Esta start up está a pôr Coimbra no mapa da compostagem e podemos todos participar

Se depender da Muda Tuga, os dias sem poder compostar os resíduos orgânicos em Coimbra estão contados.

É possível que algumas pessoas com mais consciência ambiental, um quintal ou terraço e mais poder de compra, já tenham o seu compostor doméstico e transformem os restos de vegetais em fertilizante, através deste processo 100% natural. Mas o grupo acredita que essas pessoas não têm de ser a excepção ou privilegiadas, por isso não só já instalou dois compostores comunitários, abertos a toda a população da cidade, como está a trabalhar no sentido de alcançar o que o próprio nome indica: a mudança, a nível global.

Recuemos ao início e ao discurso de Luana Garcia, em jeito de Martin Luther King. Eu tenho um sonho, chuta. Eu tenho o sonho que um dia toda a lista de casamento ou enxoval vai incluir um compostor doméstico, porque ele vai ser tão essencial como um frigorífico ou uma máquina de lavar roupa.

Luana trabalha na área da compostagem doméstica e educação em São Paulo, no Brasil, e é consultora e co-fundadora da start up Muda Tuga, sediada em Coimbra. É aqui que ela, a italo-brasileira Giulia Braghieri, o português José Pedro Santos e a luso-brasileira Carolina Bianchi, acreditam que consciencializando, incentivando as autarquias e motivando a comunidade da maneira certa, podemos garantir que todos o bio-resíduos tenham o destino correcto e o sonho de Luana se realize.

A compostagem é um conjunto de técnicas que servem para estimular a decomposição de materiais orgânicos com a finalidade de obter, no menor tempo possível, um material estável, rico em substâncias húmicas e nutrientes  minerais. É a forma de, em vez de deitar fora, neste país onde, ao contrário de tantos outros, 60% dos resíduos urbanos sólidos ainda têm como destino os aterros, se pode dar uma nova vida ao desperdício que fazemos diariamente, como cascas de frutas, de legumes e restos de alimentos. O adubo resultante pode servir para, por exemplo, criar uma horta.

A Muda Tuga ganhou forma graças ao StartUP Voucher 2019-2022 do IAPMEI – Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas e à Inovação, em Setembro de 2020. A medida da Estratégia Nacional para o Empreendedorismo, dinamiza o desenvolvimento de projectos empresariais em fase de ideia, promovidos por jovens com idade entre os 18 e os 35 anos, através de diversos instrumentos de apoio  disponibilizados ao longo de 1 ano de preparação do projecto empresarial.

Carolina Bianchi, bióloga a viver em Coimbra há 4 anos, conta que a vontade de desenvolver um projecto ambiental com Giulia Braghieri, engenheira alimentar, já tinha algum tempo. Tivemos várias ideias ao longo dos anos até que eu disse que já não aguentava a questão do lixo em Portugal, que me incomoda imenso, confessa. Não sei lidar com Coimbra, as pessoas não fazem reciclagem, vivi em várias casas e nenhuma tinha um sistema de gestão interno, as pessoas não sabiam lidar com o lixo; quando vamos até ao contentar do indiferenciado é aquele caos, no ecoponto até roupa já vi, então decidimos ir por aí mas delimitar o projecto à compostagem.

O timing era ideal. Há 3 anos, o Parlamento Europeu aprovou regras para aumentar os níveis a reciclagem na União Europeia e reduzir a deposição em aterros no espaço comunitário a médio prazo. Os Estados-membros têm de instituir a recolha selectiva de têxteis e resíduos perigosos domésticos até 2025, assegurar que os biorresíduos sejam objecto de recolha selectiva ou reciclados na fonte, por exemplo, compostagem doméstica, até ao final de 2023. Em linha com a directiva europeia, a Muda Tuga instalou os primeiros dois compostores comunitários em Coimbra, em Dezembro de 2020 .

O acordo foi feito com dois espaços privados, por não carecerem de autorização municipal, nomeadamente as Repúblicas Rápo Táxo, na Rua Castro Matoso, e Solar dos Kapängas, na Rua da Mãozinha, nos Olivais. Os moradores não só cederam o espaço no jardim como receberam formação, participam activamente no processo e mantém a porta aberta para quem quiser compostar os seus resíduos. Quem quiser, só tem de se inscrever no site e fazer a sessão de acolhimento onde é explicado o processo, a utilização e responsabilidades de cada um.

As sessões de acolhimento são muito importantes para diminuir a chance de alguma coisa correr mal, porque quem nunca fez compostagem acaba por cometer alguns erros, diz Carolina Bianchi. Quais? Atirar os resíduos orgânicos para dentro do compostor como se fosse um caixote do lixo, por exemplo, ou não colocar matéria seca suficiente (folhas secas ou serradura), que faz com que o compostor cheire mal e atraia insectos indesejados.

