COIMBRA NO MUNDO | Xangai, República Popular da China

Iniciámos um novo capítulo das nossas vidas em Xangai há cerca de um ano e meio.

Depois de cinco anos vividos no Rio de Janeiro, a mudança para o outro extremo do mundo e para uma  realidade cultural completamente distinta, poderia não ser evidente… mas foi. Os nossos filhos, Leonor de 3 e Tiago de 8, usufruem, desde tenra idade, da primeira herança dos pais – um prazer viciante pela descoberta de novos lugares a que aprendemos a chamar casa com relativa facilidade.

O nosso percurso de vida é hoje intrínseco aos nossos filhos. O primeiro, concebido em Singapura, nascido em Coimbra, aprendeu a falar em Inglaterra e a jogar futebol no Brasil. Já a minha filha, Carioca de nascimento, desenvolve-se simultaneamente em três línguas – português, inglês e mandarim – e mistura feijão preto com dim sum. As motivações para tantas mudanças nos últimos dez anos foram pouco mais que a procura de diversidade de experiências e aventuras que eu e a Inês, também de Coimbra, partilhamos desde que nos conhecemos há onze anos atrás. A empresa para a qual trabalho, a Jaguar Land Rover, tem sido a plataforma multinacional que nos tem permitido concretizar este desejo mútuo de vivermos pelo mundo.

A China, enquanto o país mais dominante da Ásia e o segundo economicamente mais poderoso globalmente, é intrinsecamente complexa e distante da realidade ocidental aos olhos de um Laowai (nome dado aos estrangeiros que literalmente significa ‘velho estrangeiro’ e que pode ser interpretado como um termo elogioso mas também crítico).

Esta dicotomia torna a experiência de aqui viver e trabalhar muito interessante, mas ao mesmo tempo igualmente desafiante. Xangai ainda assim é uma cidade muito cosmopolita e a mais internacional da China, permitindo aos estrangeiros (c. 250 mil atualmente) que aqui vivem sentirem-na na Nova Iorque da Ásia. Em Xangai consegue-se viver entre a zona de conforto do mundo ocidental e as singularidades do mundo asiático, passando-se a fronteira apenas na medida da curiosidade e vontade de explorar o que é local.

Hoje, muito diferente de há menos de 10 anos atrás, consegue-se comprar em Xangai praticamente tudo a que estamos habituados no ocidente. As coisas do dia-a-dia, apesar das barreiras linguísticas, desenrolam-se com facilidade porque na China eficiência e tecnologia são palavra de ordem – fazer as compras da semana no telemóvel para serem entregues 30 minutos depois é a norma. 

Moramos num apartamento moderno em Xintiandi, um dos bairros mais centrais e também um dos mais trendy da cidade. Xintiandi é uma área nobre da cidade onde estão presentes lojas de grandes marcas de luxo, onde a cada semana abre um qualquer novo estabelecimento da moda e onde um Ferrari ou um Lamborghini são presenças constantes. Aqui moram alguns dos ‘influencers’ mais famosos da China e não é raro vermos na rua grupos de fotógrafos à procura do novo excêntrico ou da nova tendência.

Assim, aos  fins de semana, gostamos de sair para dar passeios a pé e deambular sem destino, descobrindo a cada vez algo novo e surpreendente. A geografia plana da cidade e a mistura explosiva do moderno com o antigo, do Oriente com o Ocidente tornam estes programas ainda mais apetecíveis.

Na nossa casa temos a sorte de ter a ajuda diária de uma ayi, nome que aqui se dá às empregadas domésticas. A Wen está connosco desde que nos mudámos e vem a nossa casa todas as tardes ajudar com as tarefas domésticas e também com as crianças. Aliás, ela é a grande professora de mandarim do Tiago e da Leonor, já que ela não fala inglês e por isso, entre gestos e algum mandarim, a comunicação vai-se dando.

As nossas rotinas em Xangai são ajustadas às de uma grande cidade.

Os dias geralmente começam por volta das 6h45. As crianças apanham, à porta de casa, o autocarro da escola para uma viagem de 20 minutos até ao outro lado do rio Huangpu, onde fica a escola inglesa em que ambos estudam – o percurso do autocarro pode ser monitorado através de uma aplicação no telemóvel que, ao segundo, informa a localização exata das crianças, bem ao estilo big brother Chinês. Na escola, o ambiente é bastante eclético, com um misto de crianças ocidentais e asiáticas, se bem que só crianças filhas de pai ou mãe estrangeira são aceites nas escolas internacionais – regra determinada pelo governo chinês, que exige que as crianças chinesas sigam, desde cedo, a “cartilha” do Partido. O programa escolar na escola deles segue o currículo inglês, com o adicional de aulas de mandarim diárias e com um programa cultural que procura dar espaço não só aos costumes britânicos, mas também às muitas tradições chinesas.

