Aqui fazem um brinde na Baixa com arte

Não passa despercebida na chamada Baixinha de Coimbra. Geralmente gasta seguir a música desde a Praça 8 de Maio ou qualquer outra das labirínticas ruas da zona até ao Largo do Poço para descobrir a Camponeza. Quem recebe é Paulo Bela ou Assunção Ataíde, mulher dos sete ofícios que se divide entre esta e a actividade principal de professora de educação especial, fora o associativismo.

O espaço é de mercearia tradicional e abriu originalmente em 1912, coisa que os proprietários gostam que se note ou não tivessem deixado o belíssimo balcão e prateleiras de madeira entre outros elementos à vista de todos. Em 2016, arrancou o actual projecto que se dedica à comercialização de produtos de qualidade tanto na área da alimentação como na área das bebidas, aliando os produtos tradicionais à inovação de sabores contemporâneos. 

Mas mais do que isso: a Camponeza é um ponto de encontro com degustações servindo vinhos, chás e outros produtos de selecção, que tanto chamam conimbricenses que apreciem o bom convívio gastronómico como turistas de visita à cidade, em particular os que apreciam vivenciar tradições.

O facto de ficar mesmo ao lado do Salão Brazil, não é por acaso. Faço parte do Jazz ao Centro Clube desde o início e surgiu a oportunidade de se comprar este prédio, que era do Sr. Manuel da Caravela, conta Assunção Ataíde. Ele [antigo proprietário] achava que este espaço devia ser utilizado por alguém jovem ou com uma cabeça diferente – eu não sou jovem mas faço por chamar as pessoas e dizer-lhes sempre para virem ver a loja mais linda de Coimbra, porque esta loja encanta-me pelo espaço, pela história, por isso tudo. 

Camponeza

O facto de ter um irmão produtor de vinho ajudou. Assunção Ataíde e o cunhado começaram por vender garrafas de Monte da Raposinha, Ataíde, entre outros. Hoje a variedade é imensa e para os mais diferentes bolsos mas sempre primando pela qualidade, asseguram. Actualmente Assunção também preside a Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra (APBC) e garante que a prioridade é promover a boa vizinhança e atrair as pessoas para a zona histórica, com o foco no que ela tem de bom para oferecer. Por estes dias, espreita na montra da Camponeza o licor e a Geropiga da Confraria da Geropiga de Miranda do Corvo, com meio quilo de castanhas a acompanhar. Faço questão de ter esta, afinal se há uma confraria em Coimbra para que é que eu iria buscar a outro lado?, diz a comerciante enquanto serve um copinho na esplanada. Das mesas de madeira aprecia-se a dinâmica da calçada, repleta de comércio tradicional desde as históricas lojas Pedrosa às mercearias, sapatarias e tascas. Em tempos não pandémicos, a loja promove convívios vários e abre a porta a festas de amigos. De resto, o horário é competitivo: 10h30 às 23h45.

Galeria

Nos andares superiores da Camponeza há uma galeria de arte. Iniciativas de artistas como Babu com a sua Ocupação Tropicana – intervenção artística e social e do colectivo Há Baixa lançaram o mote. Foram umas dinâmicas giras e também criamos sempre sinergias com o Salão Brazil e agora com a APBC, conta Assunção Ataíde. No início de Outubro deste ano, a propósito do Dia Mundial da Saúde Mental, inaugurou Mind & Art, com obras feitas por utentes da Fundação Beatriz Santos. Se visitarem, pode ser que também descubram o ocupante do 1º andar, Carlos Costa, que construiu um ateliê com trabalhos originais feitos com mosaicos e azulejos recolhidos da rua e de velhas fábricas abandonadas. Também tem esculturas feitas à navalha e acessórios como brincos e colares. Comecei em África, passei lá um tempo e aprendi com amigos, depois profissionalizei-me como marceneiro, conta. A empatia gerada com os donos fez com que uma instalação temporária se transformasse numa presença a termo incerto e o criativo, que chegou a fazer painéis nas ruas da Baixa, enche com as suas flores e animais multicoloridos a sala que, como o resto do nº 80 da Rua da Louça, aguarda recuperação.

Texto e fotos: Filipa Queiroz

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joao
09.03.2021

Gosto de ler e perder-me pelos vossos artigos de autor. parabéns! post s: tenham atenção às “malditas gafes” .

    09.03.2021

    Boa tarde, João. Agradecemos muito as simpáticas palavras que nos motivam. Seria óptimo se nos pudesse avisar quando detectasse erros, acreditamos que há sempre espaço para melhorar o nosso trabalho e um leitor atento é um leitor valioso. Até breve