Frida e Chavela vão contar-nos uma Estória de Humanidade

Os sorrisos não enganam. Foi super divertido!, diz Élia Ramalho. E fácil! Aliás, agora corre melhor nos ensaios do que quando estávamos a tentar imitar para a fotografia, completa Vânia Couto. Comentávamos, por vídeo-conferência, a fotografia de apresentação do espectáculo Frida e Chavela – Uma Estória de Humanidade, em que as duas multifacetadas artistas de Coimbra imitam o momento de cumplicidade entre Frida Kahlo e Chavela Vargas, captado pela fotógrafa e activista Tina Modotti, em 1945.

Vânia Couto é instrumentista, compositora e cantora, fundou projectos educativos ligados à música e ao teatro para crianças e integra os projectos Macadame, Pensão Flor, Branta, Catrapum Catrapeia e Mil Folhas. Élia Ramalho tem formação em artes plásticas e design, uma enorme paixão pela pedagogia e várias obras publicadas. Estão a poucos dias de estrear online, a 10 de Março, a peça que conceberam juntas e que integra a XXIII Semana Cultural da Universidade de Coimbra (UC). 

Sob o tema Humanidade, o enredo é o de um hipotético encontro post mortem entre Frida Kahlo e Chavela Vargas, mulheres que no seu tempo lutaram pelas suas liberdades, a sexual e a artística, e pela sua independência. Uma vivência voltada para um exercício de criatividade, tendo como pano de fundo as fragilidades da Mulher na Humanidade e pela Humanidade, gravada no Teatro da Cerca de São Bernardo e transmitida quarta-feira, às 17h30.

Conversámos com as autoras sobre o trabalho que, além de muito provavelmente pioneiro sobre as duas ícones da cultura mundial e mexicana em particular, é também catarse e desafio para ambas, em tempos de pandemia. Do outro lado do ecrã, Élia Ramalho e Vânia Couto estavam no Salão da Frida, espaço cultural gerido pela primeira na Rua de Montarroio, em Coimbra, o sítio onde também se conheceram a propósito de um concerto de Vânia que, em boa hora, decidiu cantar um dos temas favoritos: Llorona, de Chavela Vargas.

Sob o tema Humanidade, o enredo é o de um hipotético encontro post mortem entre Frida Kahlo e Chavela Vargas, mulheres que no seu tempo lutaram pelas suas liberdades, a sexual e a artística, e pela sua independência. Uma vivência voltada para um exercício de criatividade, tendo como pano de fundo as fragilidades da Mulher na Humanidade e pela Humanidade, gravada no Teatro da Cerca de São Bernardo e transmitida quarta-feira, às 17h30.

Conversámos com as autoras sobre o trabalho que, além de muito provavelmente pioneiro sobre as duas ícones da cultura mundial e mexicana em particular, é também catarse e desafio para ambas, em tempos de pandemia. Do outro lado do ecrã, Élia Ramalho e Vânia Couto estavam no Salão da Frida, espaço cultural gerido pela primeira na Rua de Montarroio, em Coimbra, o sítio onde também se conheceram a propósito de um concerto de Vânia que, em boa hora, decidiu cantar um dos temas favoritos: Llorona, de Chavela Vargas.

Quando entrei senti uma energia maravilhosa, recordou Vânia Couto. Era Novembro de 2020 e já não tocava ao vivo há algum tempo. Não estava muita gente, por força das circunstâncias, mas estava a suficiente. Acho que foi um momento intenso quando toquei a Llorona, as pessoas gostaram muito, eu tenho um lado divertido mas nesse dia decidi pegar no meu lado mais íntimo e acho que isso teve algum efeito na Élia, continuou. A artista plástica foi categórica: paixão à primeira escuta. A Vânia tem um enorme poder de transformação, não muda só de repertório, muda de pessoa quando canta, não é uma coisa muito comum de ver. Vânia, por sua vez, diz que Élia põe a própria arte na de outros artistas e foi a sintonia dessa intensidade comum com que cada uma produz a sua obra que deu azo ao que veio a seguir.

Da brincadeira de se chamarem entre si Frida e Chavela, aconteceu a ideia de fazer uma peça sobre as ídolas. A Semana Cultural apresentou-se como uma boa oportunidade e Élia não demorou a inspirar-se para escrever o texto. Qual Alberto Caeiro, que numa noite, na sua escrivaninha, teria feito 40 poemas!, atirou Vânia.

