Cabrita Reis: “Camões era um homem moderno, provocador e transformador”

Quando um artista pensa num trabalho tem em conta alguns constrangimentos mas não os leva demasiado a sério, atira Cabrita Reis, enquanto acende o charuto. Atrás dele, no pátio exterior do Museu Nacional Machado de Castro, em Coimbra, está a sua Ilha dos Amores. O artista plástico, um dos mais conceituados em Portugal, foi convidado pelo CIEC – Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos para manifestar numa obra original facetas do seu diálogo com o legado camoniano lado a lado com outros autores. O resultado foi a exposição Refracções Camonianas em Artistas do Século XXI - Ut Poesis Pictura, que pode ser vista até Março de 2021. 

Eu tive Camões quando era miúdo e no meu tempo era um desastre, odiava aquilo tudo, só muito mais tarde lhe relancei um olhar diferente, com este convite voltei a ler e encontrei outras coisas que me agradaram, diz Cabrita Reis. Era um homem moderno, provocador e transformador no seu tempo. Os 30 elementos de ferro pintado de branco que o autor explica que falam uns com os outros e constroem entre eles a ocupação do pátio, resultam da interpretação que o artista fez da Máquina do Mundo que Tétis mostra a Vasco da Gama no Canto IX e X da obra prima de Luís Vaz de Camões: Os Lusíadas. A Ilha dos Amores na diversidade das experiências e a Máquina do Mundo na fragmentação de desespero e inutilidade de que a máquina já não funciona - mas isso já sou eu, já não é o Camões, elabora o artista.  

A escultura inédita de Cabrita Reis é apenas o aperitivo da mostra que se distribui por três salas do piso térreo do Museu, inclusive aquela onde está estacionado o Coche de D. Francisco de Lemos, do século XVIII. A exposição foi feita em parceria com a Câmara Municipal de Coimbra e além de Cabrita Reis, conta com obras de Albuquerque Mendes, António Olaio, Arlindo Silva, Francisco Laranjo, Fernando Marques de Oliveira, Graça Morais, José Maçãs de Carvalho, Sobral Centeno, José Rodrigues, Levi Guerra, Lu Lessa Ventarola, Manuel Casimiro, Pedro Calapez, Pedro Pousada, Pedro Proença, Rui Sanches e Zulmiro de Carvalho. Também Júlio Pomar e Nikias Skapinakis, já falecidos.

A ideia era lançar o desafio de trabalhar a temática camoniana não só no mito Camões mas na obra e, cada artista tentou dar corpo e vida a uma refracção, a um aspecto de Camões, conta Maria Bochicchio. A curadora conta que os artistas aderiram de imediato ao projecto, trabalharam muito intensamente nos últimos meses, cada um com a própria sensibilidade e identidade pictórica ou artística, reinterpretaram Camões e deram corpo às palavras. Camões pode ser lido de maneira imediata e isso é maravilhoso, conclui, sobre o escritor que viveu no século XVI e terá morrido em 1580. 

A presença de Pomar e Skapinakis é uma homenagem. Porque eles conseguiram transitar do século XX para o XXI na modernidade e contemporaneidade; Pomar trabalhou a identidade portuguesa e produziu um belíssimo retrato de Camões, muito emblemático e muito importante na História da arte actual; Skapinakis tenho de dizer, até de maneira comovida, que escolheu a obra só que não chegou a tempo para ver a exposição, revela Bochicchio. A investigadora do CIEC diz que se pode dizer que Camões é um clássico da modernidade portuguesa. Pode parecer uma contradição mas não é porque é tão moderno e ocupa um lugar na história da cultura portuguesa, continua a ocupar esse lugar. 

Refracções Camonianas em Artistas do Século XXI - Ut Poesis Pictura foi inaugurada dia 17 de Novembro, com a presença da Ministra da Cultura, Graça Fonseca. Pode ser vista no Museu Nacional de Machado de Castro até ao dia 28 de Março de 2021, de terça-feira a Domingo, das 10h às 17h30. A entrada é gratuita.

Texto e fotos: Filipa Queiroz

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