Dia de Reis, velhas bondosas, presentes e (mais) bolos

O 6 de Janeiro é conhecido entre nós, portugueses, como o Dia de Reis. Na tradição cristã, representa o dia em que Jesus Cristo recém-nascido a 25 de Dezembro, recebeu a visita de Belchior (ou Melchior), Baltazar e Gaspar, magos oriundos da Europa, Ásia e África que, guiados por uma estrela, terão chegado a Belém com ouro, incenso e mirra para oferecer ao Menino.

Na página do Museu Nacional de Machado de Castro no Facebook há uma Estrelinha que conta a história do também conhecido como Dia da Epifania, que encerra a quadra natalícia para os católicos, desmontando-se os presépios e retirando-se todos os enfeites natalícios que animaram a casa nas últimas semanas.

Em Portugal, não é feriado como noutros países mas manda a tradição reunir de novo a família à mesa, com uma ementa tradicional semelhante à do Natal – bacalhau com as batatas cozidas, bolo-rei, pão de ló, rabanadas, sonhos, entre outros. Só a banda sonora é que muda: é hora de cantar as Janeiras. Há grupos de pessoas que cantam de porta em porta e como agradecimento recebem comida e bebida.

Curiosamente, o Dia de Reis pode ser vivido de formas bem diferentes no mundo inteiro. Se uma família for de várias nacionalidades então, os mais novos podem deliciar-se com várias tradições em simultâneo de manhã até à noite. Mostramos algumas. 

La Befana

Em Itália, há uma velha bondosa que é uma espécie de Pai Natal do folclore nacional. Reza a lenda que os três reis magos se perderam no caminho para Belém e pararam na casa de uma senhora que lhes terá explicado o caminho. Quando a convidaram para se juntar a eles no dia seguinte, ela disse que não podia mas mais tarde arrependeu-se, reuniu alguns presentes para o bebé e partiu. Como não conseguiu dar com o caminho certo, decidiu deixar presentes na casa de todas as crianças que encontrou. Hoje em dia, as crianças italianas recebem pequenas guloseimas da Befana na Epifania, às vezes dentro de meias penduradas à janela, mas só as que fizeram boas acções. Às que se portaram mal, a personagem, que terá sido inspirada na deusa sabina/romana Strina, deixa pedaços de carvão. Porquê uma velha? Porque simboliza o ano velho que fica para trás em contraposição ao novo, por sua vez representado pelo menino Jesus. Ah, e a tradição também recomenda que se deixe uma garrafinha de vinho e uma porção de um prato típico ou local para a benfeitora viajante.

Natal das Mulheres 

Na Irlanda, o Dia de Reis é conhecido como o Natal das Mulheres- Nollaig Bheag – ou Pequeno Natal porque elas tiravam finalmente o dia para descansar, depois do trabalho que tiveram entre o Natal e o Ano Novo. Neste dia, grupos de mulheres juntam-se e partilham uma refeição ficando os homens encarregues pelas tarefas domésticas. 

 

Rosca de Reyes

Em Espanha e países como o México, Argentina e Uruguai, o bolo-rei é semelhante ao nosso mas chama-se rosca de reyes. Em Espanha e no México, é neste dia que se trocam os presentes e em algumas cidades espanholas organiza-se o cortejo dos Reis Magos, a que chamam de Cabalgata de Reyes. Os Reis Magos desfilam em carros bem decorados, acompanhados de muitos cavaleiros e lançam doces a quem assiste. Também é comum oferecer carvão de azúcar às crianças. Na Argentina e Uruguai, as crianças deixam um sapato junto à porta com erva e água para os camelos dos Reis Magos.

Loppiainen

Na Finlândia, a tradição é fazer bolachas de gengibre em forma de estrela, as Piparkakut, e ao mesmo tempo pedir desejos. A bolacha é partida na palma da mão em três pedaços e comida em silêncio, para o que os desejos se realizem.

Folia dos Reis

No Brasil, os católicos juntam-se a tocar diversos instrumentos, seguindo as ordens do Mestre de Folia, da Folia dos Reis. A data comemora-se com festas onde se servem doces e comidas típicas das diversas regiões. No Estado do Louisiana, o Dia de Reis marca o início das preparações do Carnaval e é habitual comer o king cake, semelhante ao nosso bolo-rei, até à celebração do Mardi Gras (terça-feira Gorda). 

Heilige Drei Könige

Na Alemanha, as crianças disfarçam-se de Três Reis Sagrados (Heilige Drei Könige) e escrevem as iniciais do nome nas portas das casas. Muitas saem pelas ruas em todo o país como Sternsinger, cantores da estrela, e marcam nas casas por onde passam C+M+B, do latim Christus mansionem benedicat que significa Cristo abençoe este lar e iniciais dos reis em alemão: Caspar, Melchior e Balthasar. Depois de cantarem, recebem presentes e também donativos para projectos de apoio a crianças carenciadas. É mesmo uma gigante campanha de solidariedade, centenas de milhões de euros já terão sido direcionados para África, América Latina, Ásia e Europa Oriental. Na Holanda, Bélgica e Luxemburgo também é habitual que grupos de três crianças andem de porta em porta a entoar canções e, em troca, recebem dinheiro ou doces. 

Texto: Filipa Queiroz
Fotos: Museu Nacional de Machado de Castro (Adoração dos Magos, Séc. XVI), Feast Day  (autor desconhecido), Pixabay, Unsplash, Pinterest