COIMBRA NO MUNDO | Taiwan

Actualmente moro em Taipei, Taiwan (a ilha batizada pelos portugueses como Ilha Formosa) e para ser sincera ainda não sei bem como vim aqui parar.

Provavelmente foi a minha incansável curiosidade em viver em cenários culturais diferentes. Taipei não foi a primeira cidade onde morei fora de Coimbra. Primeiro, e ainda enquanto estudante de Arquitetura da Universidade de Coimbra, morei um ano na Noruega, em Trondheim e um ano em Aachen na Alemanha (com o programa de Erasmus e free-mover, respectivamente). Depois de acabar o curso, mudei-me para São Paulo, literalmente no espaço de tempo de uma semana, onde morei durante dois anos.

Com o país ainda inundado na crise económica e com poucas hipóteses para arquitectos, cometi a loucura de dar uma volta gigante na minha vida e ir morar para o Dubai e trabalhar como hospedeira de bordo na Emirates, onde ganhei muitos quilómetros de experiência em todos os tipos de sotaque de inglês (com ênfase no indiano J). Há dois anos e meio que moro em Taipei e desta vez de regresso à Arquitectura, não poderia estar mais satisfeita. Nesta cidade muito acontece e de uma maneira extremamente rápida (por vezes rápida demais).

No início, morar em Taipei foi um desafio gigante, principalmente pela barreira linguística e as muitas diferenças culturais.

É assustador relembrar que, quando cheguei, nem conseguia distinguir onde era o supermercado porque está tudo escrito em mandarim. Comprar qualquer produto sem a câmara do Google tradutor era impensável!

Hoje em dia estou completamente integrada, já dou uns toques (muito pequenos – survival mode) no mandarim e uma das coisas de que mais gosto é dos eficientes meios de transporte que existem na cidade de Taipei  – como o metro e as bicicletas. Aqui, em cada estação de metro há imensas bicicletas disponíveis para alugar (a um preço irrisório) e como a cidade é plana é francamente agradável usar. Lembro-me sempre do Quebra Costas e como seria difícil implementar uma ideia destas em Coimbra, mas depois vejo os Taiwaneses a ir de gás com as suas bicicletas eléctricas e penso que ainda há esperança para Coimbra com bicicletas eléctricas!

Não posso também deixar de falar na eficiência do sistema de saúde taiwanês. É barato e descentralizado – no pequeno ‘centro de saúde’ que tenho a 5 minutos a pé de casa nunca esperei para ser atendida mais do que 10 minutos. 

Os taiwaneses, por já terem experienciado o SARS, tiveram uma prestação exímia no combate à COVID-19.

Com 24 milhões de habitantes foram apenas registados 785 casos desde Janeiro até hoje. Felizmente, nunca tivemos recolher obrigatório, a vida continuou no seu ritmo normal e, mesmo assim, as medidas de prevenção foram sempre altíssimas com o uso obrigatório de máscara em vários locais públicos e o controlo da temperatura. 

O lado negativo de morar numa cidade com tantas pessoas e compacta é a falta de espaço. Nunca pensei queixar-me de trânsito pedonal, mas aqui pode ser caótico especialmente porque a maioria das pessoas vai colada ao telemóvel a jogar jogos.

Outro problema da falta de espaço na cidade é o elevado custo dos imóveis: um estúdio de 25 m2 no centro de Taipei pode custar 500 mil euros.

A família e os amigos são o que me faz mais falta (aqueles abraços apertados!).

E são estas dolorosas saudades que me fazem questionar tantas vezes se emigrar vale mesmo a pena. Da cidade de Coimbra sinto muitas saudades do ar fresco e puro, do sol de inverno, da tranquilidade e calma. Ainda hoje, contava aos meus colegas do escritório os encantos da minha cidade e de como era a minha vida de estudante (Harry Potter Style de capa às costas – ficam loucos!) e realmente é um privilégio viver a história de Coimbra.

Costumava ir a casa uma ou duas vezes por ano, mas este ano, pelos motivos que todos sabemos (e um período obrigatório de quarentena de 14 dias no regresso a Taipei) decidi não ir e por isso já lá vai um ano e meio sem pisar território nacional. 

Sempre que volto tenho obrigatoriamente de ir à esplanada do tropical beber uma amêndoa amarga, comer uma sapateira no Tapas, (será que ainda existe?) comer uma nata gigante na esplanada da Briosa e ir passear no Parque Verde do Mondego. Claro que também tenho de comer umas queijadinhas de Pereira, uma chanfana de Poiares e um leitãozinho da Bairrada. 

Gostava que houvesse menos corrupção, que perdêssemos a cultura das cunhas e que o país fosse mais orgulhoso de si próprio.

Temos um potencial gigante, em termos de história, clima e recursos naturais, mas que ainda estamos longe de conseguir saber valorizar. Quando volto a Coimbra encontro tudo relativamente na mesma, e a verdade é que as mudanças na nossa cidade ocorrem muito devagar. 

Apesar de sentir imensas saudades, para já, voltar não faz sentido porque felizmente muitas oportunidades estão a surgir. Este ano para além de ter participado em variados projectos de grande escala, também fui editora do primeiro livro em inglês da minha empresa (BI: The Origin of Architectural Creativity) e, há um semestre, iniciei um doutoramento em Arquitectura. 

Sou uma Conimbricense muito orgulhosa das suas origens. Coimbra, espero muito ver-te este verão.

Ana Coelho

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