Ricardo Ladeira: “Muitos destes seres eram usados para educar através do medo”

Máscaras são variações do ser a que atribuímos o nome de Bicho Papão, personificação do medo, o Ser que pode ter várias formas e feitios criado com o intuito de meter medo às crianças com finalidade educacional. É assim que começa a viagem pela legenda das dezenas de obras que compõem a Umbra (Sombra, em latim), que se alojou na Marquise da Casa da Esquina, em Coimbra. Muitos destes seres eram usados para educar através do medo, acho um piadão a isso, havia algo de bom mas de errado também, diz Ricardo Ladeira, que desafiou Bruno Lisboa a explorar graficamente com ele o imaginário de mitos e lendas do folclore português. Há que ver as coisas à lente da altura, antigamente se fosses para o meio da floresta não era uma questão de rachares uma perna, era não voltares a aparecer; não se conhecia o mundo, só o que estava iluminado, se vias um vulto não fazias ideia do que era.

Parece mentira mas a ideia é anterior à pandemia. Numa altura em que somos forçados a conviver com o medo de um vírus desconhecido e usar máscaras para nos protegermos, em Coimbra podemos ver esta exposição inspirada nos heróis, seres fantásticos e fenómenos sobrenaturais que povoam Portugal há séculos, com a assinatura dos dois ilustradores que arriscaram novas técnicas ou materiais que tinham guardados na gaveta. A exposição foi adiada três vezes mas por um lado até deu jeito porque fomos produzindo mais, temos cerca de 80 peças agora, conta Ricardo Ladeira, natural do Porto mas residente em Coimbra. Bruno Lisboa, apesar no nome, tem um sotaque gaiense que não engana ninguém. 

Acho que tanto eu como o Ricardo vamos buscar influências à simbologia cristã e à mitologia grega por isso foi uma boa desculpa para fazer uns bichos engraçados, atira Lisboa. Os artistas fizeram uma espécie de residência artística, cada um na sua casa, em plena quarentena. Já sabíamos de algumas histórias mas quando começámos a investigar percebemos que tínhamos pano para mangas. Isso e ajudar a que as narrativas não caiam no esquecimento. Acho que sabemos mais sobre a mitologia grega e o folclore inglês do que sobre o nosso e se calhar temos histórias tão ricas ou tão interessantes aqui em Portugal, mas que precisavam de levar uma escavadela para as encontrar, diz Bruno Lisboa. Na Internet e através da consulta de obras como as do etnógrafo José Leite Vasconcelos e Hélder Reis (Lendas e Mitos e Ditos de Portugal, Manuscrito Editora, 2018), os artistas mergulharam na nossa cultura folclórica portuguesa e o seu invulgar imaginário, sem esconder alguns favoritos. Eu tenho um fraquinho pelo lenda do D. Sebastião, confessa Ladeira. Eu é mais bestas, tudo o que tenha asas e muitas patas, diz Lisboa. Mas há muito a descobrir na Casa da Esquina das Candeinhas aos Gigantones, do Galhardo ao Tardo passando pelas Bisarmas, Almajonas e Olharapos.

Visitar Umbra é uma descoberta onde, entre outras coisas, se percebe de onde vêm expressões que usamos e conhecem histórias que davam filmes como a de Maria Gancha, a mulher que vive no fundo dos poços e afoga os meninos que se aproximam dos seus braços em forma de gancho, contada às crianças no Minho para não se aproximarem do perigo. 

Ricardo Ladeira e Bruno Lisboa

A infância em Vale de Açor levou-o a explorar a imaginação, o que deu em formar-se em Arte e Design pela Escola Superior de Educação de Coimbra. Ilustrador e artista plástico, Ricardo Ladeira venceu o Prémio de Literatura Infantil do Pingo Doce em 2016, na vertente ilustração, com o trabalho O Meu Livro Tem Bicho, e foi um dos dez finalistas do projeto New Talent da NiT, Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e TVI. Bruno Lisboa é ilustrador mas também street artist e designer gráfico. Esta exposição foi quase um ginásio para treinar técnicas, um pretexto para explorar, conta o artista cujas obras incluem colagens, entre outras técnicas. Ricardo Ladeira conta que apostou no regresso ao acrílico. Já não pintava há muito tempo, foi importante ter um tema muito aberto em que pudesse experimentar à vontade. Desde o início que achei que o Bruno tinha um traço mais solto do que o meu e o facto de fazer uma exposição com ele fez com que me esforçasse para fazer algo com as dimensões com que ele trabalho, foi um teste para mim.  

Cabeçudos e Tiago Cerveira

Além das pinturas e colagens, Ladeira e Lisboa fizeram máscaras e cabeçudos em conjunto que depois usaram num vídeo assinado por Tiago Cerveira, que também pode ser visto na mostra. A Casa da Esquina sugeriu o realizador, fomos ver o trabalho, adorámos e vimos que também tinha um filme sobre máscaras, encaixou muito bem mesmo, conta Ricardo Ladeira. Num dia muito divertido apesar de sufocante, com caretos sobre máscaras anti-COVID19, os artistas deambularam pela Baixa de Coimbra e o Choupal. Achámos piada pegar numa tradição que só vemos num contexto de romaria e levá-los para o contexto urbano, continua Ladeira. A Casa da Esquina apoiou-nos imenso, inclusive monetáriamente que é uma coisa rara, nunca tinha acontecido uma exposição em que o sítio nos pagasse os materiais e nos apoiasse tanto como apoiou - foi incrível, remata.

Umbra pode ser visitada até ao final de Dezembro de 3ª a 6ª, das 14h às 18h e aos sábados por marcação através do email geral@casadaesquina.pt. A entrada é gratuita.

Texto e fotos: Filipa Queiroz

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Maria Ladeira
14.11.2020

Parabéns pela entrevista que nos convida a visitar uma exposição de excelência!!!