QUESTÕES COIMBRÃS | Como se atraem empresas e investimento para Coimbra?

O que é que perguntaríamos aos políticos da cidade se pudessemos? E o que é que cada um deles responderia? Estas perguntas foram o ponto de partida para a criação desta nova rubrica da Coolectiva e não precisámos de pensar muito no nome. Fomos buscá-lo à Questão Coimbrã, célebre polémica literária que marcou a visão da literatura em Portugal na segunda metade do século XIX. Há cerca de 150 anos, Antero de Quental e a chamada Geração de 70, estudantes em Coimbra, foram acusados de instigar uma revolução intelectual e tentar trazer a Portugal a modernidade europeia, porque consideravam que a arte devia estar ao serviço das transformações sociais, retratando a realidade tal como ela era.

É importante entender o sítio onde se vive que, como todos, tem as suas idiossincrasias. Há sempre tanto coisas a resolver como coisas a aplaudir. A partir de hoje, atiramos perguntas sobre diversos temas de relevância municipal a pessoas de diferentes quadrantes políticos para lançar o debate democrático e plural. 

Acederam ao nosso desafio Carlos Cidade (PS), Francisco Queirós (CDU), Jorge Almeida (CDS), Jorge Gouveia Monteiro (Cidadãos por Coimbra), José Manuel Silva (Somos Coimbra), Marta Correia (PAN), Nuno Freitas (PSD) e Paula Pêgo (independente) que no primeiro artigo apareceram assim, por ordem alfabética, mas agora utilizamos um esquema rotativo de ordenação das respostas, para assegurar a isenção e transparência para com todos os participantes e leitores. 

Durante cerca de um ano, contamos tratar aqui assuntos de interesse público para contribuir para um esclarecimento generalizado da população relativamente às posições e propostas políticas dos nossos inquiridos, nos mais variados campos. A qualquer momento, aqueles inseridos num partido ou movimento político têm a liberdade de designar outra personalidade do mesmo para responder. O conjunto de respostas a cada questão é publicado quinzenalmente aqui, na Coolectiva. Contamos com a vossa atenção desse lado.

Como se atraem empresas e investimento para Coimbra?

 

Paula Pêgo

Doutoranda em Ciência Política (área governação), em fase de tese, na Universidade de Aveiro, é licenciada em Direito, pela Faculdade de Direito da UC. Exerce o cargo de jurista na empresa municipal Águas de Coimbra, E.M., é administradora não executiva da empresa Metro Mondego S.A. e vereadora sem pelouro na CM Coimbra.

 

A Universidade de Coimbra e o Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra são as duas instituições que conferem centralidade a Coimbra. Mas, num mundo cada vez mais globalizado, o futuro de Coimbra e da Região terá forçosamente de passar por uma afirmação ao nível global e não tanto pelo seu posicionamento ao nível nacional. Para a Região de Coimbra se posicionar no plano internacional é condição necessária a existência de escala de atuação, pois à escala global esta tem uma dimensão muito reduzida. Para colmatar este constrangimento e atrair empresas e investimento por forma a gerar valor acrescentado significativo, é fundamental usar a Região Centro numa lógica de rede e complementaridade
das suas cidades e territórios. Para tal, é necessária uma cooperação estratégica entre os principais atores institucionais por forma a promover uma interação sistemática entre o sistema científico e tecnológico regional e o tecido económico e social que vise a transferência
de conhecimento e tecnologia com o objetivo de gerar inovação com valor económico. Como exemplo, pode ser referido a criação na área da saúde de um eixo de conhecimento Coimbra-Aveiro-Covilhã que aproveite as diversas valências complementares existentes no setor, bem como a localização estratégica da Região Centro como ligação à Europa. O setor da saúde é chave para o desenvolvimento de Coimbra, mas, para aumentar a sua competitividade e afirmar Coimbra como Capital da Saúde no Mundo, este terá de ganhar escala e assentar
sobretudo na inovação, qualidade, criação de valor acrescentado e capacidade exportadora.

Sendo Coimbra a Capital da Região Centro, o Município é um ator institucional chave numa estratégia de atração de empresas e investimento. Cabe assim ao Município assumir a sua condição de Capital e desempenhar um papel mobilizador e liderante na promoção de um desenvolvimento sustentável em toda a Região.

