Esta doença não é (só) para velhos

O título deste artigo é uma adaptação do título de uma ficção (Este País não é para Velhos, 2007) mas a ideia é bem real. Neste momento, vivemos num permanente tornado de opiniões de especialistas, notícias de última hora, avisos de hospitais em ruptura, números recorde de infectados, de internados e de mortos de Covid-19. Tanto, que dizem que já nos habituámos e consequentemente nos tornámos mais cépticos e descuidadas em relação à prevenção do contágio do vírus que, ao contrário do que possa parecer, nunca é demais repetir que não escolhe nacionalidade, idade ou género. Todos corremos o risco de contrair a Covid-19. Luís, Pedro, Miriam e Gonçalo são ex-pacientes, com idades entre os 20 e os 40 anos, e contaram-nos a sua história com a doença e o que mudou.

Começamos por Luís Rosa, advogado. No início de Novembro, um sócio do irmão informou-o de que tinha testado positivo. Tinha estado no Porto com a namorada e quando voltou ao trabalho, estiveram alguns minutos na mesma sala, sem máscara. Foi o que bastou. Quer Luís quer o irmão e também os pais fecharam-se em casa. Almoçamos diariamente com os nossos pais em casa deles e, para tomar as refeições, obviamente que removemos as máscaras… Através da linha SNS 24, foi-lhes marcado o teste à Covid-19 só que, ao contrário do irmão e dos pais, o de Luís deu negativo. Estive até ao dia 13 ou 14 assintomático, altura em que comecei a ter febre. Fiz novo teste, por ordem do delegado de saúde que ligava todos os dias, e testei então positivo. 

Depois de uma semana sem que a febre baixasse, apesar de medicado, a médica de família de Luís Rosa ligou-lhe a dizer que ele estava com falta de ar. Sim, foi preciso ela dizer. Não acreditei muito pois não tinha noção de estar com falta de ar, apenas me sentia cansado mas atribuía o sintoma não só à Covid 19 como ao facto de ter estado uma semana com temperaturas de 39º. A médica insistiu. Luís foi às urgências do hospital dos Covões e lá, logo à entrada, ligaram-no a um oxímetro e colocaram-lhe uma máscara de oxigénio. Tinha os níveis de saturação demasiado baixos. Fiquei com uma pulseira cor de laranja, o que me deixou apreensivo pois percebi que era de alguma gravidade. Fiz com alguma rapidez um raio-x ao peito e, poucos minutos depois, uma médica e duas enfermeiras vieram a correr na minha direcção; começaram a despir-me e a médica informou-me que o meu estado era muito grave e tinha de ser internado imediatamente.

Luís Rosa aceitou o veredicto mas admite que não estava totalmente consciente da gravidade da situação. No mesmo dia, ligaram-no a um ventilador não invasivo (VNI). A parte mais difícil de aceitar e de suportar, confessa. Estive ligado ao ventilador durante 12 dias, continua e explica que não podia sair da cama, tinha de contar com a ajuda de terceiros para fazer a higiene diária, bem como as necessidades fisiológicas. Para um homem de 40 anos, saudável não é fácil aceitar isto. Como sou extremamente positivo e racionalizei a questão, facilmente aceitei que a escolha era entre estar ligado à máquina que me ajudava a sair dali e a sobreviver, ou querer ir à casa de banho e saber que a máquina não me podia acompanhar. 

Se em relação aos cuidados médicos, Luís Rosa garante que teve um tratamento excepcional da parte de todos - diz mesmo que melhor era impossível -, já do ponto de vista das instalações, a história é outra. O hospital não tem praticamente condições nenhumas pois nem sequer existe uma casa de banho nos quartos das enfermarias, sendo obrigados a fazer as necessidades num balde, e os banhos 'à gato' no meio de enfermarias geladas e com mais de 3 metros de pé direito, o que deixa muito a desejar.

Luís Rosa ainda passou cerca de uma semana numa enfermaria de menor grau de gravidade, até poder voltar para casa. Mais de um mês depois, a recuperação total ainda não está no horizonte. Faz diariamente fisioterapia às pernas, devido à perda de muita massa muscular, e respiratória para recuperação total dos pulmões. Ou pelo menos assim o espera. Também faz pequenas caminhada quando pode, em terreno plano, e já começou com alguma actividade profissional mas ligeira. A Covid-19 mudou toda a minha vida neste momento. Fazia à noite 8 km diários a pé e já não faço, saía todos os dias de casa depois de jantar e agora não saio à noite para lado nenhum para não apanhar o ar frio, não trabalho como trabalhava, perco imenso tempo com fisioterapia, faço refeições sozinho para não correr o risco de reinfecção, etc.

