QUESTÕES COIMBRÃS | Um aeroporto em Coimbra faz ou não sentido e porquê?

O que é que perguntaríamos aos políticos da cidade se pudessemos? E o que é que cada um deles responderia? Estas perguntas foram o ponto de partida para a criação desta nova rubrica da Coolectiva e não precisámos de pensar muito no nome. Fomos buscá-lo à Questão Coimbrã, célebre polémica literária que marcou a visão da literatura em Portugal na segunda metade do século XIX. 

É importante entender o sítio onde se vive que, como todos, tem as suas idiossincrasias. Há sempre tanto coisas a resolver como coisas a aplaudir. A partir de hoje, atiramos perguntas sobre diversos temas de relevância municipal a pessoas de diferentes quadrantes políticos para lançar o debate democrático e plural. 

Acederam ao nosso desafio Carlos Cidade (PS), Filipe Reis (PAN), Francisco Queirós (CDU), Jorge Almeida (CDS), Jorge Gouveia Monteiro (Cidadãos por Coimbra), José Manuel Silva (Somos Coimbra), Paula Pêgo (independente). 

Durante cerca de um ano, contamos tratar aqui assuntos de interesse público para contribuir para um esclarecimento generalizado da população relativamente às posições e propostas políticas dos nossos inquiridos, nos mais variados campos. A qualquer momento, aqueles inseridos num partido ou movimento político têm a liberdade de designar outra personalidade do mesmo para responder. O conjunto de respostas a cada questão é publicado quinzenalmente aqui, na Coolectiva

Um aeroporto em Coimbra faz ou não sentido e porquê?

Jorge Gouveia Monteiro

Nascido em 1956, licenciou-se em Direito. Foi dirigente do PCP, membro da Assembleia Municipal e vereador da CM Coimbra. Foi administrador dos Serviços de Acção Social da Univeridade de Coimbra (UC) e um dos fundadores da associação Grupo Gatos Urbanos. É coordenador da direção do movimento Cidadãos por Coimbra. 
 
 
 
Não faz nenhum sentido. Coimbra está uma hora do aeroporto do Porto e hora e meia do de Lisboa. Coimbra precisa, isso sim, de ligação condigna à rede férrea de alta velocidade, que pode reduzir para metade estes tempos de acesso a esses aeroportos.
 
Um aeroporto é uma infraestrutura que acarreta inúmeros problemas, designadamente ambientais, na navegação mas também na logística de abastecimentos. Não podemos ir por esse caminho, o planeta não aguenta.

José Manuel Silva

Assistente hospitalar graduado de Medicina Interna dos HUC e professor auxiliar de Medicina Interna, foi pró-reitor da UC e Bastonário da Ordem dos Médicos. É coordenador do movimento independente Somos Coimbra e vereador sem pelouro da CM Coimbra. A preocupação com questões sociais tem-se traduzido em múltiplas intervenções públicas. 

O raciocínio sério sobre matéria tão complexa não cabe em 2000 caracteres, pois depende da política de transportes, nomeadamente quanto ao comboio de alta velocidade, da
provável futura proibição de voos de curta distância (por razões ambientais), da localização do aeroporto complementar à Portela, da atual crise dos transportes aéreos, de uma rigorosa avaliação dos custos, viabilidade efetiva e interesse das companhias aéreas, bem como do diálogo entre a CIM de Leira e de Coimbra.

Os aeroportos têm reconhecidos impactos económicos nos territórios onde se localizam, sendo importantes para a afirmação turística e desenvolvimento económico. A região
centro tem um potencial que não está devidamente rentabilizado, por várias razões, entre as quais a ausência de um aeroporto, mesmo sabendo, como ilustra o caso de Beja, que um aeroporto, por si só, não implica nenhum tipo de desenvolvimento, se as dinâmicas do território não necessitarem e não potencializarem esse pivot estratégico. Desde há 60 anos que se fala na abertura da BA5 de Monte Real ao tráfego civil. Nunca aconteceu por razões militares nacionais e europeias e pela incapacidade política dos autarcas da Região Centro. A mentirosa e demagógica promessa eleitoral do PS, feita sob palavra de honra, de construir o tal aeroporto internacional de Coimbra até final de 2021, morreu por impossibilidade técnica e financeira.

