ARTE AO DOMICÍLIO | Élia Ramalho, Artista plástica e criadora do Salão da Frida

A artista plástica Gabriela Torres convida à reflexão sobre a relevância da arte em tempos isolamento através de uma série de entrevistas a artistas plásticos, fotógrafos, ilustradores, entre outros que ao mesmo tempo apresenta, abordados sob diversas perspectivas consoante a sua natureza mas sempre com a temática da figura humana como fio condutor.

 

Fale-me um pouco sobre o seu percurso artístico e da criação do Salão da Frida.

Comecei por estudar na ARCA - Escola Universitária das Artes em Coimbra. Licenciei-me em Pintura e no 5.º ano, último, participei em diversas bienais e exposições coletivas. Isso permitiu-me  conhecer o meio artístico em Portugal. Sempre utilizei a pintura como um meio de contar histórias, em 2001 existiu a crise das "vacas loucas" e a política agrícola comum era um tema muito comentado, então figurei vários retratos de vacas com pintura realista e algumas caricaturadas com sátiras ao mercado, por exemplo McDonald´s. Quando esta série terminou, comecei a pintar uma série mais abstrato-geométrica, cheia de referências ao poema "Grandes são os desertos", de Álvaro de Campos. A partir daqui, a minha pintura não teve um percurso muito linear. Sempre voltei a Fernando Pessoa para pintar, por exemplo fragmentos do "Desassossego" foram utilizados como ponto de partida para uma série apresentada na Biblioteca Joanina.

A par da Pintura, interessei-me por um projeto educativo que fui desenvolvendo em diversas escolas e me levou a uma linguagem plástica mais caracterizada com a Ilustração. Escrevi e ilustrei histórias para crianças com o objetivo de ensinar coisas sobre a vida e obra de pintores, os primeiros foram precisamente Vincent van Gogh e Frida Kahlo, em 2013. Em 2019, de forma intuitiva, transformei um espaço destinado a atelier num cenário ilustrado sobre a pintura: "O Quarto do Van Gogh"; e, uns meses depois, fiz outra intervenção (pintura mural) sobre Frida Kahlo. Para distinguir melhor os dois espaços, chamei ao atelier: Salão da Frida, em contraponto ao pequeno quarto do pintor. Assim, o Salão da Frida nasceu com o desejo de ser um espaço multidisciplinar, onde as pessoas de qualquer idade entram e sentem-se dentro de uma pintura, onde podem sentar, ler, ouvir música e beber um café.

Qual é a importância da figura humana na sua pintura?

A figura humana, na minha pintura, não é a que desejava. Gostava de me ter debruçado mais sobre a sua representatividade. Utilizo os processos de representação que aprendi na escola, mas percebo que cada vez mais, quando retrato alguém a linguagem que utilizo está sempre muito próxima da ilustração. Para mim, os grandes mestres da pintura são os que trouxeram e trazem a figura humana para problematizar o lugar do homem no mundo. O lugar do corpo do artista na pintura também me interessa muito, daí o primeiro grande interesse por Frida Kahlo, que se tornou uma referência no modo como revolucionou uma parte da pintura do seu tempo e o facto de ter sido uma mulher com diversas fragilidades físicas e emocionais. A forma como o corpo foi retratado contribuiu para sua superação e emancipação. É a figura humana mais presente no meu trabalho, mesmo que a imagem dela não apareça, mas sim os seus objetos e diversas referências à sua vida e obra.

Considera Coimbra uma cidade que valorize as artes plásticas?

Hoje em dia, só posso dizer que sim. Senti, ao longo destes anos em Coimbra, que não estaria a acompanhar nenhum grupo de criação artística, principalmente  desde o desaparecimento material e imaterial da ARCA EUAC. Lamento muito o seu desaparecimento, mas tive sempre contacto com antigos alunos e professores, no entanto reconheço que foi um corte nas Artes em Coimbra e criou um período de vazio. Mas, agora o ensino das Artes renasceu no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra e na Faculdade de Letras, no curso de Estudos Artísticos e no Programa de Doutoramento, que ainda frequento: Materialidades da Literatura. Sinto que surgiram vários novos projectos na cidade que fazem com que a Arte tenha voltado a ter um lugar mais especifico de criação. Claro que ainda há muito para ser feito e a maioria dos artistas precisa de mais apoio que aquele que é dado pelas instituições da cidade. Como sempre, as artes e artistas considerados na margem tendem a ser mais incompreendidos, logo menos apoiados e eu sou dessas artistas.

Qual é o valor da arte nestes tempos de maior isolamento?

A arte tem agora uma maior importância e vai ter no futuro próximo, para permitir uma cura coletiva e vai servir para religar pessoas. A impossibilidade de usufruir de eventos e espaços museológicos pode ser um começo de uma nova fase de valorização sobre o património material e imaterial, acredito e espero que muitas pessoas passem a estar mais atentas aos benefícios da Arte para projetos de educação e projetos de intervenção social. Acredito que neste tempo a arte deve acontecer na rua com as pessoas envolvidas, com todo o tipo de público, do mais ao menos erudito, da criança ao mais idoso. A arte deve, mais do que nunca, tocar pessoas. Existem diversas formas de assistir a eventos online mas para mim isso só veio reforçar a necessidade de ver e assistir ao vivo, principalmente nas artes cénicas e nos museus. É um período de introspecção o que estamos a viver e serve para dar mais importância a muitas coisas, a arte é uma delas.

Algum tema que considere importante ou projeto que queira divulgar?

Aproveito para divulgar  o meu atelier, Salão da Frida. Estou a preparar a reabertura no pós-confinamento, com o espaço mais organizado e com o bar já a funcionar dentro de um horário específico e com diversas atividades programadas. Pretendo que seja um espaço de recolhimento para quem o visita, para que se sinta aconchegado e seguro, num lugar que convida e permite a uma viagem por diversos lugares do mundo através da Frida e Van Gogh e com toda a multiculturalidade e partilha entre as diversas artes: Pintura, Música, Performance, Teatro, Literatura, Poesia... Quando reabrir ainda será sob o conceito "mi casa es tu casa", mas já farei mais publicidade porque todo este ano foi para mim uma reconstrução pessoal e construção de um espaço físico que retrata muito da minha alma e daquilo que tenho para oferecer aos amigos e amigos dos amigos. Sempre irei encarar cada visita ao atelier como a visita de um amigo, porque o mundo só pode sobreviver se o valor da amizade e do amor forem maiores do que quaisquer outros. Será sempre um lugar especial para pessoas especiais, irá reabrir quando esta ferida que estamos a viver começar a sarar e quando mais gente perceber a mudança que precisa acontecer.

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