Carlos Cidade

Licenciado em Direito, exerce no Núcleo de Apoio Jurídico da Águas do Centro Litoral, SA (Grupo Águas de Portugal). Foi dirigente sindical, adjunto e chefe de gabinete do presidente da Câmara Municipal (CM) de Coimbra e vereador. É vice-presidente da CM Coimbra e membro da Comissão Nacional do PS.

 

Coimbra está numa rota de crescimento do investimento privado e da criação de emprego. Essa realidade é inegável, está bem vincada, até nos jornais e no trabalho, dou como exemplo, a Coolectiva. Vejamos os novos negócios no centro da cidade e não só.  Recordo,  quando chegamos em 2013, como era a envolvência da Praça das Cortes, da João das Regras, da margem do Rio e do Convento São Francisco! O investimento público e no espaço público, que fizemos em Santa Clara, é hoje dinamizador de vários negócios de pequena e média dimensão. É nessa política que nos centramos, melhorar o espaço público, dar as condições e incentivos logísticos, fiscais e administrativos para atrair negócios.

Depois há uma segunda vertente, mais industrial e tecnológica. Conhecemos bem o crescimento que (depois de vários anos de marasmo da governação de direita) o IParque está a ter, investimento da Olympus, Sanfil, CTCV e outros, que estão a criar várias centenas de empregos novos. Estamos a começar a entrar numa segunda fase de desenvolvimento do IParque e das suas infraestruturas. Como sabemos, emprego cria emprego, e sabemos que novos negócios vão surgir inerentes a estes grandes investimentos. Salientamos também o Cluster da saúde, com investimentos em Cernache, Eiras, São Martinho do Bispo e Pedrulha, que são de enorme relevância e colocam Coimbra na linha da frente deste sector, tal como a Bluepharma e a Plural. Tudo temos feito para apoiar e incentivar os empresários. E a maioria dos entraves que se apresentam são legais e esses não podemos descurar nem passar por cima.

Sabemos que ainda há um défice de espaços para escritórios e existe pouco mercado apetecível de reabilitação urbana, para espaços de Co-work, sendo algo em que estamos a trabalhar, mas já há exemplos de atração de espaços de Co-work e até de elevado volume de investimento no Centro da Cidade, principalmente na zona que irá ligar a baixa à zona ribeirinha.

Francisco Queirós

Tem 56 anos e é natural de Coimbra. Professor de História do Ensino Secundário, é vereador da CM Coimbra. Exerceu diversos cargos de gestão escolar, foi delegado sindical, dirigente sindical e associativo. Militante do PCP, é membro do Comité Central do PCP e tem vasta colaboração em órgãos de comunicação social.

A primeira condição, e fundamental para atrair empresas e investimento, é de alteração de paradigma. A Câmara de Coimbra tem de ser profundamente “amigável” e acessível a todos, aos seus munícipes e também a todos que queiram fixar-se neste território. Tem de ser um município de portas abertas. Que envolve e escuta os seus cidadãos e cujos responsáveis recebem, ouvem, analisam e discutem propostas em tempo útil. Coimbra tem de valorizar mais o que já de bom tem. Exige-se uma Câmara a fortalecer sinergias com a Universidade e o Politécnico, o Instituto Pedro Nunes e os diversos centros de investigação. Há óptimas condições para continuar a alavancar o desenvolvimento de novas áreas tecnológicas. Coimbra tem de revitalizar os seus parques industriais. Mas a Coimbra exige-se a revitalização do sector produtivo, designadamente do que já fez história, como a cerâmica. A Coimbra exige-se que apoie o pequeno tecido empresarial e desde logo o comércio tradicional. Estes são pilares de desenvolvimento sem os quais não há qualidade de vida no concelho. Sendo certo que a revitalização da pequena e média indústria e do comércio tradicional passam em larga medida pela adopção de outras políticas, nomeadamente fiscais, de âmbito nacional, o município
pode e deve incentivar o seu desenvolvimento. Para a revitalização do comércio tradicional é fundamental a requalificação urbana dos centros históricos. Afastar o
fantasma da gentrificação da Baixa e da Alta e repovoar estes núcleos, fixando serviços públicos, actividades de lazer e culturais é condição também para atrair
comércio. Uma cidade pensada na sua globalidade, em termos de mobilidade, de transportes, de
urbanismo é também uma cidade mais receptiva ao investimento.

Jorge Almeida

Presidente da Comissão Política Distrital do CDS-PP, é professor adjunto no Instituto Superior de Engenharia de Coimbra. É investigador, membro sénior e especialista da Ordem dos Engenheiros. Colunista no Jornal Económico, é consultor e ex-director técnico de várias empresas e também ex-oficial do Exército. 

