Este jornal digital parte de Coimbra mas é do mundo lusófono

Em 2016, um grupo de cidadãos de Coimbra começou encontrar-se e falar entre si, manifestando algum desencanto e desconforto face ao tipo de informação que, na sua perspectiva, era e é dominante. Achava que fazia sentido haver outra forma de olhar o mundo, o país e até mesmo a região e que isso não estava a ser feito ou estava a ser feito de uma forma muito insuficiente, recorda João Figueira. O jornalista e professor de Jornalismo na Universidade de Coimbra é o homem na proa do Sinal Aberto, colectivo de jornalismo de interesse público inaugurado online no dia 1 de Maio de 2020, em plena pandemia.

Sim, as vossas contas estão bem feitas, passaram 4 anos da ideia à forma mas, como se costuma dizer, 'Roma não foi construída num dia'. Houve alguma hibernação e é a partir de Março e Abril de 2020 que as pessoas começam a falar de novo entre si e isto de repente isto ganha uma dinâmica que não teve no início, continua Figueira. As pessoas de que fala são um grupo heterogéneo e intergeracional, com predominância da faixa etária acima dos 35 e 40 anos de idade, formações e experiências de vida muito diferentes mas um ponto comum: a visão crítica relativamente à perspectiva dominante de olhar a sociedade com as lentes do neo-liberalismo e a vontade de criar uma alternativa.

Das editorias Lusofonia, Mundo e Saber aos dossiês especiais e entrevistas, passando por secções como a Olhares, já são cerca de 260 as peças publicadas no jornal digital independente e sem fins lucrativos que, apesar de ser publicado digitalmente a partir de Coimbra não se encerra na cidade, na região e nem sequer no país. A língua portuguesa como denominador comum é um dos pilares do projecto com conta com redactores voluntários do Brasil e África lusófona, sobretudo antigos alunos de Jornalismo e jornalistas que já não estavam no activo. No entanto, numa altura em que Coimbra está a preparar a candidatura a Capital Europeia da Cultura 2027, não deixa de ser interessante que o aspecto cultural seja um dos vectores mais importantes do nosso jornal, mesmo sendo coincidência porque quando o criámos não sabíamos da candidatura, nota o director do Sinal Aberto. 

O Opinário é outro dos espaços do Sinal Aberto, com 25 nomes na lista de colaboradores, das mais variadas áreas. Coimbra é uma cidade com uma capacidade crítica instalada absolutamente invejável, poucas cidades no país têm esta qualidade notável crítica e de pensamento, declara João Figueira. Já o Ficcionário, é dedicado à experimentação literária e divulgação de autores menos conhecidos. Inclui, por exemplo, o espólio artístico e literário de um jovem criador precocemente falecido a que a publicação teve acesso e que tem vindo a divulgar: Vladimir Rodrigues.

Ainda sem um espaço próprio e financiado pelos fundadores, o jornal de acesso gratuito está receptivo aos contributos dos leitores e a trabalhar no sentido de angariar fundos de apoio a projectos jornalísticos, até porque está no horizonte a constituição de uma equipa mínima profissional. A curto prazo, está na calha a criação de conteúdos vídeo e eventualmente podcast. De resto, a publicação também pode ser acompanhada no Facebook e Instagram

De acordo com a Entidade Reguladora para a Comunicação Social, em 31 de Dezembro de 2020 estavam registadas 1716 publicações periódicas, 305 empresas jornalísticas, 2 empresas noticiosas, 284 operadores de radiodifusão (detentores de 328 serviços de programas), 25 operadores de televisão (detentores de 61 serviços de programas), 11 operadores de distribuição e 129 serviços de programas distribuídos exclusivamente pela Internet. Apesar das características atípicas provocadas pela pandemia de Covid-19, o número de órgãos de comunicação social e de empresas proprietárias manteve-se, com ligeiras flutuações. 

Texto: Filipa Queiroz
Foto: Sinal Aberto, Alejandro Escamilla/Unsplash

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