O Somos Coimbra (SC) e o MPT apresentaram uma moção na Assembleia Municipal de 28/02/20, contra o aeroporto do Montijo e a favor do aeroporto da Região Centro, que infelizmente foi chumbada por PSD, PS, CpC e PCP. O SC considera que as dinâmicas do centro do país demonstram a razoabilidade de um aeroporto civil na região, entre Condeixa e Pombal, mas é necessário resolver esta questão
com seriedade política, qualificados estudos técnicos atuais e capacidade de reivindicação da obra. Porém, não é essencial para o crescimento de Coimbra. No imediato deve
modernizar-se o esquecido aeródromo Bissaya Barreto.

Filipe Reis

Filipe Reis chegou a Coimbra em 1983 vindo de Tomar para estudar Economia e viver numa República. Docente do Politécnico de Coimbra (ISCAC) e Membro da CP Distrital do PAN, foi Administrador do IPC e SASIPC, Dirigente da AAC e do EUC, atleta da AAC-SF e co-fundador da AGIR pelos Animais e d’O Corvo.

Para responder com seriedade a esta questão precisaria de me apoiar em estudos de viabilidade económica e de impacto ambiental que, tanto quanto julgo saber, não existem.

Quando existirem, acredito que na melhor das hipóteses será pertinente a análise custo-benefício em termos de turismo.

Pelo contrário, são inúmeras as razões para defender a sua não construção e nem é preciso recordar os muitos elefantes brancos a começar nos 3 Estádios num raio de 30 minutos.

Desde logo por questões ambientais  maior diversidade de horários, defendemos a ferrovia como meio de transporte preferencial. É essa também a aposta da UE, sendo expectável que nos próximos anos sejam proibidos os voos até 600 ou mesmo 1000 kms.

Por outro lado, muitas cidades europeias têm aeroportos a 1 hora de distância. Ora, Coimbra já tem o aeroporto do Porto a 1 hora e com uma oferta que Coimbra nunca poderá ter por uma questão de procura. É muito mais económico, tem menos impacto ambiental, e permite um muito melhor serviço à população da região de Coimbra ou a quem nos visita garantir que entrando no metro no aeroporto Sá Carneiro, 1 hora depois se está em Coimbra B. Tal passa necessariamente pela ligação direta Aeroporto-Campanhã e pela oferta de horários articulados e compatíveis. Não depende de Coimbra, mas beneficiando um vastíssimo território é mais fácil conseguir o apoio da administração central e das outras regiões beneficiadas.

Resumindo, mesmo com aeroporto em Coimbra, a maioria esmagadora dos voos que os munícipes têm necessidade de fazer teriam que ser apanhados no Porto ou mesmo em Lisboa, pelo que é muito mais importante a ligação ferroviária aos 2 principais aeroportos do país. O mesmo é válido para as viagens de negócios. Fica por avaliar, nos estudos que não temos, o impacto no turismo, devendo a análise custo-benefício ser efectuada por comparação com as ligações ferroviárias referidas e se possível com a anunciada intenção da nova linha ferroviária de velocidade elevada.

Paula Pêgo

Doutoranda em Ciência Política (área governação), em fase de tese, na Universidade de Aveiro, é licenciada em Direito, pela Faculdade de Direito da UC. Exerce o cargo de jurista na empresa municipal Águas de Coimbra, E.M., é administradora não executiva da empresa Metro Mondego S.A. e vereadora sem pelouro na CM Coimbra.

Começo por referir que um aeroporto de cariz internacional é uma infraestrutura estratégica para o desenvolvimento de um País e a sua construção implica um investimento avultado.

Assim sendo, o processo de tomada de decisão de construir uma infraestrutura desta dimensão, independentemente da sua localização, passará sempre pelo nível nacional.

Neste contexto, a resposta à questão colocada é complexa pois encerra em si várias dimensões que devem ser objeto de uma análise custo-benefício, nomeadamente o impacto do aeroporto no desenvolvimento económico e social, no ambiente e qualidade de vida, no ordenamento do território, bem como a própria sustentabilidade financeira da referida infraestrutura.

A escolha da sua localização deverá atender à necessária e adequada ponderação entre a sua área de influência, ou seja, a procura dos serviços que presta, a articulação com outros meios de transporte, particularmente a ferrovia, a proteção do ambiente e da qualidade de vida e contribuir para a coesão territorial.