Com sátira e humor, a narrativa coloca-nos numa conferência de Frida Kahlo, como representante da cultura mexicana, onde Chavela Vargas aparece e manifesta indignação por não ter sido convidada. Desenrola-se um diálogo com tom interventivo, abordando tópicos como a igualdade de género, a inclusão e a homossexualidade. Tantos problemas que ainda hoje são reais e sobre os quais elas deram um passinho naquele tempo, nota Vânia Couto. Foi um pouco com o objectivo de picar o público, picar a humanidade sobre aquilo que temos feito, se bem que a memória tem estado muito fraca nos últimos tempos, no que respeita a questões humanas e políticas.

Frida Kahlo deixou a sua marca na História não só pela genialidade da sua pintura como pela vida pessoal, com tanto de rebeldia como de mártir, que acabou por transformá-la num ícone mundial e das comunidades feminista e LGBT em particular. Aos 6 anos, a poliomielite fez com que uma perna desenvolvesse de forma diferente da outra e aos 18, um grave acidente deixou-lhe enormes sequelas físicas e dores crónicas mas deu-lhe uma coisa boa: fê-la começar a pintar. Morreu com 47 anos.

Já Chavela Vargas, viveu até aos 93. Nascida na Costa Rica, fugiu para o México ainda jovem e integrou a tradição musical ranchera do país onde ousadamente usava roupa masculina, bebia tequila como os homens e teve inúmeras relações amorosas com mulheres, inclusive Kahlo, mas não se assumiu publicamente como lésbica até aos 81 anos. Cantora excepcional, encantou o mundo com a interpretação de temas como o célebre Llorona mas debateu-se sempre com a própria identidade irreverente. Depois de uma fase marcada pelo alcoolismo, voltou à ribalta pela mão de Almodóvar, que a eternizou nas bandas sonoras dos seus filmes. 

 

Cumplicidade seria uma boa palavra para definir a base de Frida e Chavela – Uma Estória de Humanidade, que inclui momentos musicais e sonoplastia da autoria de Vânia Couto, que diz que o bom que veio com isto foi respirar ainda mais aquela que é umas das suas grandes referências como cantora. Élia Ramalho, autora do livro Olhar, experimentar e criar com Frida Khalo (Ed. Frequência Mágica, 2010), diz que tem sido uma nova e inesperada catarse, perceber melhor a história da ligação entre Kahlo e Vargas. Parece que vamos ser um pouco pioneiras em pegar nela e transformá-la noutra coisa; acho que cada vez que criamos ou fazemos algo em arte encontramo-nos com a obra em qualquer momento e isso faz-nos entender melhor a nossa identidade e quem somos realmente. Esta peça pode ter vindo a ajudar-me a entender-me, conhecer-me e resolver-me ainda mais.

Dado o actual confinamento, toda a programação da Semana Cultural da UC é gravada e transmitida online. Vânia Couto diz que há muitas desvantagens mas também vantagens na nova forma de fazer cultura, em plena pandemia de Covid-19. Não podemos estar com as pessoas, que para nós é essencial, mas podemos chegar até elas de outras maneiras e perceber como é que o vídeo entra neste mundo artístico e é o espectáculo em si, não serve apenas para comunicá-lo.

Élia Ramalho também faz por ver o copo meio cheio. Gosto sempre de tirar proveito das coisas para algo de bom e positivo por isso, claro que é horrível, são coisas inusitadas que nunca imaginei que pudessem vir a acontecer, mas neste caso como somos estreantes no teatro também nos vai dar mais tempo para nos adaptarmos à ideia desta nova linguagem, de ligação com o palco e servir de laboratório porque depois acredito que a peça vai circular e, aí sim, vai haver contacto com o público, explica. Questões económicas à parte, outra pesada desvantagem que a artista plástica e a cantora e compositora encontram na nova realidade que vivemos é a impossibilidade de trabalhar presencialmente com o público infantil.

Tive propostas de instituições da cidade mas não consegui de todo, não me adaptei, por isso dói-me, faz-me muita falta, admite Élia Ramalho. Vânia Couto mantém aulas de música online e deu continuidade a alguma da actividade da associação Catrapum Catrapeia, mas garante que não consegue imaginar a vida dela sem o contacto com os mais novos. Para mim são uma fonte de vida e é-me difícil fazê-lo não estando com eles.

Frida e Chavela – Uma Estória de Humanidade terá cerca de 45 minutos de duração e, como de resto Vânia e Élia gostam de pensar que é todo o seu trabalho, não é pensado para crianças nem para adultos. A indicação é para maiores de 6 anos.

Deixa-nos a tua opinião!

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.