QUESTÕES COIMBRÃS | O Sistema de Mobilidade do Mondego dá resposta às necessidades da população?

O que é que perguntaríamos aos políticos da cidade se pudessemos? E o que é que cada um deles responderia? Estas perguntas foram o ponto de partida para a criação desta nova rubrica da Coolectiva e não precisámos de pensar muito no nome. Fomos buscá-lo à Questão Coimbrã, célebre polémica literária que marcou a visão da literatura em Portugal na segunda metade do século XIX. 

É importante entender o sítio onde se vive que, como todos, tem as suas idiossincrasias. Há sempre tanto coisas a resolver como coisas a aplaudir. A partir de hoje, atiramos perguntas sobre diversos temas de relevância municipal a pessoas de diferentes quadrantes políticos para lançar o debate democrático e plural. 

Acederam ao nosso desafio Carlos Cidade (PS), Francisco Queirós (CDU), Jorge Almeida (CDS), Jorge Gouveia Monteiro (Cidadãos por Coimbra), José Manuel Silva (Somos Coimbra), Marta Correia (PAN), Nuno Freitas (PSD) e Paula Pêgo (independente). 

Durante cerca de um ano, contamos tratar aqui assuntos de interesse público para contribuir para um esclarecimento generalizado da população relativamente às posições e propostas políticas dos nossos inquiridos, nos mais variados campos. A qualquer momento, aqueles inseridos num partido ou movimento político têm a liberdade de designar outra personalidade do mesmo para responder. O conjunto de respostas a cada questão é publicado quinzenalmente aqui, na Coolectiva

O Sistema de Mobilidade do Mondego dá resposta às necessidades da população? 

 

Nuno Freitas

Nascido em Coimbra, tem 49 anos. Foi dirigente estudantil, é médico anestesiologista. Foi deputado na Assembleia da República (Comissão de Saúde) e vereador da CM Coimbra. Fundou a empresa MEDSIMLAB em 2008 (IPN) onde é CEO. É amante de fotografia e rugby, pratica natação, futebol e padel. É casado e pai de 3 filhos, católico e canhoto.

 

Não creio. Encerrar a Estação Nova de Coimbra, arrancar carris e manter o apeadeiro de Coimbra-B é o maior erro estratégico de Coimbra pode fazer. Arriscamos perder o comboio da alta-velocidade, perder o acesso de comboio local, sub-urbano e regional ao centro da cidade e piorar o tráfego automóvel com centenas de novos autocarros e incentivo ao automóvel próprio. 2021 será o ano europeu da ferrovia mas Coimbra, em contra-ciclo, fecha estações e suprime o comboio. O passe combinado entre comboios, metro e autocarros em Lisboa e Porto tem um custo máximo de 40 euros mas em Coimbra, além de desintegrado, pode custar 90 euros e com vários transbordos – isto é boa resposta às necessidades da população? Julgo que não!

Paula Pêgo

Doutoranda em Ciência Política (área governação), em fase de tese, na Universidade de Aveiro, é licenciada em Direito, pela Faculdade de Direito da UC. Exerce o cargo de jurista na empresa municipal Águas de Coimbra, E.M., é administradora não executiva da empresa Metro Mondego S.A. e vereadora sem pelouro na CM Coimbra.

 

A concretização de um moderno serviço público de transporte coletivo de passageiros, com o objetivo de melhorar a mobilidade urbana e interurbana entre os Municípios de Coimbra, Miranda do Corvo e Lousã, é um desígnio do Poder Local com mais de 30 anos de existência, plasmado no Decreto – Lei n.º 70/94, de 3 de março, ao qual se associou o Estado Central, constituindo, assim, a empresa Metro Mondego. Hoje é imperioso concretizar o Sistema de Mobilidade do Mondego (SMM) a fim de proporcionar às populações uma oferta de serviço público de transporte, moderno, flexível, confortável, fiável, sustentável, bem como promover a coesão territorial e a regeneração urbana local. O SMM é um sistema de transporte rodoviário em canal dedicado que oferece um elevado nível de serviço, com duas linhas, a saber: a linha da Lousã e a linha do Hospital (com o seu términus no Hospital Pediátrico), numa extensão de 42 Km, com 41 paragens. Será operado por 35 autocarros elétricos, a baterias, de elevado desempenho ambiental e com um nível de conforto análogo ao que de melhor existe nos modos ferroviários (ar condicionado, acesso de nível à plataforma, adaptado para passageiros com mobilidade reduzida, abrigos especificamente concebidos para o sistema, disponibilidade de meios de venda de títulos em
todas estações, entre outros). A frequência prevista, em hora de ponta, é de um veículo a cada 5 minutos na linha urbana e um veículo de quinze em quinze minutos entre a Lousã e Coimbra e a cada 10 minutos entre Miranda do Corvo e Coimbra. O SMM permitirá a integração com outros modos de transporte público numa relação de
complementaridade com os Serviços Municipalizados de Transportes Urbanos de Coimbra e com os demais operadores de transporte público da região, prevendo a criação de um tarifário intermodal e da integração do sistema de bilhética a nível regional. A resposta é sim!