Para Pedro Mendonça, 36 anos, o regresso à vida normal depois de ter estado 15 dias doente de forma incapacitante com Covid-19, também não foi fácil. Apesar da fadiga incapacitante não me foi renovada a baixa médica e porque os meus dois filhos, de 4 e 6 anos, e a minha companheira, continuavam em isolamento profilático, explica. O investigador em Ciência Política não faz ideia de como terá acontecido a infecção, apenas que começou por ter sintomas familiares de gripe normal como arrepios, dores no corpo e nariz a correr que passavam com anti-inflamatório mas que depois passaram a perda total do olfacto. Ligou para a linha SNS 24 e pediram-lhe para comparecer num local destinado a doentes respiratórios entre as 16h e as 18h para ser atendido por um médico que depois decidiria se faria um teste ou não, eventualmente no dia a seguir, e saberia o resultado 1 a 2 dias depois do teste. Como não estava na disposição de esperar tanto marquei um teste rápido na Cruz Vermelha.

Quando os primeiros sintomas passaram, Pedro achou que o pior já tinha passado. No dia a seguir, tive um cansaço incapacitante como nunca senti, que me fazia passar praticamente o tempo todo deitado e ficava ofegante a executar as mais simples elementares das tarefas. Este cansaço durou uns sete dias e depois foi passando lentamente. Mas não totalmente. Pedro Mendonça ainda se sente cansado e só recuperou uma pequena parte do olfacto, já lá vai quase um mês.

Gonçalo Fernandes, 35 anos, descobriu que estava infectado quando soube que uma pessoa que esteve em contacto com a namorada tinha testado positivo. Tinha as amígdalas inflamadas e uma dor de cabeça forte associado a tonturas ligeiras, parecido a uma gripe sazonal, conta. A principal preocupação foi informar as pessoas com quem tinha estado em contacto na semana anterior aos sintomas. A doença evoluiu para dores no corpo, cansaço passando pela ausência de paladar e olfacto mas não chegou a precisar de tratamento hospitalar. Penso que a linha Saúde 24 tem algumas falhas mas quando o acompanhamento passou para o centro de saúde as coisas correram bem, as pessoas que me contactaram foram muito prestáveis e atenciosas, fui contactado todos os dias. Muito repouso e Paracetamol depois, Carlos diz que levou semanas até ter ter uma recuperação quase total mas nota que não recuperou totalmente o olfacto, mesmo depois de o vírus desaparecer. E não foi a única consequência. Quando a pandemia veio deixou de haver uma vida normal e infelizmente por causa do vírus fiquei sem emprego.

Miriam Alves Madeira, 29 anos, também regressou à rotina e ao trabalho mas o cansaço fácil ficou. E parece que veio para ficar, completa. Não é uma boa notícia uma vez que tem uma das profissões mais importantes neste momento, que obriga a duros turnos de pé ou a caminhar de um lado para o outro. Miriam é enfermeira no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. Estava a trabalhar quando ‘soou o alarme’. Senti tensão e dores musculares, cefaleias, dor de garganta e cansaço fácil. Transmiti à enfermeira coordenadora de turno a situação, que informou o Serviço de Saúde Ocupacional e me encaminhou a fazer o teste PCR, que pesquisa o coronavírus SARS-COV-2 nas vias respiratórias e assim me foi dado o diagnóstico positivo para COVID-19. Miriam tinha sido mobilizada recentemente para o serviço, criado para reforçar uma equipa de combate ao novo coronavírus. Outros colegas também foram infectados na prestação directa de cuidados ou por algum colega que estivesse assintomático. Ao certo, não se sabe.

