COIMBRA NO MUNDO | Bergen, Noruega

Decorria o ano de 2012 e Portugal continuava  a lutar contra uma crise económica que nos afetava a ambos.

Namorávamos há três anos e queríamos muito casar e constituir família, mas sendo eu arquitecto e a Susana engenheira civil, percebemos rapidamente que o nosso futuro teria de ser além fronteiras. Sentámo-nos e perguntámos um ao outro: “Para onde vamos?”. Ela respondeu América do Sul e eu Norte da Europa (não podia ser mais oposto!). No entanto, a vida aconteceu e surgiu a oportunidade da Susana vir trabalhar para uma empresa em Bergen, na Noruega, e resolvemos agarrar a oportunidade. Não tínhamos nada a perder. A Susana veio primeiro e, depois de estar já cá instalada, vim eu. Sem nada, mas com toda a certeza não iria baixar os braços e sim correr atrás de um futuro melhor. Com ela ao meu lado. Como tantos que se aventuram a emigrar para países em que a língua é um obstáculo (durante os primeiros meses, norueguês ou chinês poderiam bem ser a mesma língua), também eu tive alguma dificuldade em conseguir um trabalho, na minha área, onde me sentisse realizado. Mas quando se quer muito uma coisa, consegue-se! Passados seis meses pedi a Susana em casamento (o plano deu certo!) e hoje, passados oito anos, já não somos dois, somos quatro!

O que mais valorizamos na cultura norueguesa é a flexibilidade e a qualidade de vida que isso nos oferece.

Num dia de semana normal levamos os miúdos à escola às 7h30m, começamos a trabalhar às 8h, almoçamos na cantina às 11h30m, saímos e vamos buscar os miúdos às 16h (há muito respeito pelo horário de trabalho e pela vida familiar). E, é precisamente neste ponto do dia que ganhamos a qualidade de vida. Aqui o dia depois do trabalho está longe de acabar, ainda há uma imensidão de oportunidades e coisas para fazer com os miúdos ou para um programa “a solo” e ter um tempo para nós. Bergen é uma cidade super pitoresca, rodeada de natureza por um lado e com a vista aberta para um fjord no outro lado. Conhecida como a cidade das sete montanhas, estamos sempre a um passo de fazer uma caminhada de ‘hiking’ em qualquer uma das montanhas, hábito que hoje adoramos e que rapidamente adquirimos. Subir uma montanha com amigos e, na chegada ao topo, comer um chocolate com café quente (trazido de casa numa garrafa térmica), é sinónimo de uma ida com os amigos a uma esplanada em Coimbra. Para além da paz de espírito que nos traz, é também uma atividade bastante social, muito característica da cultura norueguesa.

Mas Bergen também tem um nome mais “underground” – o penico da Europa.

Chove em média 200 dias por ano, e é aqui que as coisas se podem tornar mais difíceis na adaptação. Contudo, depois de alguns anos a viver aqui aprendemos a desvalorizar o boletim meteorológico e fazer uso do modo de vida de um verdadeiro Bergense: ‘Det finnes ikke darlig ver, bare darlig klaer’ que significa que não existe mau tempo, que existem apenas roupas inapropriadas. A chuva não é um impedimento para sairmos de casa. Matamos as saudades de um sol quente quando vamos a Portugal, não há sol como o nosso.

Em Coimbra não pode faltar o cafézinho, depois de almoço, na esplanada do São José, um croissant com ovo na Vénus, ou mesmo o simples galão e torrada.

À noite jantar uma francesinha no Atenas seguido de uma mini com os amigos no Tropical. Vamos imensas vezes com os miúdos ao Parque Verde, para gastarem energia. Um sítio que ao longo dos anos nos parte o coração por estar completamente abandonado. É dos sítios de lazer de Coimbra com maior potencial desperdiçado. Em épocas normais (entenda-se, pré pandemia Covid 19) vamos a Coimbra pelo menos duas vezes por ano e sinto que a cidade investe muito no sector da saúde mas está, infelizmente, estagnada nos outros ramos. Ainda que (felizmente) vejamos cada vez mais uma revitalização da alta de Coimbra, é muito triste ir à Baixa e sentir que andamos numa cidade fantasma, com o comércio tradicional todo a fechar ao longo dos anos e nada, ou muito pouco, é desenvolvido para atrair as pessoas para os locais que fazem parte da história rica da nossa cidade.

Infelizmente Portugal ainda não nos oferece condições de trabalho que nos permitam pensar (ou sequer sonhar) em regressar.

Não conseguiríamos viver com o mínimo conforto e proporcionar aos nossos filhos o que os nossos pais nos proporcionaram a nós. Mas, ainda que aconteça estarmos toda a vida longe da nossa cidade, iremos sempre revivê-la (agora a quatro) como a Coimbra dos amores e deixá-la como a Coimbra da saudade!

Susana Otero e Rui Roque Abreu

* Os autores escrevem segundo o Acordo Ortográfico.

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