Ana Bastos

Professora no Departamento de Engenharia Civil da UC. É membro da Comissão de Especialização em Transportes e Vias de Comunicação, da Ordem dos Engenheiros e coordenadora de planos de Mobilidade Urbana. Autora de centenas de artigos sobre transportes, é vereadora sem pelouro da CM Coimbra pelo movimento Somos Coimbra.

 

Ao invés do modo ferroviário, o transporte rodoviário de passageiros está frequentemente associado a uma imagem negativa, dando resposta essencialmente a extratos sociais desfavorecidos. Por isso, a decisão política, assumida em 2017, baseada em critérios meramente economicistas e à margem de décadas de estudos, de abandonar o metro ligeiro de superfície e de substituir os carris por pneus (MetroBus) deveria, no mínimo, ter sido acompanhado de mais valias compensatórias, o que não aconteceu.
Pelo contrário, o projeto apresenta-se amputado de componentes básicas e deficitário a vários níveis, com perdas de qualidade, eficiência e atratividade. As dúvidas sobre a viabilidade do sistema de guiamento automático no trecho suburbano, fazem antever um sucessivo abaixamento da velocidade de operação para garantia da segurança nos túneis, pondo em causa a competitividade do sistema. O abandono da variante pela Fernão de Magalhães deixa de fora um grande centro de
procura. A decisão insustentada de não servir diretamente o polo I da UC, é um erro básico e dificulta a requalificação urbana e a gestão do estacionamento da zona, tal como exigido pela UNESCO. A eliminação do túnel de Celas traduzir-se-á em perturbações quer no trânsito local, quer nos peões. O projeto minimalista da Estação-B
inviabiliza a alta velocidade e a criação de uma interface intermodal. A exiguidade da intervenção, limitada ao canal, não prevê a exigível requalificação urbana e paisagística do espaço envolvente. Falta ainda conhecer outras componentes essenciais, cuja articulação tem de ser plena, como seja a integração de redes (com SMTUC e transbordo com os suburbanos), de informação e de bilhética. O Sistema de Mobilidade do Mondego era a oportunidade aguardada há décadas para estimular a alteração do paradigma da mobilidade em Coimbra, afirmando-se como a espinha dorsal de um sistema que se quer inclusivo e eficiente. Afinal, teremos acesso a
mais uma linha de autocarros. Coimbra merecia muito mais!

Carlos Cidade

Licenciado em Direito, exerce no Núcleo de Apoio Jurídico da Águas do Centro Litoral, SA (Grupo Águas de Portugal). Foi dirigente sindical, adjunto e chefe de gabinete do presidente da Câmara Municipal (CM) de Coimbra e vereador. É vice-presidente da CM Coimbra e membro da Comissão Nacional do PS.

A primeira questão que é preciso esclarecer: Não havia solução para o Metro quando o PS entrou na Câmara! Existia apenas um projeto abandonado, sem equipa, sem financiamento europeu e sem dotação no orçamento de estado. Hoje estamos em curso com a maioria das obras, e temos financiamento europeu garantido e a respetiva verba prevista no OE 2021. Essa é uma vitória que custou a alcançar e que “custa os olhos da cara” a muitos arautos da desgraça.

A segunda questão é sobre a tipologia de resposta e se ela responde às necessidades da população. Aí há uma resposta inequívoca: Sim, claro que sim! O que poderíamos debater seriam as questões de pormenor e dentro do plano real e não hipotético ou fantasioso. A solução do Metro em tipologia MetroBus Elétrico foi a única solução encontrada para haver financiamento europeu, não iriamos ter esse financiamento se mantivéssemos a aposta em carris. Mais, o projeto técnico é baseado na análise de estudos que privilegiam a sustentabilidade económica e financeira do projeto, por ironia, a sustentabilidade financeira do projeto é baseada no garante de conseguirmos ter o maior número de utentes a usar o MetroBus e, assim sendo, procurará sempre a melhor forma de responder às necessidades dos utentes.

