ARTE AO DOMICÍLIO | António Monteiro, arquitecto e ilustrador

A artista plástica Gabriela Torres convida à reflexão sobre a relevância da arte em tempos isolamento através de uma série de entrevistas a artistas plásticos, fotógrafos, ilustradores, entre outros que ao mesmo tempo apresenta, abordados sob diversas perspectivas consoante a sua natureza mas sempre com a temática da figura humana como fio condutor.

 

António, fale-me um pouco sobre o seu percurso artístico.

É complicado fazer de forma sucinta, mas vou tentar. Aos 17 anos já estava a trabalhar como desenhador projectista (de arquitectura), aos 18 anos entrei no curso de arquitetura na ARCA- EUAC ao mesmo tempo que comecei a colaborar com ateliers de arquitetura e design. Sempre com paixão pela banda desenhada e desenho (que sempre me acompanhou desde criança). Quando dei por ela tinha o curso terminado e era docente convidado na Univ. Vasco da Gama (no curso de Arquitectura), a leccionar Desenho Assistido por Computador (CAD) e mais tarde também Desenho. Isto definiu o meu percurso até hoje, a paixão pelo Desenho, pelo Ensino e pela Tecnologia. Actualmente estou inscrito no Doutoramento em Arquitetura, estou a trabalhar como docente convidado na Universidade de Coimbra (Animação e Multimédia e Comunicação Multimédia no curso de Design Multimédia), sou investigador-convidado no Projeto de Investigação Santa Cruz 1834 FCTUC-CES, mantenho-me ligado a diversos ateliers de arquitetura e com a paixão da ilustração e do desenho sempre envolvida na minha vida artística e profissional. Assim como sou, juntamente com o Jorge Antunes, parte da organização na cidade de Coimbra do evento (a)Riscar o Património – DGPC, este evento é dedicado ao desenho de rua sobre o património cultural da cidade de Coimbra (neste
caso), desde 2015.

O que é que o motivou a fazer o doutoramento sobre reconstituições virtuais de património arquitectónico?

O interesse no Doutoramento em Arquitectura surge como uma etapa natural, pessoal e profissional. Após alguns anos a lecionar e trabalhar vi-me envolvido no Projecto Santa Cruz 1834, onde iniciei as minhas funções de investigador a transformar textos, gravuras e
fotografias antigas em desenhos e prepará-los para as novas tecnologias digitais. O intuito principal do Projecto é reconstituir o antigo Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra como estava em 1834, através das novas ferramentas digitais (3D-VR). Ao reparar que existem algumas lacunas, parcas metodologias de investigação ou por ser algo ‘recente’, juntamente com a paixão que já tenho (desenho/arquitetura/tecnologias/história), decidi escolher esta temática, a da Reconstituição Virtual de Património Arquitectónico.

Esteve na fundação do Salão 40, com sessões de desenho de modelo em Coimbra, como surgiu a ideia?

Não foi minha a ideia de criar o Salão 40, foram o Bruno Gonçalves, o Eduardo Mendes, o Cláudio Vidal, e os restantes que moravam e viviam no número 40 da Rua de Saragoça em Coimbra (inicialmente era o Coletivo Salão 40, por serem tão multidisciplinares e polivalentes). Acompanhei o processo porque era colega deles na ARCA EUAC e amigo do Bruno. 

As sessões de Desenho de Modelo Humano surgiram como uma continuidade da disciplina de Desenho, que não nos satisfez o suficiente ao longo dos cursos existentes. Com o decorrer dos anos, e com as vicissitudes das vidas pessoais e laborais dos membros originais do Salão 40, eles deixaram de poder organizar as sessões semanais, que nessa altura já aconteciam no Ateneu de Coimbra. A organização passou-me pelas mãos juntamente com o António Costa e o Luís Gomes, onde organizamos as sessões semanais, exposições e eventos, assim como a transição dos encontros para a Casa das Artes da Bissaya Barreto (retornando mais tarde, novamente, ao Ateneu de Coimbra). Actualmente, o Salão 40 continua a ter sessões semanais de Desenho de Modelo no Ateneu de Coimbra. No estado actual que vivemos é necessário fazer a marcação prévia através de mensagem (na página de Facebook do Salão 40) para confirmar o número máximo de participantes ou se a sessão será online.

Qual é o valor do desenho nestes tempos de maior isolamento?

O Desenho, no meu ponto de vista, é a disciplina que irá ser sempre essencial no desenvolvimento do meu ser e da minha vida artística e profissional. Auxilia-me a desenvolver e a transmitir as minhas ideias, pensamentos, frustrações e intenções. E, por conseguinte, é a disciplina que continuarei a desenvolver até ao fim. O Desenho enquanto disciplina leva-nos na concentração do traço e dos valores que queremos transmitir, enquanto reflectimos na proporção, volume, perspetiva… Nesta altura de maior isolamento, o desenho ajuda-nos a reflectir sobre o nosso papel enquanto artistas e como pessoas, assim como nos ajuda a desenvolver as nossas capacidades – rigor, clareza, paciência. Também o mesmo Desenho é essencial à libertação dos pensamentos da nossa alma, seja em papel, seja em ecrã.

Algum tema que consideres importante ou projecto que queiras divulgar.

Penso que o desenvolvimento artístico (pessoal) actualmente está mais acessível, com a oferta de informação e conhecimento online. Não irei partilhar um projecto ao certo, porque penso que este isolamento nos pode auxiliar no desenvolvimento da arte do Desenho. Com a facilidade de um clique é possível conhecer vários projectos artísticos, assim como vários artistas-conterrâneos e/ou mais longínquos- com quem podemos partilhar os nossos receios e desejos e receber uma resposta construtiva sobre isso. Aconselho a estimulação do ‘networking’ entre pares, dos mesmo interesses estilísticos ou pessoais, para um crescimento interpessoal mais construtivo e enriquecedor. Esse contacto pode ser feito através das redes sociais de forma bastante simples. E podemos começar a partilhar através de mensagens os nossos receios e como os vencer, assim como
mostrar o nosso trabalho e como ele poderá crescer e ser divulgado de forma assertiva.

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