SINGULARES VI

Ao fundo desta rua está o Mosteiro de Santa Clara. Comecei por aqui vir porque era a igreja onde os meus pais se casaram, mas a verdade é que sempre foi mais do que isso. É o Mosteiro da Rainha Santa Isabel, padroeira da cidade e eu sou sua fã. Também tenho fé e também sou católica, mas a minha paixão pela lenda tem mais qualquer coisa. Houve sempre uma conexão especial com a história da Rainha que tinha tudo e que sabia que tinha de fazer
mais pelos outros. Transformou pão em rosas. Dá que pensar, não? Que pão podemos transformar em rosas? Este espírito de missão que ouvi sempre em forma de lenda atraiu-me e serviu-me de bússola mesmo antes de o identificar.

Depois de acabar a licenciatura, saí de Coimbra e fui para Lisboa trabalhar numa grande corporação. Estive lá quase 5 anos. Horários sem limites. Emails a toda a hora. É humanamente possível uma pessoa analisar e responder a 100 emails por dia? Não, pois não? Então porque os recebemos? Houve um dia em que percebi que aquilo não era mais para mim. Ou era demais para mim. Ouvi muitas vezes «tens de penar enquanto és jovem» e eu
pensava «mas tenho de penar porquê?». Apeteceu-me deixar aquilo e estudar. Pedi a demissão para ir fazer um MBA. A resposta foi paternalista. Imploraram que não o fizesse. Asseguraram-me que me ia arrepender. Se não estivesse tão certa do que queria, até me tinha deixado deslumbrar pela veemência com que me diziam para ficar, como se eu não fosse mais um número numa organização cheia de números. Demiti-me e fui fazer o MBA como planeado.

Estive em Angola e no Brasil a estudar e até acho que já tinha uma visão fora da caixa, mas estudar desenvolvimento económico daquela maneira mudou a minha vida e a minha visão do mundo. Quando acabei o MBA tive uma proposta para uma empresa e, ainda enamorada pela ideia de estabilidade financeira, aceitei. Estive lá três meses e confirmei que as grandes corporações não são para mim.

Sabia que queria oferecer algo à comunidade. Cada vez que falo disto vejo revirares de olhos, eu percebo que parece só mais uma visão fofinha do mundo, mas gostava que me ouvissem e vissem além da banalização das frases bonitas. Eu sabia que era possível ter lucro, viver bem, mas dar de volta. Bem, na altura não sabia, mas queria por tudo experimentar. Achava que a vida não podia ser só aquilo, trabalhar, trabalhar, penar, para
fazer outros ricos, muito ricos, quando há tantos a precisar de tanto.

Então lancei-me como consultora freelancer. Para poder retribuir primeiro tinha de me
tornar dona do meu tempo, ser chefe de mim mesma. Asseguro a minha rentabilidade assim: não quero ser rica, mas faço por viver confortável sem me perder com luxos. Depois desafiei-me a ter uma marca. Sustentável, mas de sustentabilidade séria e não
só para ser partilhável em forma de hashtag. Quando estive no Brasil conheci uma pessoa com quem montei uma marca de roupa de banho. O nosso compromisso é sustentável em várias perspectivas: preocupámo-nos com o sítio onde produzimos a nossa coleção, verificámos as condições de trabalho dos operários, escolhemos uma fábrica que tinha já grandes preocupações ambientais, confirmámos que o tratamento das águas era o mais ecológico possível, desenhámos uma coleção inclusiva — que já desfilou em passarelas internacionais por isso mesmo — e doamos parte dos lucros semestralmente a associações de solidariedade social.

Esta ideia de que para se devolver algo à comunidade é preciso ir fazer voluntariado
para África exaspera-me — e eu até já fiz voluntariado em África! A palavra empatia agora está nas bocas de todos, mas sinto que poucos se esforçam para a perceber. Não é preciso trabalhar numa associação sem fins lucrativos. Não é preciso ir fazer voluntariado. É tão mais simples: basta olhar para o lado, para um vizinho, para um par. Para mim, o espírito de
missão nunca importou o mundo, basta-nos o aqui. Uma vez pus-me a pensar porque iam tantos idosos para os centros comerciais pela manhã. E percebi que muitos procuram o calor que não têm em casa — e não falo do calor metafórico. Há muita gente com frio em Portugal. E também com fome. Para ajudar não temos de caminhar muito.

Propus-me a criar uma marca e provar que é possível ter algo rentável e também solidário. É possível criar lucro, mas não criar só lucro. É possível existir de forma justa.

A Rainha Santa trocou uns quantos pães por rosas, e para mim é isso, pode ser assim tão simples e assim tão local. Não estamos aqui para penar e não estamos aqui sozinhos. É olhar para o outro, perceber de que precisam e depois pensar «e eu posso dar?».

Texto e fotografia de Ana Sousa Amorim

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Vítor Maia Costa
12.02.2021

Acho que uma rubrica regular dedicada à gastronomia (em sentido alargado) é importante, sejam receitas/pratos, sejam locais/estabelecimentos. Há sempre locais a abrir e locais a fechar. E alguns que se reinventam regularmente. Sítios para beber copos, para lanchar, para brunch, para pequeno-almoço, para jantar, para fora d’horas (almoços ou jantares tardios). Para convívio, para famílias, ou para estar sossegado ou para conversar, nas calmas. Mesmo que ao fim de 6 meses tenham de reçomeçar outra vez. E ir aos arredores, porque Coimbra tem essa característica, de ser uma cidade que extravasa. Cuja região, cujo “entorno”, mal ou bem, se revê nela e que vai a ela sempre que pode.

    12.02.2021

    Olá Vítor. Agradecemos o seu comentário e estamos inteiramente de acordo. Convidamos, caso ainda não o tenha feito, a explorar a nossa secção Comes & Bebes e a rubrica Com Papas na Língua (encontra facilmente fazendo a “Procura” no site), infelizmente interrompida pela pandemia mas que irá ser retomada. Até breve