Há ainda uma questão fundamental que devemos compreender, o material circulante e as linhas do Metro Bus, irão servir o centro da cidade de Coimbra, que, em coordenação estreita com os SMTUC, permitirá direcionarmos os nossos veículos dos SMTUC para outras áreas mais deficitárias e responder a mais população com melhor serviço de transportes. O Metro será inclusive um grande impulsionador da estratégia de parques periféricos e de ligação entre a, futuramente, renovada Estação de Coimbra B, reativando a Ecovia, que tanta falta nos faz e redefinindo o perfil de trânsito e de aparcamento no coração da cidade e, ainda, impulsionando a utilização das ciclovias.

Por fim, dizer que este projeto é uma solução mais do que contemporânea e adequada, principalmente em termos ambientais, andarmos constantemente à espera da nova moda e dos milhões imaginários e impossíveis como a direita andou durante anos, levou-nos a mais de uma década de atraso e definhar da zona centro da cidade desde a baixa até ao Choupal. É claro que isso está a mudar e a implementação do Metro Bus permitirá a Coimbra virar esta página negra permitindo a que em breve tenhamos uma cidade exemplar em termos de mobilidade suave e sustentável, contribuindo para a revitalização da baixa de Coimbra, assim como da zona ribeirinha de Coimbra, com um único e grande objetivo Valorizar Coimbra!

Francisco Queirós

Tem 56 anos e é natural de Coimbra. Professor de História do Ensino Secundário, é vereador da CM Coimbra. Exerceu diversos cargos de gestão escolar, foi delegado sindical, dirigente sindical e associativo. Militante do PCP, é membro do Comité Central do PCP e tem vasta colaboração em órgãos de comunicação social.

 

Não! O encerramento do centenário ramal ferroviário da Lousã, com múltiplos episódios rocambolescos, foi de facto um atentado às populações dos concelhos de Miranda do Corvo, Lousã e Coimbra. A história não perdoará aos seus responsáveis. Durante anos, acenou-se com a construção de um metro que atravessaria Coimbra e se substituía a uma linha ferroviária de montanha. Houve centenas de estudos e propostas. E as populações seriamente prejudicadas. Um embuste! Prejuízos incalculáveis para as populações e para a economia da região. O que agora se oferece, o Sistema de Mobilidade do Mondego, é uma espécie de compensação, um remendo, um desenrascanço para não ficar de todo mal na fotografia. Mas não cumpre, não serve! A ferrovia é fundamental ao desenvolvimento do país. É o actual ministro da área que o proclama e com razão. E era essa a aposta que se devia estar a concretizar, modernizando este ramal ferroviário.
Quanto a Coimbra, exigem-se melhores transportes públicos. Tal passa, antes de mais, pelo reforço dos Serviços Municipalizados de Transportes Urbanos de Coimbra (SMTUC), em pessoal e meios, o que finalmente se tem vindo a verificar, e pela extensão da sua rede a todo o concelho. A solução é a de um serviço público municipal, apoiado pelo Estado, como são os STCP e a Carris, através de subsídios de compensação à exploração. Os conimbricenses querem transportes modernos,
amigos do ambiente e sobretudo fiáveis. Podem e devem ser adquiridos novos e melhores meios. Podem e devem ser criadas linhas dedicadas. Promover-se o uso do
transporte público, retirando o automóvel particular da cidade, não por quaisquer proibições, mas tornando o transporte público atractivo e assim cativando novos
utentes. E isto é possível com os SMTUC.

Jorge Almeida

Presidente da Comissão Política Distrital do CDS-PP, é professor adjunto no Instituto Superior de Engenharia de Coimbra. É investigador, membro sénior e especialista da Ordem dos Engenheiros. Colunista no Jornal Económico, é consultor e ex-director técnico de várias empresas e também ex-oficial do Exército. 

 

Actualmente, não existe um verdadeiro Sistema de Mobilidade do Mondego (SMM). Caso existisse, teria que cobrir toda a região ou uma parte significativa da mesma, o que, infelizmente, não acontece. Assim, a estrutura
actual não serve de modo nenhum as necessidades da população. Como sabemos, não é possível viajar com conforto e de forma contínua ao longo do distrito. Não existe sequer uma solução devidamente planeada,
que permita perspectivar no prazo razoável de uma década e de forma faseada, a sua concepção e construção.
Com a destruição do Ramal da Lousã, pelo governo PS, há cerca de uma década, agravou-se a situação, acarretando muitos prejuízos para as populações que o referido Ramal servia, ficando assim profundamente afectada, negativamente, a mobilidade. Face à população da região e à semelhança de outras cidades médias europeias, justificar-se-ia uma solução de eléctricos rápidos que inicialmente estava prevista para Coimbra, porém esta solução, de elevado custo e maior sofisticação técnica, veio a ser preterida.

