ARTE AO DOMICÍLIO | Rui Velindro, Fotógrafo

A artista plástica Gabriela Torres convida à reflexão sobre a relevância da arte em tempos isolamento, através de uma série de entrevistas a artistas plásticos, fotógrafos, ilustradores, entre outros, abordados sob diversas perspectivas consoante a sua natureza mas sempre com a temática da figura humana como fio condutor.

- Rui, fale-me um pouco sobre o seu percurso artístico.

- Comecei com vários cursos de fotografia e laboratório quando tinha 14 anos. Depois, entrei na licenciatura de História da Arte em Coimbra e com as máquinas fotográficas digitais redescobri a fotografia acabando por me juntar ao jornal universitário (ACABRA), feito por estudantes de jornalismo, colaborando como fotojornalista e passado pouco mais de um ano tornei-me editor de fotografia do mesmo jornal. Entretanto comecei a fazer pequenas exposições em cafés e bares com alguns amigos que ia conhecendo e partilhavam da mesma paixão da fotografia.

Fui frequentando workshops com fotógrafos mais experientes e ao mesmo tempo tirei um curso do CENJOR, que me ajudou muito na área do fotojornalismo. Com uns amigos criamos o Grupo de Fotografia da Associação Académica de Coimbra que agora é a secção de fotografia da AAC. Quando acabei o curso, entrei no Ar.Co, onde tirei curso de fotografia e durante o curso trabalhei como editor de fotografia numa editora que publicava várias revistas ligadas à área de Medicina. Ao mesmo tempo, ia expondo e criando eventos ligados à fotografia durante essas exposições. Um desses eventos é a Feira do Livro de Fotografia, que teve a sua 10º edição em 2019. Pontualmente dei algumas palestras sobre fotojornalismo universitário ou sobre projectos pessoais, fiz workshops ligados à fotografia e tenho andado a trabalhar em regime freelance, a fazer vários trabalhos em várias áreas tendo deixado de apostar tanto nas exposições.

- Qual é a importância da figura humana no seu trabalho?

No meu trabalho a figura humana foi sempre central e o foco, uma vez que pratico muita fotografia documental e fotojornalismo. No entanto quando fotografo paisagens a figura humana tem por vezes uma presença mais secundária mas nunca deixa de ser importante.

- É historiador de arte, isso influencia a fotografia?

- Completamente, porque ganhei sensibilidade, noções e inspirações que são essenciais no meu trabalho. Obtive conhecimentos de estética e ao mesmo tempo de composição que se tornaram parte de mim sempre que vou fotografar. Aprendi o passado das artes e tento antever o futuro da fotografia, com base no que se passou na história da arte no geral. Também fiquei com noção e sensibilidade do valor de cada imagem seja como a vemos, como a tratamos ou como a guardamos. 

- Qual é o valor da fotografia nestes tempos de maior isolamento?

- Em termos fotojornalísticos são muito grandes para nos informar visualmente do que se passa no mundo, dando o exemplo concreto dos fotojornalistas italianos que nos mostraram, no início desta pandemia, o que se passava em Itália que podia acontecer por cá. Em termos documentais também é muito importante para não nos esquecermos no futuro do que se está a passar neste momento e assim podemos ter uma abordagem que nos permita manter o nosso estilo de vida. Mas, no essencial, neste momento, a fotografia está parada porque estamos em isolamento e os fotógrafos também (tirando os fotojornalistas). Por outro lado muitas fotografias que vemos da pandemia só nos trazem ansiedade sendo que, à parte de alguns raros projectos interessantes, as restantes imagens são pessoais do confinamento partilhadas por todos nas redes sociais com algumas criações ou hobbies que fazem para se distraírem do que se passa, e eu pessoalmente faço o mesmo. 

- Algum tema que considere importante ou projecto que queira divulgar.

- Quero abordar o tema da impressão que é pouco falado e é um tema reflito muito desde há uns anos para cá. Cada vez se faz menos impressões fotográficas, o que é pena porque muitas memórias e muita história se perde pelos discos/pens/telemóveis/cds/dvds quando o método mais fiável de conservação continua a ser o álbum fotográfico. Com o digital muita gente prefere ter tudo guardado digitalmente até ao dia que se esquecem ou simplesmente perdem o que têm. A impressão é muito importante não só para conservar as memórias mas também para termos imagens de comparação a nível histórico. Penso que é um tema que devia de ser mais abordado e reflectido no espaço público porque não conta só o futuro da fotografia mas também o passado e o presente.

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