 

Em toda a Europa, as cidades médias são muito atractivas em termos de investimento, captação de empresas, fixação de jovens qualificados e a situação em Portugal não é diferente. Paradoxalmente, em Coimbra, a situação
é a oposta. Não obstante Coimbra, teoricamente, ter tudo a seu favor, para se afirmar em termos de captação de empresas, como a existência de duas fortes
instituições de Ensino Superior (Universidade de Coimbra e Instituto Politécnico de Coimbra), procuradas anualmente por milhares de jovens e uma das melhores incubadoras de empresas europeias (Instituto Pedro Nunes), a verdade é que não tem sido possível reter os jovens, captar investimento e fixar empresas.
A urgente inversão da actual situação, passa pela mudança de paradigma. Coimbra não pode ficar, como até agora, numa situação passiva, à espera de ser demandada por empresas. Tem que criar uma estrutura de captação de investimento, nacional e internacional, de forma organizada com as instituições de Ensino Superior, Associações Empresariais e outras entidades. Coimbra tem muito para oferecer, mas há necessidade de consolidar e estruturar a atracção do investimento e dar visibilidade ao mesmo. A atracção de empresas passa pela desburocratização, estímulos fiscais, simplicidade de processos de instalação e rapidez de decisões. Esta
atracção pode e deve ser coadjuvada pela criação de parques empresariais com cedência de terrenos a preços competitivos ou alargamento dos já existentes, cedência de espaços devolutos e degradados no centro urbano e
reforço da mobilidade urbana e suburbana. As cidades médias europeias são numerosas, extremamente competitivas, eficazes nas candidaturas aos programas comunitários e com elevada capacidade de lobby, nos meios de decisão europeus. Coimbra tem todas as condições para captar investimento e de se
afirmar no contexto europeu, mas precisa, acima de tudo, de estratégia e de a comunicar de forma clara e eficaz.

Jorge Gouveia Monteiro

Nascido em 1956, licenciou-se em Direito. Foi dirigente do PCP, membro da Assembleia Municipal e vereador da CM Coimbra. Foi administrador dos Serviços de Acção Social da Univeridade de Coimbra (UC) e um dos fundadores da associação Grupo Gatos Urbanos. É coordenador da direção do movimento Cidadãos por Coimbra. 

 

Disponibilizando condições vantajosas para quem as criar, transferir para Coimbra ou ampliar.  O recente debate sobre a Frente Ribeirinha entre as estações ferroviárias tornou claro que há grandes oportunidades para atrair indústrias criativas (assim chamadas no Plano da ARU Coimbra Rio) em toda a zona do Arnado e Oleiros. Falamos do coração da Cidade, com uma frente de Rio fabulosa, de fazer inveja a qualquer outra Cidade. Aprender com a experiênca de Cidades, designadamente Lisboa, que reconverteram zonas de indústrias desactivadas, não parece difícil numa Cidade cujas instituições de ensino superior produzem conhecimento que é urgente transferir.

José Manuel Silva

Assistente hospitalar graduado de Medicina Interna dos HUC e professor auxiliar de Medicina Interna, foi pró-reitor da UC e Bastonário da Ordem dos Médicos. É coordenador do movimento independente Somos Coimbra e vereador sem pelouro da CM Coimbra. A preocupação com questões sociais tem-se traduzido em múltiplas intervenções públicas. 

 

De 3º município do país, Coimbra é hoje somente o 19º concelho nacional, com 134 mil residentes, reduzida a uma cidade de passagem de turistas e estudantes; desde 2001,
perdeu 10 vezes mais população (em percentagem) do que a média do país (9,5 vs 0,95%). Por falta de emprego e oportunidades, Coimbra é um dos piores concelhos do país na perda de jovens residentes dos 24-29 anos, tendo perdido 54% destes jovens nos últimos 18 anos (redução média do país foi somente de 34%). Coimbra é apenas o 65º concelho em empresas não financeiras/100 habitantes (Pordata, 2018) e em bens exportados (incluindo o turismo) (Pordata, 2019), atrás de concelhos como Pombal, Nelas, Tondela, etc., com um balanço negativo relativamente às
importações. Sendo Património Mundial e dependendo tanto do turismo, Coimbra está somente no lugar
239º no número médio de pernoitas por turista (Pordata, 2019). Todavia, Coimbra tem um potencial de desenvolvimento e crescimento brutal, fruto das
suas competências, localização e património histórico e cultural. É primordial definir uma estratégia de futuro numa perspectiva do concelho como polo nuclear e acelerador de uma grande área metropolitana regional e que promova a globalização de Coimbra. Elencamos sete das muitas medidas que propomos:

– Organizar a Câmara para responder rapidamente aos munícipes e empresários. Para isso, é essencial reiniciar a sua Certificação Externa de Qualidade.