 

Passados dois dias, Miriam começou a ter tosse e a sentir a perda parcial do olfacto e paladar (hiposmia), que em poucos dias evoluiu para a perda total de olfacto e paladar (anosmia). Dito isto e sendo uma jovem adulta, sem quaisquer antecedentes pessoais que pudessem agravar o quadro clínico, recordo-me de pensar que a ideia transmitida no início da pandemia, de os jovens serem maioritariamente todos assintomáticos à excepção dos que tivessem comorbidades associadas, não era uma verdade absoluta, diz. E acrescenta: Esta ideia, veio a trivializar a doença Covid-19 nas comunidades mais jovens e por conseguinte provocou o relaxamento da realização de medidas preventivas. Para se reduzir a exposição e transmissão da doença é imperioso que sejam tomadas medidas de higiene e etiqueta respiratória.

Apesar de apresentar sintomatologia ao longo dos 12 dias em que esteve doente, sempre foi ligeira e nunca tive febre ou dificuldade respiratória por isso Miriam Madeira não precisou de tratamento hospitalar. Assegura que foi seguida diariamente pelos cuidados de saúde primários e contactada ao longo do isolamento profiláctico. Fui medicada com analgésicos e antiflamatórios, para atenuar as dores musculares e de garganta, descansei, bebi bastantes líquidos, apesar da perda de olfato e paladar, tentei fazer uma alimentação nutritiva, mantive-me activa e socializei através do telefone e da internet. Como é profissional de saúde, passados 10 dias repetiu o teste e o resultado manteve-se positivo. Acabou por estar 20 dias em isolamento profilático. 

Miriam Madeira constata que todo o mundo tem vivido dias e situações apavorantes, uns mais do que outros, e até os mais cépticos viram, pelo menos, a sua rotina alterada em 2020. Tendo em conta o estado atual da pandemia, a enfermeira recomenda a todos tomarem ou manterem medidas gerais de prevenção e controlo da Covid-19, nomeadamente higiene, etiqueta respiratória e, assim que possível, a vacinação. Sobre a última, atira duas desmistificações que considera importantes:

1 - A vacinação é essencial mas não é uma cura ao Covid-19, é uma medida preventiva, que nos permite proteger-nos individualmente contra a doença e contribuir para a proteção da saúde pública;

2 - Não se pode ser infectado através da vacina! E as pessoas que sejam vacinadas e eventualmente sejam infectadas apenas terão doença ligeira, mas estão protegidos de formas graves de Covid-19, contrariamente aos que não foram vacinados.

Miriam Madeira lembra que até uma percentagem considerável da população ser vacinada e ser alcançada uma imunidade de grupo, é o estado de proteção da população contra a doença que limita a disseminação por isso é imperioso que se evitem comportamentos de risco e em caso de dúvida, contactar o SNS 24 (800 24 24 24).

Como bom optimista que se considera, Luís Rosa acredita que tudo vai passar e que é só uma questão de dar tempo ao tempo. Recordo-me de a minha avó paterna me dizer que não conheceu o avô porque este havia morrido em 1920 com a pneumónica (gripe espanhola) e encaro esta doença, e tudo isto, como mais um ciclo da natureza que a humanidade tem de ultrapassar. Mesmo sendo cada caso um caso, o advogado diz que o importante é não desvalorizar ou menosprezar a doença ou o vírus e é a favor da vacinação, ainda que com alguma reserva. Ainda quero ver os resultados em quem já tomou para tomar uma decisão final, obviamente tendo em consideração o que os médicos que me acompanham vão dizer.

Gonçalo Fernandes teve mais sorte com a doença mas menos com os efeitos colaterais, uma vez que ficou desempregado em plena crise e se sente ansioso por ter a vida condicionada. Que conselho atira? Parece uma frase clichê mas é bem verdade: Não acontece só aos outros. É importante nestas alturas não olhar somente para nós, é também importante ter todos os cuidados possíveis para tentar não contrair o vírus nem transmitir aos outros. De acordo com o portal oficial do Serviço Nacional de Saúde, hoje, 23 de Janeiro de 2021, o número de mortes por Covid-19 ultrapassou a barreira das 10 mil em Portugal desde o início da pandemia e são cerca de 160 mil os casos activos. 

Texto: Filipa Queiroz
Fotos: Pixabay,  Michael Schwarzenberge (Pixabay), Becca Schultz (Unsplash), Marcelo Leal (Unsplash), Frank Bush (Unsplash), Prasesh Shiwakoti (Unsplash), Miriam Alves Madeira, Mufid Majnun (Unsplash), Noah (Unsplash), Hakan Nural (Unsplash) 

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