Segundo as responsáveis, há desde jovens de 18 anos até pessoas na casa dos 50 a participar. Aqui no Brasil, a faixa predominante é dos 25 aos 30 anos, mas também há adolescentes e reformados, vovô e vovó adoram compostar!, atira Luana Garcia. 

A opção de compostar de forma comunitária, num equipamento usado por várias pessoas usarem, ou em casa de forma individual, é de cada um e implica sempre empenho. Estamos a fazer um protótipo de um compostor doméstico super bonito, que um dia vamos comercializar mas pensámos que tínhamos de testar o comunitário agora, conta Carolina Bianchi, explicando que o objectivo da Muda Tuga é que o dinheiro ou a falta de informação ou de um compostor comunitário não sejam impedimento para quem quer compostar. 

A start up partilha informação  gratuitamente no Facebook e Instagram, onde até ensina a fazer compostores, testando e preparando o caminho para, idealmente, se tornar intermediária entre governantes e população, e trabalhar no sentido de alcançar um objectivo, que de resto já acontece em cidades como Lisboa e o Porto: Nós fornecermos os compostores, a Câmara pagar e a comunidade colaborar. Achamos que esse é o modelo mais justo, porque já se paga taxa de lixo e porque um compostor é um investimento, sobretudo se for feito de forma consciente. Carolina Bianchi refere-se a uma produção sustentável, numa economia circular.

De acordo com a bióloga, não existe nenhuma empresa em Portugal que faça compostores domésticos, por exemplo. O mais vendido é importado da Austrália e também há da Alemanha ou França, o que representa uma enorme pegada ecológica. Não existe nenhuma cá que crie um doméstico e interior, que seja feito totalmente com base numa economia circular, com base na realidade do nosso país, explica Carolina Bianchi.

Antes de querermos vender compostores, queremos ensinar as pessoas a fazer um de baixo custo, a entender a prática, para ela depois pensar que o compostor é incrível e aí sim, sentir confiança para poupar 10€ por mês e ao fim de um ano comprar um compostor de 100€, porque já sabe que vale a pena, completa Luana Garcia. 

Neste momento, a Muda Tuga está a fazer uma pesquisa de mercado e para incentivar as pessoas a participar estão a sortear um compostor doméstico. Está em vias de desenvolver parcerias com várias entidade e entretanto vai estruturando a empresa e o raio de acção, não é apenas a nível local como também internacional, mantendo simultaneamente a actividade pro bono.

O registo na página da Muda Tuga dá acesso a um guia para fazer o próprio compostor e o Manual do Tuguinha, para os mais novos. Carolina Bianchi afirma que a start up é a única do mundo a trabalhar com quatro métodos de compostagem e não se cansa de repetir o quão importante é construir comunidade e conversar com as pessoas, para que o assunto deixe de ser chato. Estamos a tentar conectar as pessoas e, quando a empresa abrir, trabalhar muito com educação digital e trazer a compostagem para uma pauta quotidiana, para não ser um assunto só de ambientalistas, remata. A bióloga lembra que, tal como acontece com o compostor comunitário, este é um trabalho conjunto mas os ganhos também o são. De uma forma geral, as pessoas não querem responsabilizar-se, acham que o Governo tem de pagar e as Câmaras têm de resolver; do outro lado, as Câmaras reclamam que a população não tem consciência e nós ficamos um pouco nesse meio, conclui Luana, que confessa que tem outro sonho: Que as pessoas comecem a ter vergonha por não compostar. Parece que já estivemos mais longe. A próxima oficina online gratuita da Muda Tuga, sobre a compostagem termofílica, é no dia 19 de Março, às 20h.

O registo na página da Muda Tuga dá acesso a um guia para fazer o próprio compostor e o Manual do Tuguinha, para os mais novos. Carolina Bianchi afirma que a start up é a única do mundo a trabalhar com quatro métodos de compostagem e não se cansa de repetir o quão importante é construir comunidade e conversar com as pessoas, para que o assunto deixe de ser chato. Estamos a tentar conectar as pessoas e, quando a empresa abrir, trabalhar muito com educação digital e trazer a compostagem para uma pauta quotidiana, para não ser um assunto só de ambientalistas, remata. A bióloga lembra que, tal como acontece com o compostor comunitário, este é um trabalho conjunto mas os ganhos também o são. De uma forma geral, as pessoas não querem responsabilizar-se, acham que o Governo tem de pagar e as Câmaras têm de resolver; do outro lado, as Câmaras reclamam que a população não tem consciência e nós ficamos um pouco nesse meio, conclui Luana, que confessa que tem outro sonho: Que as pessoas comecem a ter vergonha por não compostar. Parece que já estivemos mais longe. A próxima oficina online gratuita da Muda Tuga, sobre a compostagem termofílica, é no dia 19 de Março, às 20h.

Texto: Filipa Queiroz
Fotos: Muda Tuga, herb007/ Pixabay, Julietta Watson/Unsplash 

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