Qualquer sistema de transporte moderno tem que oferecer
disponibilidade, rapidez e ser dissuasor da utilização do automóvel nos centros urbanos. Uma das razões que levou ao desmantelamento do Ramal da Lousã era a reduzida velocidade média da ligação. Espera-se, portanto, que após vários de milhões de euros de projectos e estudos e do investimento de cerca de 138 milhões de euros, no novo sistema MetroBus, esta questão seja finalmente resolvida e que a população, tão prejudicada na última década, seja
servida adequadamente, dando início à criação do SMM.
Importa ressalvar que, em 2023, o MetroBus, constituído por autocarros eléctricos, cobrirá apenas a ligação Coimbra-Miranda do Corvo-Lousã. Pelo que esta solução deve alargada a outros municípios e complementada com a rede ferroviária existente, quando possível. Há, pois, que pugnar pela continuação do investimento em infraestruturas de transportes públicos, de forma inteligente e adequada técnica e financeiramente às reais necessidades da população e do território.

Jorge Gouveia Monteiro

Nascido em 1956, licenciou-se em Direito. Foi dirigente do PCP, membro da Assembleia Municipal e vereador da CM Coimbra. Foi administrador dos Serviços de Acção Social da Univeridade de Coimbra (UC) e um dos fundadores da associação Grupo Gatos Urbanos. É coordenador da direção do movimento Cidadãos por Coimbra. 

 

Actualmente, não dá resposta, porque não está em funcionamento. Mas pode vir a dar resposta a muitas das necessidades de mobilidade de pessoas nos grandes eixos Estação Velha – Baixa – Praça da República – Celas – Hospital – e Baixa – São José – Solum – Ceira. Sobretudo se os rebatimentos com as novas carreiras dos SMTUC estiverem bem organizados e os tarifários comuns forem acessíveis, tal como tem sido afirmado. Não sendo um sistema ideal, pode recuperar do descrédito de anos sucessivos de contradições e adiamentos. Bem precisamos. 

Marta Correia

Nasceu em Coimbra em 1973. É licenciada em Serviço Social e coordenadora da Unidade de Apoios Sociais Diretos do Instituto Politécnico de Coimbra. É membro da Comissão Política Nacional do PAN – Pessoas- Animais-Natureza.

 

Resolve parte de um problema sobejamente conhecido por toda a população de Coimbra, Lousã, Miranda e Serpins. É já uma questão de “justiça” a reposição dos transportes entre estas localidades e Coimbra, com a qualidade e segurança que deve estar associada a um serviço público essencial. 30 anos é demasiado tempo. Mas ficámos a saber que esta situação nunca aconteceria em Lisboa ou no Porto, segundo o Secretário de Estado das Infra-estruturas. Teremos de olhar para todos os restantes concelhos vizinhos que irão ficar de fora e que são polos importantes, nomeadamente Figueira da Foz, Montemor, Mealhada, Soure, Condeixa, Cantanhede, Penacova e Poiares. No caso da Figueira, Montemor, Soure e Mealhada, estando já servidos por linha ferroviária, é possível e urgente articular este serviço com o restante sistema. Quanto a Condeixa, Cantanhede, Penacova e Poiares é fundamental estudar rapidamente a forma de os incluir no Sistema de Mobilidade do Mondego. Importa articular com todos os municípios o aumento da rede de parques de estacionamento periféricos gratuitos, com ligação a este e aos restantes transportes públicos.
A criação de interfaces de ligação entre vários tipos de transporte público, podem ligar os municípios que ficam de fora deste sistema, permitindo um transbordo fácil, quer para autocarros elétricos, quer para comboio, quer mesmo para bicicletas partilhadas através de ligações de ciclovias ou mesmo locais para car-sharing. Todos os novos sistemas de mobilidade devem privilegiar a mobilidade elétrica e suave e a sua fácil interligação.
Uma última nota para referir que, sendo acérrimos defensores da ferrovia e da sua eletrificação, não concordamos com este recurso a baterias. Há décadas que Coimbra demonstrou que pneus e alimentação por cabos não são incompatíveis. No entanto, dado o processo da Linha da Lousã, neste que entendemos ser apenas uma parte do que deve ser o SMM, o que importa de momento é implementar rapidamente a solução encontrada.

Próxima Questão Coimbrã:

Qual a melhor estratégia para a Saúde em Coimbra?

 

* Biografias da autoria dos inquiridos e editadas pela Coolectiva; respostas copiadas ipsis verbis. 

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