O debate público em torno da construção de um novo aeroporto no País tem várias décadas. O documento “Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030 – Análise dos contributos”, de António Costa Silva, refere que a existência de ligações aéreas internacionais, bem como, de uma cobertura aeroportuária adequada, são fatores determinantes para o aumento da competitividade da economia Portuguesa e para o desenvolvimento do País. Neste contexto, a construção de uma infraestrutura
aeroportuária na Região Centro que sirva o País deverá ser uma solução a ponderar e a
debater.

Ao nível regional importa referir que “A Visão Estratégica para a Região Centro 2030“, da Comissão de Desenvolvimento e Coordenação da Região Centro (CCDRC), a Comunidade
Intermunicipal da Região de Coimbra (CIM_RC) e o Município de Coimbra defendem a construção de uma infraestrutura aeroportuária na Região Centro, por forma a promover o desenvolvimento económico e social e a coesão territorial. Aqui chegados, é o tempo de percorrer o caminho com vista a construir uma infraestrutura aeroportuária na Região Centro que sirva Coimbra e o País!

Carlos Cidade

Licenciado em Direito, exerce no Núcleo de Apoio Jurídico da Águas do Centro Litoral, SA (Grupo Águas de Portugal). Foi dirigente sindical, adjunto e chefe de gabinete do presidente da Câmara Municipal (CM) de Coimbra e vereador. É vice-presidente da CM Coimbra e membro da Comissão Nacional do PS.

Sim, faz! Duvido que alguma força política diga o contrário, é uma das falhas da nossa visão geral de território. Temos o país dividido em cinco grandes “Regiões” operacionais mais duas Regiões Autónomas e a única que não tem uma infraestrutura aeroportuária comercial e internacional é a Região Centro. Isto, per si, serviria para dizer muito dessa lacuna infraestrutural, mas esta não é uma região qualquer, serve cerca de dois milhões trezentos mil habitantes (de acordo com o Census 2011) correspondendo a cerca de 22% da população e
servindo 31% da área de Portugal, se compararmos com o Algarve (que tem aeroporto desde 1965) com apenas 6% da população de Portugal (450 mil habitantes de acordo com o Census 2011), que razões querem encontrar para falar da necessidade imperiosa da Região para não ter um Aeroporto?

São cerca de trezentos quilómetros entre Lisboa e Porto, que por sua vez têm aeroportos saturados e ou com ligações insustentáveis, deixando pelo meio uma região com uma oferta turística, académica e empresarial de alta relevância que gira à volta do centro da Região, da nossa Coimbra. A Região de Coimbra é, assim, um centro de atração de turismo que vai desde Coimbra ao santuário de Fátima, da Serra da Estrela à Figueira da Foz, da Ria de Aveiro ao Castelo de Leiria, serve 3 Universidades e 6 Institutos Politécnicos e com uma capacidade e oferta industrial e empresarial que é um dos grandes motores do país.

Não precisaríamos da sobrelotação de Lisboa, para falar do direito óbvio destas populações terem este investimento que pode ser (como é nos outros Aeroportos) motor de ainda maior desenvolvimento e podendo ser um dos maiores criadores da tão apregoada coesão territorial.
Muitos tentam atrasar e emperrar o que o PS/Coimbra avançou nesta matéria, Manuel
Machado deu o murro na mesa e disse que basta de adiamentos e desculpas com Monte Real
(que já todos sabemos que nunca vai avançar pela sua relevância estratégica militar e porque é uma proposta que se arrasta há anos, sem solução à vista), e pusemos o assunto na ordem do dia. Primeiro era loucura, depois era imperativo e todos (de todas as cores políticas), repito TODOS, os Presidentes da CIM-Região de Coimbra tomaram este projeto como seu e como
investimento estratégico essencial para o Centro.

Quem disse que era promessa eleitoral descabida vê agora o Aeroporto integrado na visão estratégica para o Plano de Recuperação e Resiliência Económica, liderado pelo Eng.º Costa e Silva, apoiado pelas populações e instituições, podem continuar a criação de entraves, desculpas e problemas, mas o PS estará cá para voltar a transformar loucuras e sonhos em direitos e realidades que promovem o desenvolvimento de Coimbra, da Região e do País.

Francisco Queirós

Tem 56 anos e é natural de Coimbra. Professor de História do Ensino Secundário, é vereador da CM Coimbra. Exerceu diversos cargos de gestão escolar, foi delegado sindical, dirigente sindical e associativo. Militante do PCP, é membro do Comité Central do PCP e tem vasta colaboração em órgãos de comunicação social.

