Os vossos caminhos já se cruzaram com o novo Dão?

Quando somos jovens não queremos nada que os nossos pais tivessem feito ou comprassem, diz Graça Silva, justificando alguma tendência para os consumidores mais jovens não se sentirem tão atraídos para os vinhos do Dão. Há 40 anos na antiga Federação dos Viticultores do Dão, sabe bem o que a casa gasta na segunda região demarcada de vinhos do país, conhecida como a Borgonha Portuguesa. Mas Lígia Santos, directora geral da Caminhos Cruzados, é a prova de que não é bem assim e de que há um novo Dão que está muito bem de saúde e recomenda-se.

Estivemos em Vilar Seco, no concelho de Nelas, distrito de Viseu, mais propriamente na Quinta da Teixuga. A propriedade de 30 hectares, rodeada pela Serra da Estrela e o Caramulo, é o berço de vinhos como Titular e Clandestino. Graças às excelentes amplitudes térmicas para uma boa maturação das uvas, que levam a um lento amadurecimento, os vinhos saem com aromas ricos e boa acidez. Há parcelas com cerca de meio século e algumas das melhores castas da região, tintas como a Touriga Nacional, Tinta Roriz, Jaen e Alfrocheiro ou brancas como Malvasia-Fina, Encruzado e Bical.

Mas voltemos ao início e à questão das gerações. Foi o pai de Lígia que começou a produção numa adega muito pequena no centro de Nelas, em 2012. Começou como um passatempo e com muita paixão, conta. Somos todos daqui mas estávamos afastados há algum tempo, quando o meu pai teve muita vontade de fazer este regresso; como tínhamos vinha e ele gostava da tradição quis transformar uma coisa familiar numa coisa um bocadinho maior.

As família passou a discutir nomes, rótulos e vinhos até que, em 2014, Lígia se despediu do emprego de advogada em Lisboa para se dedicar a 100% ao que se transformou num negócio e instalar-se na adega construída de raíz na Quinta da Teixuga. É um edifício colossal, de dois blocos de cimento que se cruzam (como o logótipo da marca), com capacidade para vinificar 400 mil litros. O projecto foi carinhosamente apelidada de O Novo Dão? e também faz enoturismo. Temos muitas visitas, o nosso maior público é o brasileiro mas este ano tivemos muitos portugueses, não foi mau, diz Lígia Santos. Quando não são ao vivo, são através do ecrã com provas digitais e transmissões em directo da vindima por videoconferência, uma invenção deste ano de contrangimentos provocados pela pandemia. 

Caminhos Cruzados

O nome da marca, distinguida como Produtor Revelação 2015 pela Revista de Vinhos, vem do pensamento familiar de que a vida não se faz sempre por caminhos rectos e que, pelo contrário, há percursos mais atípicos que nos levam a lugares incríveis. O lema é que cada vez que dois caminhos se cruzam, algo de fantástico pode acontecer, como acontece actualmente com os membros da família, com formações e vivências distintas, cujos percursos se cruzam no projeto.

Do Alfrocheiro (Dão D.O.P. 2016), Passado Reserva Branco (Dão D.O.P. 2015) e Descarada Branco Doce (2017) ao Clandestino Branco (2019) e Tinto (2017), passando pela incrível selecção Titular que inclui um Rosé e um Encruzado excepcionais. Os rosés têm tido um crescimento exponencial e já não são 'de senhora', dão muito trabalho a fazer porque há que escolher as uvas num estado de maturação que é difícil de obter e o processo depois é muito cuidadoso, a cor é um factor determinante, confidencia. Os preços ficam entre os 5,50€ e os 20€ e podem ser facilmente aquiridos na loja online.  

Solar do Vinho do Dão

Se quiserem saber mais sobre o vinho do Dão, nada como visita o Solar do Vinho do Dão, que alberga a Comissão Vitivinícola Regional do Dão, em Viseu. Além de poderem apreciar e visitar o belíssimo edifício histórico, edificado em 1399 e inserido na herdade e depois Paço do Fontelo - agora uma enorme área desportiva e parque de merendas público da cidade -, encontram lá um Welcome Center, com sala de provas, espólio documental e garrafas especiais como um Reserva de 1964 da União das Cooperativas do Dão e um exemplar de 1975 assinado por Amália Rodrigues, que terá sido confreira dos Enólogos do Dão.  

Casa da Ínsua

A cerca de meia hora de carro quer de Viseu quer de Nelas, em Penalva do Castelo, há um lugar especial e bem reservado onde podem provar sabores da região e dormir como uma espécie de príncipes. Chama-se Parador Casa da Ínsua e fica numa quinta de produção vinícola com o mesmo nome, premiada e em plena rota dos Vinhos do Dão, com  ligação ao Parque Natural da Serra da Estrela. O edifício é um Palacete Barroco do século XVIII que desde a entrada com paredes desenhadas à de inspiração oriental à sala dos retratos, com mobília oferecida pelo Marquês de Pombal, transporta para a história e vida do proprietário Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres, que a mandou construir quando regressou do Brasil, onde tinha sido Governador e Capitão-General de Cuiabá e Mato Grosso. Não deixem de dar um passeio também nos jardins estilo Alice no País das Maravilhas deste que é o único hotel português a integrar a prestigiada rede espanhola de Paradores de Turismo. O preço ronda os 140€/noite.

Texto e fotos: Filipa Queiroz

* A Coolectiva viajou a convite do Turismo Centro de Portugal

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