– Criar um Conselho Estratégico para o Desenvolvimento de Coimbra. 


– Elaborar um plano estratégico de cultura e turismo, promovendo toda a região.


– Tornar Coimbra mais competitiva em termos de impostos e de taxas. Por exemplo, para
uma ampliação industrial, em Coimbra as taxas são cerca de 9 vezes superiores a
Cantanhede!

– Isentar de taxas os investimentos produtivos que recuperem os velhos espaços industriais.


– Ampliar, a valores competitivos, as áreas industriais.


– Dinamizar o Gabinete de Apoio ao Investidor, para que seja proactivo na procura e
atração de investimento.

Marta Correia

Nasceu em Coimbra em 1973. É licenciada em Serviço Social e coordenadora da Unidade de Apoios Sociais Diretos do Instituto Politécnico de Coimbra. É membro da Comissão Política Nacional do PAN – Pessoas- Animais-Natureza.

A palavra “mágica” para Coimbra, na área empresarial e do investimento, é a desburocratização. Todos conhecemos exemplos de empresas que tinham nos seus planos a implementação na nossa cidade e que por dificuldades que lhe foram sendo criadas, desistiram e optaram por outros municípios. O combate ao desemprego, começa na capacidade de se atraírem investimentos e empresas para Coimbra. Que não se entenda por desburocratizar o menor respeito pelas regras, sejam ambientais, arquitetónicas, laborais ou outras, mas pela necessidade de mudar radicalmente a imagem de que qualquer investidor em Coimbra tem com a Câmara: uma mistura de
corrida de obstáculos com corrida de fundo. Infelizmente esta imagem corresponde à realidade e como tal urge mudar essa realidade. Assim, propomos a criação de uma “Via verde” para as empresas, onde toda a documentação inerente à criação de novas empresas ou de apoio às já existentes, seja tratada de forma rápida e eficaz.
Propomos que a autarquia, em parceria com a Universidade, o Politécnico e outros atores, se converta num município do Bem Comum, nomeadamente através das seguintes ações: o Criar programas de incentivo ao empreendedorismo social, procurando estimular a implementação de modelos de negócios capazes de pensar o território no qual estão sediados e de definir prioridades que contribuam para o desenvolvimento socioambiental e sociocultural das comunidades locais; o Importar e
adaptar ao nosso território modelos de organizações económicas cooperativas e projetos de economia solidárias. Criar programas de incentivo ao empreendedorismo social, procurando estimular a
implementação de modelos de negócios capazes de repensar o território e de definir prioridades que contribuam para o desenvolvimento das comunidades locais.

Nuno Freitas

Nascido em Coimbra, tem 49 anos. Foi dirigente estudantil, é médico anestesiologista. Foi deputado na Assembleia da República (Comissão de Saúde) e vereador da CM Coimbra. Fundou a empresa MEDSIMLAB em 2008 (IPN) onde é CEO. É amante de fotografia e rugby, pratica natação, futebol e padel. É casado e pai de 3 filhos, católico e canhoto.

 

Mudando a gestão da cidade! Precisamos com urgência de uma cultura amiga do investimento e da livre iniciativa dos cidadãos, com especial atenção a quem cria empregos que fixem jovens e famílias. Novas indústrias, empresas inovadoras, capacidade exportadora. Investimento directo estrangeiro e nacional em áreas estratégicas como o espaço, tecnologias de informação e saúde. Criar um fundo de capital de risco regional gerido externamente e fundos de co-investimento verdes para novas empresas na fileira ambiental e de descarbonização da economia. É todo um novo programa e uma outra atitude política. Só dá mudando por completo a equipa de gestão de Coimbra.

Próxima Questão Coimbrã:

O Sistema de Mobilidade do Mondego dá resposta às necessidades da população? 

  

* Biografias da autoria dos inquiridos e editadas pela Coolectiva; respostas copiadas ipsis verbis. 

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