COIMBRA NO MUNDO | Berlim, Alemanha

Neste momento estou a morar em Berlim, no coração da Europa.

Uma paixão inesperada trouxe-me até à Alemanha e posso dizer que, apesar de nunca ter estado nos meus planos morar aqui, tem sido uma experiência muito interessante e importante na minha vida. Berlim é, atualmente, uma cidade muitíssimo heterogénea em termos culturais, sociais e geracionais. Juntando isto a um passado recente sombrio, feito de guerra e divisões, temos a combinação perfeita para um lugar que nos ensina muito diariamente. Berlim não foi, contudo, a primeira cidade onde vivi fora de Portugal. Madrid foi o meu destino Erasmus na licenciatura e Bologna e Portland acolheram-me durante o Mestrado em Psicologia do Trabalho e das Organizações, realizado em Coimbra. Depois de 3 anos em Lisboa, a insatisfação com o meu percurso profissional e com as condições de trabalho em Portugal, levaram-me, num acaso extremamente feliz, ao Dubai e ao trabalho de hospedeira de bordo. O bichinho de voar ficou e hoje continuo ligada à Aviação, mas desta vez no sector privado. Tendo vivido 4 anos no Dubai, considero o Médio Oriente a minha segunda casa e mantenho sempre a hipótese de regressar. Existem poucas coisas tão mágicas como um pôr do sol no deserto! Olhando para trás, percebo que desde criança sempre tive muita curiosidade em conhecer o mundo e a sede de novas experiências tornavam-me muito insatisfeita e irrequieta. Portanto, penso que era inevitável sair e viver no meio de culturas diferentes.

Berlim tem sido o maior desafio em termos de lugares onde já vivi. O clima e as barreiras linguísticas e culturais foram realmente difíceis para uma amante do Sol e do Mediterrâneo como eu.

Apesar de ser uma cidade muito cosmopolita, onde o Inglês se ouve em cada esquina, uma grande parte do quotidiano continua a ser feito em Alemão. Mas, como em cada obstáculo há sempre uma oportunidade, tive desta forma uma excelente razão para aprender um novo idioma. Acredito que nunca se conhece realmente uma cultura até se aprender a sua língua e assim tem sido com a Alemanha. Os Alemães são um povo muito hospitaleiro e com uma curiosidade genuína por outras culturas. Têm uma cultura intelectual muito rica e uma ética de trabalho irrepreensível. Aqui, reforcei o meu hábito da pontualidade, que já no trabalho como hospedeira de bordo tive de enraizar! Não chega chegar a horas. É preciso planear e estar pelo menos 5 minutos mais cedo! Confesso que hoje em dia, esperar por alguém sem ter uma justificação me deixa louca. Acho que, por exemplo neste ponto, poderíamos melhorar muito. Organização e pontualidade tornam a vida muito mais fácil e relaxada. Os transportes públicos em Berlim, por exemplo, funcionam muito bem e a burocracia, apesar de continuar a existir, como em muitos outros lugares, é muito mais eficiente. Outro aspeto que aprecio aqui é a oferta cultural. Como amante da cultura que sou, tenho acesso a todo o tipo de ofertas em termos de Teatro, Música e Gastronomia a preços bastante acessíveis.

Tendo crescido e estudado em Coimbra, sinto, por exemplo, falta das nossas tradições estudantis e da forma como as preservamos arreigadamente.

Depois de calcorrear o mundo, reconheço mais e mais a importância da preservação da cultura e tradições como forma de coesão cultural e identitária, principalmente num mundo que gira cada vez mais rápido e nos obriga a mudar com ele. Por isso, apesar de inequivocamente existirem muitas coisas nas quais precisamos mudar e inovar urgentemente, aprecio muito o nosso 'slow living' e a valorização do sentido de comunidade, dos afetos e das relações familiares / amigos. Isto é algo que em cidades maiores como Berlim e até Lisboa já se vai perdendo, mas que em Coimbra ainda permanece. Para além disto, como qualquer português, sinto falta da nossa gastronomia. Em cada visita a Coimbra não pode faltar uma ida ao Zé dos Ossos, uma caminhada da Baixa até à Alta e um passeio pelo nosso Choupal. Estes são os 3 mandamentos! Felizmente, no último ano, muito por causa da crise pandémica que vivemos, tive a oportunidade de passar alguns meses em Coimbra e por isso consegui acalmar um pouco as saudades e recarregar as baterias para ir regressando a Berlim.

Acho que ao longos dos últimos 8 anos, desde que saí de Portugal, algumas coisas boas aconteceram e houve alguma evolução em termos da forma como encaramos a corrupção e reivindicamos os nossos direitos, por exemplo.

Ao contrário do que normalmente se ouve, penso que a minha geração tem uma atitude mais consciente, responsável e interventiva quanto à cidadania e ao ambiente. Somos, no geral, mais informados e exigentes quanto aquilo que aceitamos ou não, e acredito que temos mais iniciativa e ganas de fazer acontecer. Dito isto, infelizmente as coisas que mais me exasperam continuam muito presentes, nomeadamente a inércia em tudo o que exige mudança e o politicamente correto que em grande parte dá origem à cultura do favorzinho e da corrupção. Neste sentido, faz falta sermos mais diretos como os Alemães e lidarmos de frente como os nossos problemas nos quais incluo sem dúvida o racismo e o classismo. Seria ótimo também se adotássemos a ambição e o empreendedorismo do Dubai, que conseguem conciliar a tradição e o progresso com sucesso.


Viajar e viver no meio de outras culturas fez-me também valorizar o que de bom temos e o
nosso incrível potencial.


Quando me perguntam que país gostei mais de conhecer, respondo
sempre: Portugal. Temos uma combinação fantástica de clima, cultura, gastronomia e temperamentos amenos e afetuosos que, penso, contribuíram para a nossa longevidade como país e cultura. Outro aspeto que as viagens avivaram em mim foi a consciência ambiental e a necessidade de desenvolvermos outros estilos de vida a curto/médio prazo. Neste contexto, interessei-me pela Permacultura e tenho vindo a enriquecer a minha edução nesta área. A Permacultura é uma abordagem à Agricultura e à vida em comunidade, que privilegia a utilização de métodos não invasivos e sustentáveis e a harmonia simbiótica entre humanos, animais e natureza. Neste momento já existem projetos maravilhosos em Portugal nesta área e, talvez o meu futuro passe por contribuir para esta mudança de paradigma aqui mesmo, neste nosso cantinho. Já dizia a cancão que “Coimbra é uma lição...” Nesta cidade aprendi a ser mundo e talvez possa agora, depois destes anos, contribuir com a minha e dar fôlego à mudança que cada um de nós deve ser.

Tânia Fachada

* A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico.

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