SINGULARES IV

Cresci, vivi e estudei em Coimbra e foi quando comecei a trabalhar que saí para Lisboa. Fugi ao habitual percurso de recém-licenciados em Direito que acabavam num escritório de advogados, para sempre ou como alavanca para futuras carreiras. Sempre havia gostado do lado da gestão, da parte mais empresarial, por isso escolhi uma consultora e foi assim que começou a minha vida profissional.

O meu emprego proporcionava-me uma almofada financeira interessante para fazer de viver em Lisboa uma boa experiência. Não obstante, passados uns tempos comecei a sentir uma certa inquietude. Sentia-me desconectado da cidade. Nunca desliguei de Coimbra, vinha cá frequentemente aos fins de semana. Tinha um pé lá e outro cá e começava a sentir-me perdido na confusão de logística que uma cidade como Lisboa implica. Vivia com a minha namorada, que também é de Coimbra, e tínhamos um sólido grupo de amigos que me permitiu mascarar este sentimento de deslocação durante muito tempo, mas, ao final de cinco anos, houve uma altura em que a vontade de mudar foi muito clara e estudei logo as hipóteses de a concretizar.

O Porto apareceu como uma solução relativamente simples: permitia-me uma mudança dentro da mesma empresa, também oferecia opções para a minha namorada e dava-nos ainda a possibilidade de gerir melhor a nossa vida familiar em Coimbra.

Fui para o Porto sem grandes ideias feitas da cidade, mas confesso que já tinha alguma expetativa, esperava uma Lisboa em ponto pequeno, uma capital logisticamente suportável. A verdade surpreendeu-me: ao invés encontrei uma cidade como Coimbra, mas em ponto grande.

A mudança fez-me bem e durante algum tempo foi o suficiente para calar a tal inquietude que sentia. Nos primeiros tempos consegui encontrar um equilíbrio genuíno entre o trabalho e a minha vida pessoal: aproveitei a cidade, tinha tempo para cozinhar ao final do dia e comecei a correr — até participei numa meia-maratona! A curta distância do Porto aqui tornara a relação com Coimbra mais dinâmica, passámos a conseguir vir almoçar ou jantar sem dificuldades, mesmo durante a semana, o que nos permitia passar lá todos os fins de semana.

Apesar de ter vivido no Porto menos tempo do que em Lisboa, senti a cidade muito mais como casa. Não fui infeliz em Lisboa, serviu-me aquela fase da minha vida, mas sinto que o Porto foi um casamento bem mais feliz com a minha personalidade.

Estava bem, mas não durou muito tempo. A sensação de não estar no caminho certo, ou de não saber qual seria o caminho certo, mas ter a certeza de que não era aquele onde estava, permanecia. Uma vez, uma pessoa com quem trabalhava disse-me: «Ainda não consegui perceber se gostas disto ou não». Ali estava eu, passados 6 anos naquela profissão, numa empresa que sempre me tratou bem, promovido há pouco tempo, a ganhar bem, com bons colegas e boas chefias, confrontado com uma pergunta básica cuja resposta dizia muito da minha desconexão. Foi um momento-chave para mim porque percebi imediatamente qual era a verdade. Naquele momento soube o que até então não tinha tido coragem de admitir: não gostava mesmo nada do que fazia. Sabia que a vida tinha de ser mais que aquilo.

A minha vida e o trabalho eram duas coisas distintas. O trabalho era uma obrigação e segmentava-os com determinação. Estava infeliz precisamente porque sentia que o meu trabalho começava a invadir a minha vida e isso inquietava-me. Eu tinha de trabalhar e só quando saía de lá é que podia viver. Esta pausa diária na minha existência era uma angústia, eu não encontrava propósito naquilo que passava a maior parte do dia a fazer. Quando falo disto, muita gente sugere que tenho uma história maquiavélica de abuso no trabalho como alavanca desmotivadora, mas a verdade é que não tenho. A empresa tratou-me bem, senti-me acarinhado e tinha um excelente feedback do meu trabalho. A minha mudança não foi uma atitude reativa. Sei que há pessoas realizadas lá e sei que há quem invejasse a minha vida, há muitas pessoas que são felizes com aquele tipo de vida profissional. Só que eu não era. Aquilo não era para mim e foi tão angustiante como libertador percebê-lo.

Se num primeiro momento achei que a minha mudança podia ser algo que planeava durante os tempos livres, logo percebi que não tinha espaço mental para trabalhar o dia todo num sítio e depois de sair congeminar um plano para o passo seguinte. Aceitei que tinha de dar o passo de sair de lá mesmo antes de ter a fase seguinte da minha vida descodificada. Assim fiz. Em janeiro de 2020, demiti-me. Coincidências da vida que me mostraram que realmente há coisas que não se planeiam ao pormenor, a pandemia chegou entretanto. Os meus últimos quinze dias na empresa foram em confinamento, nem pude despedir-me decentemente das pessoas com quem trabalhava.

O meu caminho até aqui aconteceu de forma muito natural e orgânica. Numa conferência online sobre o papel da tecnologia no combate à Covid-19 conheci umas pessoas interessantes e acabei por integrar o projeto onde estou agora. Com o aumento exponencial do trabalho à distância surge a possibilidade de se trabalhar a partir de novos locais e de se sair dos centros urbanos onde se estava unicamente por causa do trabalho. O projeto em que estou pretende ser uma plataforma de apoio a estas pessoas que querem sair das grandes cidades e instalar-se em locais mais remotos, rurais e com baixa densidade populacional. Está a correr bem, já conseguimos coisas muito interessantes.

Ao fim de uns meses, e consciente que já nada me prendia ao Porto porque já não trabalhava lá, mudei-me para Coimbra. Regressei a casa. Trabalho em qualquer lugar por isso posso estar onde quero. E quero estar aqui. Já não existe separação entre o trabalho e a minha vida. Agora sinto que tenho uma vida profissional e uma vida pessoal e são ambas a mesma coisa e não tem mal. Sei que não é para todos, mas aquilo que não sabia quando
terminei a faculdade, ou, aliás, que sabia, mas não tinha tido a sensibilidade de o perceber,
é que há muitos caminhos e muitas formas de estar e trabalhar, só temos de encontrar a nossa.

A primeira pessoa que tive de convencer foi a mim mesmo. Durante um tempo ouvi
como meus todos aqueles pensamentos conservadores sobre mudanças de profissão: trocar o certo por incerto, trocar um bom emprego e bom salário por não saber o que fazer, deixar um emprego estável por uma ideia pouco definida, pensar que me podia arrepender e depois não ter um caminho de volta. Mas a dada altura deixei de ouvir esses medos e ouvir
só aquele lado que me dizia que aquele trilho por onde andava não era o meu caminho. A pergunta que muitos fazem é «e onde estarás daqui a um ano?». A descodificação do futuro e o que me oferecerá é a medida do sucesso de muitos. Deixou de ser a minha. Prefiro olhar para trás, para o que já fiz desde que tomei a decisão. Agora já não há inquietude. Às vezes, mesmo quando não sabemos onde nos vai levar certo caminho, sabemos que é o caminho certo.

Texto e fotografia de Ana Sousa Amorim

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