Coimbra é uma cidade de média dimensão no conjunto das cidades portuguesas, ocupando uma posição de charneira na região centro. O seu desenvolvimento passa pela optimização das suas potencialidades. Cidade do conhecimento, da saúde, da cultura, tem de ser cada vez mais, como o país em geral, também um forte centro da necessária retoma do tecido produtivo.

A mobilidade e os transportes assumem, pois, um papel determinante para o desenvolvimento da região. Mas tal significa que Coimbra precisa de um grande aeroporto internacional? Não! Dir-se-á que este não é um discurso politicamente correcto. Não é, de facto populista. Pois não é! Este é o discurso realista e que verdadeiramente serve ao desenvolvimento de Coimbra e da região. Coimbra está suficientemente próxima de dois grandes aeroportos nacionais. De Lisboa, a cerca de hora e meia, e do Porto, a uma hora de distância. Tal não significa que não
se invista na melhoria das estruturas adequadas e de ligações aéreas regionais. Coimbra precisa sim de melhorar as suas ligações rodoviárias, tornando-as mais seguras, acabando de vez com os dramáticos números de acidentes.

Coimbra e a região carecem fundamentalmente de melhores transportes ferroviários, do reforço da rede ferroviária nacional. O futuro passa, e desde já, pela aposta na ferrovia, tão maltratada nas últimas décadas. Aliás, parece ser esse também o discurso oficial do governo. Cumpra-se então! O comboio é um transporte seguro e o que melhor cumpre a sustentabilidade ambiental. Às opções populistas e demagógicas, nós respondemos com a opção no desenvolvimento sustentado que implica uma melhoria efectiva da qualidade de vida dos conimbricenses e de todos os restantes habitantes da região.

Jorge Almeida

Tem 53 anos e é presidente da Comissão Política Distrital do CDS-PP, bem como professor adjunto no Instituto Superior de Engenharia de Coimbra. É investigador, membro sénior e especialista da Ordem dos Engenheiros. Colunista no Jornal Económico, é consultor e ex-director técnico de várias empresas e também ex-oficial do Exército. 

Um aeroporto é uma infraestrutura  complexa, pelo que a resposta não pode ser simplista dado o investimento inerente à construção, exploração e manutenção ser extremamente elevado. A eventual construção desta infraestrutura, em Coimbra, carece de estudos aprofundados que demonstrem cabalmente a sua sustentabilidade económica e deverá também ser considerada a optimização de infraestruturas, por exemplo, a possibilidade de utilização mista (civil e militar) da Base Aérea de Monte Real como acontece na Noruega (Bodø).

Segundo os padrões actuais de mobilidade, um dos mais importantes factores, a ter em consideração, é o tempo de acesso a um aeroporto. Caso existisse uma ligação ferroviária rápida e directa aos aeroportos do Porto ou Lisboa, a partir de Coimbra, a questão em epígrafe estaria naturalmente resolvida, dado o Aeroporto do Porto ficar a menos de 30 minutos em alta velocidade (AV). Estando a ligação ferroviária, em AV, prometida pelo governo PS e caso venha a ser realidade, então não será necessária a construção de um aeroporto, em Coimbra.

No actual contexto, não podemos esquecer o momento adverso para toda a aviação mundial e a injecção de capital necessária para a TAP, para além das dificuldades económicas, do país, devido à pandemia, cujo impacto económico ainda está longe de ser quantificado e que certamente originará défice nos próximos anos. Por outro lado, o país não pode suportar mais a longa história de investimento público falhado baseado em decisões políticas, pouco fundamentadas, suportados pelos impostos dos portugueses, originando uma carga fiscal que atinge de forma exagerada as famílias e as empresas,
tornando Portugal um país pouco competitivo para o investimento.

Em suma, a decisão carece de um estudo independente e aprofundado. Caso se venha a demonstrar, com sensatez económica, que um aeroporto faz sentido em Coimbra, face à dimensão populacional da região e que o
investimento permite, de facto, melhorar a conectividade do país, o mesmo deverá ser construído.

Próxima Questão Coimbrã:

Como captar e manter talento no concelho de Coimbra?

  

* Biografias da autoria dos inquiridos e editadas pela Coolectiva; respostas copiadas ipsis verbis. 

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