ARTE AO DOMICÍLIO | João Lameiras, Livreiro e especialista em BD

A artista plástica Gabriela Torres convida à reflexão sobre a relevância da arte em tempos isolamento através de uma série de entrevistas a artistas plásticos, fotógrafos, ilustradores, entre outros que ao mesmo tempo apresenta, abordados sob diversas perspectivas consoante a sua natureza mas sempre com a temática da figura humana como fio condutor.

 

– João, conte-me a origem da mítica Dr. Kartoon.

A Livraria Dr. Kartoon foi criada em 1998 pela Fanny Denayer, uma belga a viver em Coimbra, na altura, que além da Kartoon criou também a editora Witloof, que deu a descobrir ao público português o trabalho de Ricardo Ferrand, um autor de Coimbra actualmente a viver em Inglaterra. Em 2006, quando ela decidiu regressar à Bélgica, não quis que a loja fechasse e contactou alguns clientes mais fiéis para tomarem conta do negócio. Um grupo de 4 clientes, que me incluiu a mim e ao Fernando Ferreira como sócios-gerentes decidiu aceitar o desafio e em Dezembro de 2006 deram início à segunda vida da Livraria, que dura até agora.

– Como surgiu a ideia para a criação do evento Coimbra BD?

Na verdade, a ideia do Coimbra BD não partiu de mim mas do próprio pelouro da Cultura da Câmara de Coimbra. A primeira edição, em 2016, foi feita praticamente sem orçamento e recorrendo à prata da casa para não haver custo de transportes de originais e de alojamento de autores. Como a coisa correu bem (surpreendentemente bem, tendo em conta o tempo que tivemos para a preparar) a Câmara decidiu começar a apostar mais no evento, dotando-o de um orçamento modesto, mas que foi crescendo, e eu e o Bruno Caetano passámos a assegurar oficialmente a produção e a programação do evento. O Festival tem vindo a crescer e a internacionalizar-se e em 2020, apesar da ameaça já presente da pandemia conseguimos ainda assim realizar o Coimbra BD, embora sem convidados estrangeiros. Dez dias depois do Festival, o país entrou em confinamento e o Coimbra BD acabou por ser o último Festival de BD realizado em Portugal em 2020. 

– Quais são os maiores desafios que a banda desenhada portuguesa enfrenta?

A distribuição é um grande problema, que estes tempos de pandemia, com o comércio fechado, veio agravar. 

Hoje em dia, com editoras como a Escorpião Azul, muito aberta a novos autores e com as facilidades de auto-edição, até é mais fácil editar uma BD. O problema é fazer chegar esses livros aos potenciais leitores e para isso, eventos como os Festivais de BD são de grande importância. Já viver exclusivamente da Banda Desenhada, não passa de um sonho, acessível apenas aos autores que trabalham directamente para mercados fortes, como o americano e o francês.

Qual é o valor da banda desenhada nestes tempos de maior isolamento?

Nestes tempos de confinamento, a capacidade de evasão permitida pela BD saiu reforçada. Através das páginas de um livro podemos viajar na nossa imaginação até Gotham City ou Urbicanda, ao passado e ao futuro, sem sair de casa. Além disso, no meu caso particular os tempos de confinamento foram-me muito úteis para organizar a minha biblioteca e (re)descobrir alguns livros que já nem me lembrava que tinha.

– Algum tema que consideres importante ou projeto que queiras divulgar?

Gostava de falar um pouco da Seita, um projecto editorial em que estou envolvido com um grupo de amigos, alguns deles com ligações anteriores ao mundo da edição. Além dos autores portugueses (na colecção Comic Heart) e dos autores italianos da Bonelli, na colecção Aleph, temos também publicado autores franco-belgas na colecção dedicada aos Lucky Lukes de autor. O nosso mais recente lançamento, em coedição com a editora Arte de Autor, acabado de chegar às Livrarias é o Shangai Dream, um livro publicado originalmente em França, mas desenhado por um artista português, Jorge Miguel, que desde 2012 trabalha exclusivamente para França e para os EUA e cujo trabalho mais recente estava inédito em Portugal, até agora. Para 2021, está previsto um incremento significativo do nosso catálogo, mas com a excepção de uma colecção de álbuns em formato franco-belga protagonizados pelo Tex (o mais antigo e famoso personagem da editora Bonelli), o resto ainda é cedo para revelar aqui e será oportunamente divulgado nas nossas redes sociais.

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