SINGULARES V

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Nasci em Cabo Verde, sou a mais nova de 6 filhos. O meu pai trabalhava em navios e estava largas temporadas fora. Foi o maior impulsionador dos meus estudos. Queria que fossemos pessoas cultas. Dizia-nos, a mim e aos meus 5 irmãos, «mesmo que não queiram estudar para ter um canudo, estudem, leiam e viajem para saber mais». A minha mãe era analfabeta. Aos 9 era eu que escrevia as cartas que ela me ditava para enviar ao meu pai quando ele estava no barco. Sempre percebi que estudar era o meu objetivo, o caminho para ser alguém.

E foi para estudar que vim para Portugal. Quando acabei o secundário, como Cabo Verde não tinha universidade, soube que era a minha única hipótese para poder continuar a estudar. Foi por isso que vim. E é por isso que, mais de 20 anos depois, aqui continuo.

Em abril de 2001, estava no segundo ano e tudo corria com tranquilidade quando sofri o meu primeiro revés. Perdi um dos meus irmãos, faleceu com apenas 27 anos. Apesar de ter uma doença degenerativa e estar acamado há algum tempo, foi um choque. Tínhamos uma relação muito próxima. Na altura, foi o meu irmão que vivia nos Estados Unidos que me apoiou muito. Deu-me força pelo telefone, incitou-me a continuar a estudar e prometeu que no verão, quando estivéssemos todos juntos em Cabo Verde, iríamos fazer o luto do nosso irmão em família. Dois meses depois, em julho, ainda antes de o poder abraçar, este meu irmão faleceu de doença aguda repentina. Fiquei sem chão.

Nesse verão fui a Cabo Verde. A minha mãe estava muito em baixo, tinha perdido 2 filhos num espaço de meses. Essa altura foi a primeira vez e única em que usei a época especial: fiz dois exames em setembro/outubro e acabei o ano, a custo.

E continuei, com esforço. Comecei a trabalhar na biblioteca da faculdade para apoiar nas despesas. Em 2003, estava no trabalho e recebi uma chamada. O meu pai tinha sido diagnosticado com um cancro fulminante e diziam que tinha um mês de vida. Quando atendi o telemóvel carregava vários livros na mão e caíram-me todos, qual cena de filme. Fui imediatamente para Cabo Verde, esqueci tudo. Estive 20 dias com o meu pai, o cancro levou-o com a rapidez anunciada.

Perder o meu pai foi devastador. Senti-me perdida. Não fazia nada. No luto dos meus irmãos, perdi peso. Nesta altura, foi o contrário. Deixei de fazer desporto. Engordei muito, comia de forma compulsiva. Acabei por perceber que estava no fundo de um poço, acionei os serviços sociais da universidade para aceder ao apoio psicológico. Sem esta ajuda não tinha conseguido continuar.

Nos anos seguintes, a sustentabilidade económica da minha estadia académica em Portugal começava a ficar em causa. Trabalhava, mas o pagamento era instável, às vezes vinha com meses de atraso. Estava prestes a defender o meu trabalho final de curso quando comecei a questionar se devia ou não voltar para Cabo Verde após o mesmo, deixar-me pela licenciatura. Um professor falou-me de um mestrado em poder local e autarquias, disse-me que achava que eu tinha perfil para aquilo. Foi assim que decidi continuar em Portugal para fazer o mestrado. Às vezes pergunto-me se não devia ter ido logo.

Fiz o primeiro ano sem dificuldades maiores. Entretanto, perdi a autorização do SEF para ficar em Portugal como estudante. Como a biblioteca não me fazia contrato de trabalho, pagava-me a recibos verdes, não servia como justificação para o SEF. Fiquei muito ansiosa com esta situação. Conhecia histórias de vários colegas estrangeiros que tinham sido maltratados pelo SEF ou que, na mesma situação que eu, tinham tido curtos prazos para regularizar a situação e foram enviados para os seus países antes de o conseguirem fazer. Deixei a biblioteca e comecei à procura de trabalho com contrato. Fui onde todos os estudantes iam, ao McDonald’s.

