SINGULARES I

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O início não é sempre o começo das coisas. O início da minha vida foi no dia em que nasci, mas a minha vida só começou mais de quatro anos depois quando me abandonaram no autocarro. Do antes lembro-me de ter fome. Muita fome. É uma sensação que não consigo descrever, nem esquecer. Lembro-me de estar a virar o lixo e tentar matar a fome com cascas de laranjas. A Maria, a minha mãe biológica, meteu-me no autocarro e foi-se embora. Estávamos na Figueira da Foz, o autocarro ia para o Cabedelo, e eu fui e lá cheguei como tinha ido: sozinha, sem família, sem história, sem sapatos, só com fome. Fui descoberta por uma senhora que me levou àquela que foi a minha mãe, à pessoa a quem agradecerei sempre por me ter tirado a fome e cuidado das feridas. Mas não foi fácil. Eu nunca tinha calçado uns sapatos. Tinha quatro anos e também nunca tinha usado uma casa de banho, às vezes ainda dizia que queria fazer na rua. Ela não podia ter filhos, tinha sido operada em nova e tiraram-lhe tudo. Foi assim que se tornou minha mãe, mas via-se-lhe a amargura de não ter sido de forma diferente. Ela era uma guerreira, pescadora, mulher de força, levava tudo à frente, ensinou-me muito. Admirava-a, mas não queria ser como ela. Foi o meu começo.

Aos 19 anos, casada, mas muito infeliz, um dia desmaiei. Fui para o hospital e descobri que havia estado grávida e tinha perdido o bebé. Ouvi um médico dizer para a enfermeira sobre mim «então é esta que nunca mais vai poder ter filhos?». Foi um choque. Ser mãe era o meu sonho. Senti-me presa à ignorância, à vida que não podia ter, porque me abandonaram, porque me limitaram, porque não me deixaram ler e, agora, porque não podia ter filhos. Decidi que não seria o final, precisava de um novo começo. Passei anos a procurar uma solução. Descobri o Professor Agostinho Almeida Santos, médico em Coimbra, especialista em fertilização. Saí de casa, de um casamento de que nem gosto de me lembrar e decidi que era em Coimbra que devia estar. Meti a minha roupa num saco de plástico e vim para estar próximo deste médico. O meu bilhete tinha sido um anúncio de procura de uma empregada interna. Apresentei-me, nem queria receber dinheiro, só queria uma casa, estar numa família e perto do médico que ia salvar o meu sonho. Quando cheguei ao sítio anunciado, disseram-me que a vaga já estava preenchida. Viram-me assim sem chão e tentaram arranjar-me solução. «Espere aqui, vou falar ali com uma senhora daquele prédio que teve uma bebé muito pequenina e está à procura de ajuda». Assim esperei.

Depois, disseram-me para ir ao tal prédio, o 107, e subir. Quando me abriram a porta fiquei encantada. Nunca tinha visto uma mulher tão bonita. Ela era tudo de diferente para mim. Sentei-me à mesa, expliquei que queria vir viver para Coimbra e aceitava ser empregada interna por cama e comida. Disseram-me que isso estava fora de questão: pagar-me-iam sempre pelo meu trabalho. Há inícios e começos. Ali começou de novo a minha vida. Por isso comemoro a data como se fosse um aniversário, todos os anos celebro o 15 de junho, festejo o dia em que comecei a trabalhar aqui. Cuidar daquela família, daquelas duas crianças deu-me novo fôlego, foi a minha salvação. Os meus patrões tornaram-se amigos e depois padrinhos de casamento. Consegui separar-me e voltei a casar. Comecei a tentar ser mãe, a tentar cumprir esse sonho de sempre. O Professor Almeida Santos seguiu-me e ajudou-me a perceber o que se passara. Tinha tido uma gravidez ectópica e tinha um defeito nas trompas.

Perdi 7 gravidezes. Fiz muitas fertilizações in vitro. Naquela altura era muito difícil, mas eu queria muito ser mãe ou pelo menos chegar ao final da vida e saber que tinha feito tudo para isso. Não queria ser como a minha mãe que era amarga por nunca ter percebido o que se passara com ela. O meu marido ficava devastado de todas as vezes que as gravidezes não vingavam, já eu nem metia baixa, trabalhava sempre depois de perder os bebés. Precisava de trabalhar porque aquelas duas miúdas eram a minha tábua de salvação. Na minha primeira fertilização, a mais velha escreveu-me um cartão que dizia «A viagem começou». E começou mesmo. Mas não terminou como pensávamos. A última gravidez que perdi foi de gémeos e já estava de 4 meses. Foi horrível. Tiveram de provocar o parto, fui operada de urgência e pensei que ia morrer. Nesse dia disse «já chega, não vai ser assim». Também já estávamos inscritos para adoção há quatro anos, já tínhamos perdido quase a esperança, mas a verdade é que depois disto ligaram. Perguntaram se podíamos ir reunir. E nós fomos, mas a tentar não criar expetativas para não nos desiludirmos. «E se eu vos disser que é um recém-nascido? E um menino?». Não queria acreditar. Explodi de felicidade.

Fiz uma figura ridícula, aos saltinhos. Fomos buscá-lo à maternidade no dia seguinte. Festejamos o dia em que nasceu e também o dia em que o fomos buscar, porque não foi o início, mas foi o nosso começo. Sempre quis ser mãe e vim para Coimbra para isso. Foi aqui me tornei mãe, não como imaginava, mas como tinha de ser. Passados anos, o meu filho pediu-me um irmão. Eu sempre lhe contei toda a verdade, por isso lembrei-o de que não podia ter filhos, ele melhor que ninguém sabia, era adotado. Ele respondeu-me «Então adotas de novo, mãe. E agora adotas uma criança mais velha, não dizes sempre que os meninos mais velhos não são adotados?». Assim foi. Não foi tão rápido, nem simples, mas aconteceu. O meu filho mais novo já tinha 4 anos quando o adotámos. Começou como eu. E eu tenho aquilo com sempre sonhei: dois filhos maravilhosos. Às vezes perguntam-me se houve alguém que mudou a minha vida. Houve muita gente que ajudou, mas fui eu que mudei a minha vida. Há sempre um início, mas depois há os começos. Festejo muitas coisas, o dia em que nasci nem é a mais importante.

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Texto e foto de Ana Sousa Amorim

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Margarida Favila Raposo
25.11.2020

Tao bonito! Que historia de força, coragem e luta pela vida!
Parabéns, vou ser seguidora dos seus “Singulares”

Marília Coimbra
25.11.2020

Uma escrita singular. Uma vida inspiradora.
Que haja sempre muitos bons começos!