Nestas cozinhas preparam-se sonhos e não é só no Natal

Ouvem-se panelas a bater e talheres a pousar. Há um cheirinho a solidariedade e compaixão no ar. É quase hora do almoço e centenas de refeições preparam-se para sair das Cozinhas Económicas Rainha Santa Isabel, em Coimbra, para as mãos de mais de 500 famílias em situação de carência económica e alimentar na cidade. São 820 almoços e jantares distribuídos diariamente a quem precisa e não raras vezes as devora ao virar da esquina, sem sequer se sentar.

Com a pandemia, agravou-se a falta de condições para os receber no edifício cumprindo todas regras de higiene e segurança declaradas pelas autoridades de saúde, que Ana Maria Cristovão diz que são as mesmas exigidas a qualquer hotel. O facto de o edifício do Terreiro do Mendonça, na Baixa, datar de 1933 também não ajuda. Pelo menos a União de Freguesias colocou prontamente uns toldos aqui à porta para as pessoas não apanharem chuva, de qualquer forma recusamos ter qualquer criança na fila à espera para comer, por exemplo - elas ficam em casa e os pais levam, explica a directora técnica da ACERSI - Associação das Cozinhas Económicas Rainha Santa Isabel.

As jovens famílias foram uma das novidades trazidas pela crise que começou em Março. Trouxe-nos situações de grande vulnerabilidade, famílias que viviam algumas de modo confortável mas grande parte já sem nada ou muito pouco, e é para esses que aqui estamos.

Há 36 anos na instituição, é com propriedade que Ana Maria Cristovão lamenta que uma faixa da população tenha sido muitas vezes esquecida pela legislação criada durante o confinamento. Não nos podemos esquecer que as pessoas às vezes não têm qualquer rede de suporte que lhes permita sobreviver e que quando dizem que devem ficar em isolamento, têm de ter quem lhes leve as coisas, continua. Para angariar fundos para os materiais de take-away e obras de recuperação no prédio, a ACERSI depende da generosidade da comunidade.

Dois dos maiores eventos de angariação de fundos da associação tiveram de ser cancelados este ano: a Venda de Natal, o Jantar Solidário e, mais recentemente, o Concerto Solidário de Natal, reagendado para Dezembro do próximo ano. 

Cozinhas Económicas

Associação das Cozinhas Económicas Rainha Santa Isabel fica no Terreiro do Mendonça, no coração da Baixinha. Tem cerca de 500 sócios e três valências: o Refeitório Social, o Centro de Dia e o Apoio Domiciliário. A grande maioria dos utentes do Refeitório chega encaminhada pela Segurança Social e a refeição para esses casos é gratuita. No entanto, e porque somos uma associação, qualquer pessoa pode vir verificar o nosso serviço, diz Ana Maria Cristóvão.

Quem vai por iniciativa própria comparticipa a refeição com 1,40€, mediante análise da equipa de atendimento que verifica a situação de carência económica ou alimentar. Temos famílias que emergiram com a pandemia, que conseguiam fazer face às suas despesas e de repente, de um dia para o outro, ficaram sem quaisquer rendimentos, conta Ana Cristóvão. E o atendimento não serve apenas para atestar a incapacidade económica delas mas para ajudá-las a minimizar ou, se possível, resolver os problemas delas e acompanhá-las de forma articulada com outros serviços da cidade

Obras 

O edifício funciona desde 1933 e, apesar de cumprir com todas as regras de segurança e higiene, acaba por não ser funcional, diz Teresa Sousa, assistente social da ACERSI. Não dá para continuarmos a funcionar assim, precisamos urgentemente de reestruturar os serviços, os utentes estão a receber as refeições em modo take-away por falta de condições para os receber e porque o número de pedidos aumentou exponencialmente.

À nossa volta, há várias pilhas de recipientes, talheres de plástico, copos e guardanapos. Estamos cheios de material que implica um custo muito avultado e que não estava contabilizado por isso todas as ajudas que puderem vir nós agradecemos, seja através de donativos, da compra de bilhetes para o concerto ou entrega de bens alimentares. Aceitam bacalhau, batatas, couves e azeite para o Natal, por exemplo.  

Cultura

Além de promover espectáculos e outros eventos para angariação de fundo, a ACERSI promove o contacto dos utentes com a cultura através de pequenos concertos, por exemplo. No ano passado foi possível ver os sorrisos estampados nas caras deles quando viram aqui músicos a cantar, são pessoas que não têm acesso porque não têm dinheiro para ir a um concerto ou uma peça de teatro, e mesmo que existam iniciativas também se sentem inferiorizados porque não têm onde tomar banho ou onde se ajeitar para ir, conta Teresa Sousa. Não aderem porque não se sentem confortáveis.

Pedro Ferreira, da Academia de Música de Coimbra, que costuma colaborar com a associação, diz que não podemos falar em cultura se as necessidades não estiverem asseguradas. É nossa preocupação estarmos presentes como se fosse uma primeira linha de acção; proporcionar a todos esse lugar de pertença, de que a cultura é aberta a todos. A direcção da ACERSI diz que existe a possibilidade de, em 2021, o Concerto Solidário voltar a acontecer com outras condições e mais lugares.

Voluntários

Os funcionários a tempo inteiro na ACERSI são cerca de duas dezenas, que depois contam com o apoio de voluntários. Segundo Ana Maria Cristóvão, desapareceram muitos jovens desde o início da pandemia mas, em compensação, apareceram reformados com vontade de se sentirem úteis e meter mãos à obra social. Um deles era chef de cozinha, vem ajudar a picar cebola - que pica como ninguém -, cortar carne e fazer esse tipo de coisas, diz a directora técnica da ACERSI.

Os voluntários fazem coisas como empratar, a entregar as refeições à porta e preparar lanches. Também há enfermeiros e psicólogos que apoiam na administração e por vezes mesmo aquisição de medicação. Ana Maria Cristóvão diz que é importante que os voluntários gostem daquilo que vão lá fazer e como percebemos que possivelmente há mais áreas em que necessitem de apoio, perguntámos quais. A organização de eventos, por exemplo, poderia ter suporte de voluntários, que é uma coisa que não dominamos de modo nenhum, responde. Fica a dica. 

Texto e fotos: Filipa Queiroz

Artigo actualizado a 27 de Novembro, 2020

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carlos leire da silva
11.11.2020

Excelente reportagem da CO-O LECTIVA.Obrigado pela ajuda prestada.