo o sentido e dá muito sentido também a quem está confinado, especialmente a produzir, a criar.

A Psicologia também está, inevitavelmente, bem presente. Estamos a viver num processo que é assim: aprendemos durante demasiado tempo a ficar fechado, a ter um ciclo de amigos ou de família muito reduzido; neste momento, começam a sair à rua e a ficar com medo, que é o primeiro passo para desenvolver fobias, ataques de pânico, agorafobias. As pessoas agora não só têm de desconfinar como têm de se dessensiblizar lentamente para o efeito do encontro com os outros, porque os outros não são os outros mas é o vírus que supostamente habita nos outros e que funciona como uma ameaça. Há aqui um processo de saúde mental que vai estar muito presente e os abraços, de alguma maneira, podem ajudar. 

Onde está o Meu Abraço? - livro para adultos disfarçado de livro para crianças, segundo autor - está em pré-venda, através do email caracol.edicoes@gmail.com, sem portes de envio e com direito a autógrafo. Custa 12€. António Vilhena diz que a obra vai ficar disponível nas livrarias e também online, inclusive na gigante Amazon, em versão audio. Há uma empresa que se interessou e que está a começar a trabalhar nisso, está a criar um perfil na plataforma, conta, seguro de que a obra é um pequeno contributo para pensarmos como o amor e a segurança alimentam a esperança de que todos precisamos, principalmente, as crianças. As palavras que o António nos envia são muito calorosas, são como um abraço confortante para a nossa alma em tempos de afastamento físico, assegura Márcia Santos. O escritor vai lançar mais obras em breve. A 15.ª, de crónicas, já tem nome: Um Amor Que nos Queira (2021).

Texto: Filipa Queiroz
Fotos: Márcia Santos

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