Comecei então o segundo ano de mestrado, com aulas às sextas e sábados, a trabalhar a tempo inteiro no restaurante. Só tinha uma folga por semana, por isso foi com muita logística que consegui não deixar cadeiras por fazer. Tive professores que se metiam comigo e perguntavam se não tinha trazido hambúrgueres, porque cheguei a ir com a farda para as aulas, não tinha tempo para me trocar.

Chegava a altura de escrever a dissertação. No verão de 2007, fui a Cabo Verde, tinha planeado fazer lá o meu trabalho de campo para o mestrado e fiz imensas pesquisas e entrevistas. Consegui, entretanto, uma bolsa para fazer o mestrado através do Governo de Cabo Verde. As coisas pareciam compor-se e tinha previsto terminar a dissertação nesse ano para depois regressar definitivamente a Cabo Verde.

Quando tinha consultado um advogado por causa da situação do SEF fui aconselhada a requerer a nacionalidade portuguesa, pois já preenchia os requisitos para tal. Fi-lo, convencida que levaria anos até que fosse aceite. A minha nacionalidade saiu bastante rápido, contrariamente a tudo o que se esperava. Como portuguesa, não podia obviamente usufruir de uma bolsa para um cidadão estrangeiro. Agora que tinha tido bolsa, ficava sem ela. A escolha entre ter bolsa e a nacionalidade foi fácil, esqueci o dinheiro, perdi uns 6 000 € de bolsa, mas fiquei com a nacionalidade, não queria nem imaginar ter de depender de vistos do SEF para continuar cá.

Decidi que terminaria o mestrado na mesma, tinha de conseguir. Já se arrastava há demasiado tempo. E depois voltaria para Cabo Verde, como sempre fora a minha intenção. Para pagar as propinas teria de trabalhar, contrair crédito, o que fosse.

No ano seguinte, recebi nova chamada terrível. A minha cunhada, mulher do irmão que me resta, suicidou-se no mar com uma depressão pós-parto e levou com ela a minha sobrinha de 2 anos. Se achava que a morte do meu pai me tinha deixado mal, esta tragédia levou-me ao hospital com pico de tensão alta. Senti-me novamente sem forças.

Decidi deixar o mestrado. Pensei até em ir fazer voluntariado para países pobres. O meu namorado disse-me «vai, mas não te esqueças que os teus problemas vão contigo, não conseguirás fugir deles». Não fui para fora, mas decidi ir para Lisboa. Estava em Coimbra para estudar e se não ia estudar, não devia estar cá.

Nos anos seguintes fiz vários outros cursos, formação para formadores e cadeiras isoladas. Dispersei completamente. Tinha de escrever a dissertação, mas fugi dela. Fiz projetos sociais, muitas coisas. Até que me ligaram da biblioteca da faculdade cá em Coimbra com nova oferta de trabalho. Decidi regressar e inscrever-me de novo no mestrado.

Paguei muitas propinas sem entregar nada. Escrevia dias a fio em jardins como este e não me saía nada de jeito. Apagava tudo. Entrei numa espiral.

Em 2015, perdi a minha mãe. Mais um golpe que adensava a minha desmotivação. Há anos que adiava o meu regresso a Cabo Verde e fui ficando sem tantas das minhas pessoas. Senti-me muito desorientada.

Entretanto trabalhei como baby-sitter, depois fui mãe e continuei a minha vida com aquilo sempre ali, como se fosse uma gaveta aberta num quarto impecavelmente arrumado. Em setembro de 2019, decidi-me de vez: vou acabar aquilo, pegar na minha família e vou voltar a Cabo Verde. Em 2020, chegou a pandemia. Não consegui, com um bebé pequeno em casa tantos meses, fazer aquilo a que me tinha proposto.

Agora é a minha hora, este ano é que é. Vou acabar a dissertação, vou escrevê-la, entregá-la e vou voltar para Cabo Verde. Já podia ter desistido disto, não consigo entender porque adiei tantas vezes. Tantas vezes. Mas saí de Cabo Verde para estudar e não vou mandar tudo isto ao ar tão perto do fim, não posso. O meu pai não me deixaria.

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Texto e fotografia de Ana Sousa Amorim

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