Eu saio para trabalhar ao mesmo tempo que as crianças ou mais cedo, se tiver de viajar a trabalho. A Inês está atualmente à procura de emprego e, entretanto, vai não só aproveitando as mil e uma opções de programas culturais que Xangai tem para oferecer, mas ainda alargando a nossa rede de contatos no seio da enorme comunidade de expatriados. Em Xangai há sempre alguma coisa a acontecer!

O final do dia, depois da aula de mandarim, é sempre o momento de falar com a família em Portugal. Com um fuso horário que varia entre 7 e 8 horas, aproveitamos geralmente o nosso horário de jantar para falar com os avós, que querem sempre saber como foi o dia dos netos. Para nós, este é um momento muito importante já que é a forma de irmos garantindo que esta relação familiar, tão importante, não esmorece com a distância.

Os nossos fins de semana têm normalmente uma agenda bem preenchida.

O Tiago tem jogos de futebol aos sábados de manhã com o Olympique Lyonnais, equipa onde treina duas vezes na semana. Os domingos de manhã estão reservados para aulas de português que o Tiago faz com a Rita, uma jovem portuguesa que está a fazer doutoramento aqui em Xangai. Já a Leonor aproveita as manhãs para ‘playdates’ com os amigos da escola. Eu e a Inês costumamos fazer algum desporto e dividimo-nos entre a agenda dos miúdos.

Por norma temos almoços marcados com amigos. Há sempre alguém novo para conhecer e, como estamos longe da família, os amigos acabam por se tornar na família que escolhemos. As tardes são ocupadas com os mais diversos programas, entre visitas a museus, passeios de bicicleta ou scotter elétrica, parques de diversões ou simples encontros com amigos num qualquer café ou parque da cidade.

Coimbra foi o contexto perfeito para o meu crescimento enquanto criança e adolescente, tempos que me marcaram profundamente.

Nestas idades a vida em Coimbra foi dinâmica e com experiências diversas o suficiente para desenvolver riqueza de personalidade e confiança num ambiente perto da família, com boas escolas, bons amigos e segurança. Conto várias vezes que foi a humildade que me foi imposta no Martim de Freitas, a emancipação alimentada pela grandeza e história do Liceu José Falcão e, mais tarde, as loucuras irresponsáveis, mas também seriedade da vida universitária em Coimbra que, se por um lado, construíram quem ainda sou hoje, por outro, me catapultaram para fora da cidade numa tentativa de querer continuar a descoberta.

Deixei Coimbra quando terminei a minha licenciatura, mas ainda é lá que mantenho as minhas raízes e memórias. Coimbra hoje significa família e amigos de sempre.  Regressamos regularmente, duas vezes por ano em circunstâncias normais, porque queremos que os nossos filhos sejam parte integrante de Coimbra e tenham uma convivência saudável e sólida com os avós, tios e primos. Temos muito orgulho que os nosso filhos tenham como amigos em Coimbra os filhos dos nossos amigos de sempre,  e procuramos ativamente que estas relações  sejam fortalecidas como uma parte fundamental no seu desenvolvimento.

Coimbra tem de mudar sob pena do hiato económico e social com outras cidades em Portugal e na Europa se tornar insustentável.

O mundo tornou-se muito mais complexo, volátil e globalizado nas ultimas décadas e Coimbra, em certa medida, cristalizou no tempo. As sinergias entre as Instituições do Ensino Superior e o tecido empresarial têm de ser reinventadas passando por uma mudança de paradigma. Se olharmos para outras cidades universitárias na Europa, igualmente atractivas e com dinâmica e reputação idênticas, podemos tirar bons exemplos do que foi feito para captar investimento e fixar jovens qualificados. Coimbra tem de quebrar o ciclo negativo de ser uma cidade de Doutores para Doutores e apostar numa estratégia mais inclusiva e abrangente que a transforme num polo incubador de empreendedorismo e inovação, através da promoção de áreas específicas de criação de valor de referência europeia. Na minha opinião, o Município, em estreita ligação com a Universidade, enquanto principal factor diferenciador e centralizador, tem de puxar para si o papel mobilizador e de liderança deste processo de cooperação estratégica e dinamização dos vários actores na região centro.

Regressar a Coimbra em vida activa talvez seja tarde demais para mim, mas gosto de imaginar que os meus filhos possam regressar para estudar e ter a oportunidade de ficar e viver numa cidade igualmente segura e cheia de tradição, mas mais dinâmica, jovem, empreendedora e progressista.

 

Hugo Eloi Alves

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