COIMBRA NO MUNDO | Arábia Saudita

Vivo em Riade, capital da Arábia Saudita.

Todos sabemos de cor qual foi o nosso primeiro dia no Reino. O meu foi 21 de Maio de 2016.
Depois de tirar a licenciatura em Aveiro, aos 20 anos, mudei-me para Milão onde permaneci por cerca de quatro anos.
O que, no início, seria uma curta estadia no âmbito do programa Erasmus, tornou-se numa grande experiência que durou até 2014, quando regressei para Portugal.
Após outro breve período em Lisboa, fui convidado a integrar um projecto muito interessante na minha área profissional – estratégia de marca – em Riade.
À primeira, ainda rejeitei a proposta. Pesquisar ‘Arábia Saudita’ no Google em 2016 não era uma tarefa aconselhável. O histórico de Direitos Humanos, o estilo de vida, o regime político, o clima…nada contribuía para uma boa percepção do Reino. No entanto, repensei a recusa, ganhei coragem e cá estamos nós, a 21 de Maio de 2016. 

Não consigo imaginar uma cultura mais diametralmente oposta a nossa. 

Comecemos pelo básico.
Todos os estabelecimentos comerciais fecham cinco vezes por dia para a reza.
No Verão, as temperaturas podem superar os 50 graus. As mulheres vestem-se de forma extremamente modesta por forma a ocultarem as formas do corpo.
O fim-de-semana começa à sexta-feira e o primeiro dia de trabalho é ao Domingo.
Come-se camelo.

No entanto, ao longo da minha estadia, a Arábia mudou para um país irreconhecível aos olhos de quem a viu, pela primeira vez, há quatro anos atrás.
As mulheres passaram a poder conduzir, as liberdades sociais foram alargadas, turistas já podem visitar o Reino, entre muitas outras iniciativas que pautam uma reforma profunda de aproximação aos costumes ocidentais.

Se há quatro anos eu só me queixava de cá estar, hoje adoro cá viver.

Gosto de saber que estou a descobrir a cultura Saudita ao mesmo tempo que os próprios Sauditas.
Ao longo de toda a sua existência (desde 1932), toda a cultura Saudita foi centrada na religião. Recentemente, tem havido um esforço de promover a cultura iconográfica não religiosa do país junto da sua própria população.
Por razões profissionais, estou muito próximo desse esforço e é muito interessante perceber que quase já sei mais sobre a cultura Saudita do que muitos locais.
Eles tem uma cultura incrível que absorveu imenso da elevada exposição às tribos e povos mercantilistas ao longo dos séculos (incluindo os portugueses).
Dado que o entretenimento ainda é escasso, cada fim-de-semana é uma nova oportunidade para explorar mais um recanto escondido do deserto, uma mesquita ou um antigo palácio no meio do nada.
 
Apesar da evolução social recente, a Arábia Saudita ainda tem muito que caminhar para se tornar num país acolhedor a muitos níveis.
Muitos sauditas ainda vivem num conflito entre os valores do passado e o que sabem ser um inevitável futuro mais aberto e tolerante.
A mudança necessária para que esse passo seja dado definitivamente exige uma renovação geracional e isso ainda vai demorar.
Apesar de serem um povo altamente acolhedor e simpático, no meu dia-a-dia ainda vejo muitos vestígios do passado.
 
Exemplo: já me obrigaram a ir rezar a uma Mesquita mesmo quando o meu título de residência diz ‘non-muslim’. É bom ter barba grande e inserir-me bem no contexto, mas há vezes em que isso não ajuda…

Já há muitos anos que Coimbra, para mim, e sinónimo de férias ou fim-de-semana.

Tenho uma visão muito romantizada da cidade: infância, adolescência e, daí em diante, descanso.
Talvez porque a cidade não muda, as saudades também não mudam.
Tenho saudades de jogar futebol no campo da Quinta da Maia.
Tenho saudades de uma noite fria na Praça da República.
Tenho saudades do ‘meu’ café.
Tenho saudades do Restaurante Manuel Julio (administrativamente no Concelho da Mealhada mas Honoris Causa do Concelho de Coimbra, no coração de todos os Conimbricences).

E porque as saudades são de Coimbra no meu passado e não de Coimbra em si, isso, infelizmente, diz muito da cidade.

Antes da pandemia, conseguia ir a Coimbra pelo menos quatro vezes ao ano.
Tenho a sorte de poder sair de casa numa noite em Riade e à hora de almoço do dia seguinte já estou em Coimbra.
 
Dado que as opções culinárias em Riade não abundam (e tanto bebidas alcoólicas como carne de porco são proibidos), o regresso a casa de qualquer expat na Arábia acrescenta um novo F aos três do costume – food.

Todas as idas a Coimbra são meticulosamente coreografadas em volta das receitas que queremos recordar em cada estadia. 

Muitos são os locais inevitáveis numa ida a casa. Um café no ‘Galerias’, um jantar na Baixinha…mas de todos esses só há uma verdadeira constante: a Autoridade Tributária. Não há ida a Portugal que não tenha que entregar mais um papel…
 
Infelizmente, o encanto de Coimbra está no brio que aplica à preservação do seu passado.
As tradições são mais importantes do que o futuro. As instituições são mais importantes do que as pessoas. E os apelidos são mais relevantes que a proximidade.
 
Coimbra vive num ciclo vicioso de beleza do antigo e ausência de visão.
 
E assim desde que me lembro.
Gostava que Coimbra saísse do seu eterno bloco Universidade – Hospital – Académica (as duas).
Talvez com novos players de peso, Coimbra se desequilibrasse e, daí, surgisse algo de interessante.
Coimbra é família e só isso basta para voltar. Mas só de fim-de-semana.

José Bronze

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